Polícia investiga convites para 'suicídios coletivos' em escolas; especialista alerta para saúde mental

Agentes de segurança identificaram suspeitos e os “chamados” podem ser qualificados como crime, mas são também um alerta para cuidar de pessoas em adoecimento psíquico

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Metro
Envio de mensagens pode ser qualificado como crime
Legenda: A Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) abriu investigação sobre a distribuição de mensagens compartilhadas via redes sociais e que será tratada como ato infracional análogo ao crime
Foto: Shutterstock

Mensagens marcando data, local e hora para supostos “suicídios coletivos” têm circulado entre estudantes de escolas privadas de Fortaleza, desde a última quarta-feira (17), motivando abertura de investigação policial. Brincadeira ou real ideação, os “chamados” podem ser qualificados como crime, mas são também um alerta para a saúde mental.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Ceará informou, em nota, que a Polícia Civil (PCCE), por meio do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV) e do Departamento de Inteligência Policial (DIP), já identificou suspeitos de envolvimento na divulgação das mensagens.

A Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) abriu investigação sobre o caso, que será tratado como ato infracional análogo ao crime de indução ou instigação ao suicídio, previsto no artigo 122 do Código Penal. A reportagem questionou à PCCE se alguém foi preso ou apreendido, mas ainda aguarda resposta.

Henrique Soárez, diretor de escola e representante do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe), afirma que a instituição está ciente dos casos, e que “não é a primeira vez que se depara com esse tema, de modo que todas as escolas têm essa como uma preocupação constante”.

Segundo o educador, “cada uma das escolas está cuidando dos seus alunos de forma individual”, enquanto o Sinepe está “interagindo com as autoridades locais e nacionais para organizar uma ação de orientação para as famílias”.

A prioridade é garantir que ninguém faça nada. Tem algum aluno em risco? Vou cuidar dele. A segunda coisa é orientar: que se isso tudo foi brincadeira, não é algo que se faça.
Henrique Soárez
Membro do Sinepe

Em nota, o Ministério Público do Estado (MPCE) cobrou das escolas estratégias “desde o monitoramento do alunado, notadamente daqueles que se encontram na faixa de maior sensibilidade para o tema, bem como a realização de campanhas universais e específicas, além da capacitação contínua do seu corpo funcional”.

O órgão ressaltou, ainda, os efeitos da pandemia sobretudo à saúde mental de crianças e adolescentes, e destacou a importância do não compartilhamento de postagens ou replicação de conteúdos que incitam o suicídio.

“Crianças e adolescentes também têm depressão”

A psicóloga Layza Castelo Branco, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e especialista em psicologia da adolescência, avalia que os “convites” podem ser “tanto uma brincadeira, usando a palavra suicídio como metáfora; como algo feito por alguém em profundo sofrimento psíquico, adoecido”.

Mensagens de whats app podem ser qualificadas como crime
Legenda: A abordagem junto aos adolescentes não deve ser punitiva, julgadora, mas no sentido de compreender o que têm sentido, orienta a psicóloga Layza Castelo Branco
Foto: Shutterstock

Por esse motivo, a profissional orienta que a abordagem junto aos adolescentes não deve ser punitiva, julgadora, mas no sentido de compreender o que têm sentido, inclusive em relação às demandas escolares, que podem ser excessivas em algumas épocas do ano.

É crime, tem punição, sim, mas temos que tentar entender: se na nossa sociedade adolescentes estão brincando com suicídio, qual é a nossa responsabilidade?
Layza Castelo Branco
Psicóloga e professora da Uece

Layza destaca que os pais ou responsáveis podem e devem questionar os filhos sobre o assunto “sem tabus”, uma vez que tem se notado “uma banalização da questão”. “É perguntar se o filho viu os ‘convites’, o que achou, o que significa pra ele. Ouvir”, frisa.

“Quem faz uma brincadeira dessa não tem noção do quanto atinge e machuca tanto pessoas que já perderam parentes por suicídio como as próprias pessoas que estão adoecidas e pensam, de fato, nisso. Essa não é uma questão banal”, alerta.

Onde buscar ajuda

Quem está em sofrimento não está sozinho. Diversos serviços públicos no Ceará oferecem escuta qualificada e profissional para ajudar.

• Postos de saúde: as unidades são portas de entrada para obter ajuda especializada, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
 
• Centro de Valorização da Vida – CVV
Atendimento 24h 
Contatos: 188 ou chat pelo site https://www.cvv.org.br
 
• Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE)
Contato: 193 
Endereço: Núcleo de Busca e Salvamento Av. Presidente Castelo Branco, 1000 – Moura Brasil – Fortaleza-CE
 
• Hospital de Saúde Mental de Messejana
Contatos: (85) 3101.4348 | www.hsmm.ce.gov.br 
Endereço: Rua Vicente Nobre Macêdo, s/n – Messejana – Fortaleza/CE

• Liga Acadêmica de Psiquiatria e Saúde Mental (Lapsam), da Universidade Estadual do Ceará (Uece)
Contatos: (85) 99753-1296 - agendamento: segundas, terças, quartas e quintas-feiras, das 8h às 17h pelo telefone. 

• Programa de Apoio à Vida – PRAVIDA/UFC
Contatos: (85) 3366.8149 / 98400.5672 | contato.pravida@gmail.com
Endereço: Rua Capitão Francisco Pedro, 1290 – Rodolfo Teófilo – Fortaleza/CE

 • Instituto Bia Dote
Contatos: (85) 3264.2992 / 99842.0403 | contato@institutobiadote.org.br / institutobiadote@gmail.com | www.institutobiadote.org.br 
Endereço: Av. Barão de Studart, 2360 – Sala 1106 – Aldeota – Fortaleza/CE

Assuntos Relacionados