Possibilidade de tsunami alerta para a necessidade de monitoramento de eventos críticos no Brasil

Hoje, País não tem rede de comunicação com lugares onde há registro de atividades vulcânicas ou plano emergencial contra ondas gigantes

Legenda: A última erupção do vulcão Cumbre Vieja ocorreu há cerca de 50 anos
Foto: Shutterstock

O recente anúncio de que o vulcão espanhol Cumbre Vieja poderia provocar um tsunami na costa brasileira, devido ao avanço no nível de alerta de erupção do verde (1) para o amarelo (2), reavivou o temor de que uma onda gigante invada o Ceará. 

Embora essa probabilidade seja “ínfima”, a recente atividade vulcânica na Ilha de La Palma, na costa do continente africano, não é 100% descartada. Mais que isso, sinaliza que o Brasil necessita de uma rede de comunicação e monitoramento preventivo de eventos críticos, defende o professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fábio de Oliveira Matos. 

Nós não temos plano emergencial contra tsunami no Brasil, muito menos no Ceará. E o importante nessa questão é sempre a manutenção de monitoramento, de pesquisa e do contato direto com esses locais com potencial impacto danoso para o nosso país”
Fábio de Oliveira Matos
Professor do Labomar/UFC

Matos menciona a importância da institucionalização, por exemplo, das informações recém-divulgadas pelas autoridades espanholas.  

O pesquisador e professor do Labomar da UFC, o oceanógrafo físico Carlos Teixeira, também compreende que o Brasil deve “começar a pensar” em se precaver, diante da possibilidade - ainda que distante, mas existente - de ocorrência de eventos críticos como um tsunami.  

Para isso, indica, devem ser realizados mais estudos sobre esses eventos e seus possíveis impactos. Os dados já coletados, seja quanto à forma de propagação dessas ondas ou mesmo sobre alagamentos, também precisam ser reunidos e aprofundados. 

"O que os administradores têm que fazer com calma, sem emergência? São estudos para dizer: ‘Olha, se a gente tivesse uma onda chegando aqui com meio metro, numa condição de superlua, maré alta de sizígia [alinhamento de três corpos celestes], quais regiões seriam inundadas? Quais as regiões precisariam ser evacuadas?’”. 

Legenda: A distância entre o litoral do Maranhão e ilha onde fica o vulcão é de quase 5 mil quilômetros
Foto: Reprodução/Google Maps

‘Alarmismo desnecessário’ 

Do contrário, qualquer notícia atrelada a um maior risco de erupção do vulcão poderá provocar “pânico e alarmismo desnecessário” na população.

“Então, é por isso que a gente precisa estudar. Existe uma possibilidade mínima [de tsunami no Brasil], mas ela não é iminente e não vai acontecer nos próximos dias”, garante Teixeira. 

Muitas variáveis tornam mínima a possibilidade de uma onda gigante atingir a costa brasileira. A primeira, segundo Matos, é que a erupção ocorre somente quando chega ao nível 4. Porém, ainda está no nível 2 e assim poderá permanecer por tempo indeterminado. Ou mesmo voltar ao nível 1, de estabilidade. 

Mesmo entrando em erupção, o vulcão ainda teria que ser acompanhado de uma explosão. E nem assim seria possível cravar se ele conseguiria gerar ondas gigantes, com força para atravessar o Atlântico e ainda chegarem altas ao Brasil.

A quantidade de material desprendido pelo vulcão também está entre os fatores a considerar no cálculo do tamanho e velocidade das ondas.  

“Esse tsunami só ocorreria se você tivesse um desmoronamento de parte da Ilha [da La Palma]. Então não é só ter uma erupção, um vazamento de lava. Teria que ser uma erupção específica, com muita energia, explosiva. A gente está longe disso. Mais importante hoje é evitar lixo na praia, evitar plásticos porque isso, sim, está matando nossos animais, nossos oceanos”, arremata Carlos Teixeira. 

Legenda: Por mais de uma vez, fortalezenses temeram a chegada de uma onda gigante na orla da Capital
Foto: Nilton Alves

Atividades sísmicas no Ceará 

O pesquisador do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Afonso Rodrigues de Almeida, também considera pequenas as chances de um tsunami advindo do vulcão Cumbre Vieja.  

“A atividade sísmica naquela região [da Ilha] está muito baixa. Apesar de ter uma frequência muito grande, a liberação de energia é sempre muito pequena. Foram mais de 4.500 sismos, a grande maioria de baixa magnitude e intensidade muito baixa. Portanto, isso nos leva a crer que um evento de grande porte não deve acontecer”.    

Por isso, na opinião do pesquisador, monitorar as atividades sísmicas no Ceará se revela mais importante que verificar atividades sísmicas de baixa magnitude fora do País. 

“Os cuidados devem ser muito mais voltados para a nossa região, para os nossos sismos porque as atividades sísmicas no Ceará são muito frequentes, todo dia nós temos. Nós já tivemos atividades sísmicas forte com danos relativamente grandes causados à população de Palhano”, município localizado na região do Baixo Vale Jaguaribe.  

Conforme o Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN), Palhano passou por um ciclo de intensa atividade sísmica, com vários eventos de magnitude maior ou igual a 4.0, no período de 1989 a 1991. Em 2019, a cidade registrou um tremor de terra de magnitude 2.4. 

“Se nós sabemos hoje que a atividade sísmica no Estado do Ceara é real, à medida que nós colocamos estações sismográficas, quanto maior for o número, maior vai ser a quantidade de sismos que vão ser registrados. Muitas vezes não foram, por conta das atividades sísmicas serem de baixa magnitude, como essa que está acontecendo na Ilha de Palma”. 

 

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