Pandemia tem impulsionado problemas de visão devido à redução de consultas oftalmológicas no Ceará

Pacientes têm deixado de realizar consultas por conta do medo da infecção pela Covid-19. No entanto, ausência tem prejudicado saúde ocular, levando até à cegueira

exame
Legenda: O Brasil contou com uma diminuição de 1,6 milhão de exames para detecção precoce do glaucoma no Sistema Único de Saúde durante a pandemia.
Foto: Marcelino Junior

A pandemia de Covid-19 tem impulsionado o agravamento de problemas oculares no Ceará. Segundo a Sociedade Cearense de Oftalmologia (SCO), muitas pessoas não estão buscando atendimentos oftalmológicos pelo receio de contaminação com a Sars-Cov-2, o que vem prejudicando a saúde de inúmeros pacientes, levando-os, inclusive, à cegueira em casos graves.

A presidente da SCO, Hissa Tavares, explica que tiveram muitos pacientes - residentes no interior do Estado - que apresentaram dores oculares, baixa visual súbita ou crises de glaucoma agudo e não procuraram assistência médica por medo de infecção. “Às vezes o paciente queria vir e o familiar não deixava também”.

A situação foi percebida ainda pelo diretor clínico do Instituto dos Cegos, em Fortaleza, Alexandre Teles, gerando preocupação, principalmente, a pessoas com doenças crônicas, como glaucoma e retinopatia diabética - complicação que ocorre a partir do excesso de glicose no sangue, prejudicando os vasos sanguíneos da retina.

A gente já tem mais de 1 ano de pandemia e 1 ano faz muita diferença no tratamento desses pacientes, porque às vezes você precisa modificar a medicação ou intervir com algum procedimento”
Alexandre Teles
Diretor clínico do Instituto dos Cegos

No âmbito nacional, a conjuntura não tem sido diferente. De acordo com levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o Brasil contou com uma diminuição de 1,6 milhão de exames para detecção precoce do glaucoma no Sistema Único de Saúde (SUS) durante a pandemia. Além disso, em média 6,5 mil cirurgias nessa área não foram realizadas pelo SUS em 2020, apresentando queda de 22% se comparadas ao ano anterior.

Glaucoma e Covid-19

A oftalmologista Hissa Tavares destaca que alguns pacientes, que já tinham sido diagnosticados com glaucoma e adquiriram a Covid-19 em determinado momento, notaram o aumento da pressão intraocular, gerando problemas mais graves na visão.

Ninguém sabe se [o aumento] é pelo corticóide ou se é pela reação inflamatória da doença [coronavírus]. E aí junta isso ao fato de não usar a medicação corretamente e tivemos pacientes que evoluíram para a cegueira”
Hissa Tavares
Presidente da SCO

A especialista pontua também que, pelo fato de o glaucoma ser uma doença dinâmica, com interferência de fatores externos, é importante realizar o acompanhamento periódico a cada três ou quatro meses, a depender de cada caso.

“Se você foi ao oftalmologista e ele disse que você precisa voltar daqui a 1 ano, siga a orientação. Se ele passar uma medicação, se ele prescrever um colírio, se ele indicar uma cirurgia, siga a orientação do médico. O problema é que, com a pandemia, isso não aconteceu, muitos pacientes perderam o acompanhamento e podem ter uma progressão da doença”, esclarece Tavares.

Cuidados preventivos

O oftalmologista Alexandre Teles salienta que, além da importância das consultas periódicas ao médico, é interessante manter uma boa saúde em termos gerais. “Com uma dieta equilibrada; usando óculos de sol [caso as pessoas se exponham muito aos raios solares]; a higiene das mãos, não colocar a mão no rosto e nos olhos; o controle da glicemia; e o cuidado com o excesso do uso de telas”.

Excesso esse que é vivenciado de perto pelo estudante e escritor Zeca Lemos, que possui catarata congênita, miopia e hipermetropia.

Com o trabalho e o ensino remoto, eu tenho que passar muito tempo em frente ao computador e a minha vista fica cansada, prejudicada, então eu to precisando voltar ao oftalmologista”
Zeca Lemos
estudante e escritor

Lemos costuma realizar consultas todos os anos com especialistas, justamente por enfrentar problemas sérios de visão, já tendo passado por duas cirurgias oculares e utilizando óculos de grau desde os seis meses de idade. No entanto, durante a pandemia, a busca pelo atendimento não foi realizada como costumeiramente era.

“Eu senti muitas dificuldades de buscar atendimento médico em oftalmologia nesse período, principalmente pela questão da pandemia, a gente tem medo, né? De sair, de se contaminar e contaminar as pessoas ao nosso redor. Com isso, tenho evitado bastante sair e fui postergando minha consulta”, comenta.

A presidente da SCO, Hissa Tavares, reitera que as consultas periódicas são imprescindíveis, mesmo na situação pandêmica, visto que a ausência delas podem gerar complicações, muitas vezes, sem solução. “Nós, oftalmologistas, trabalhamos em clínicas que não têm internação por Covid-19 na maioria dos casos. Então, não é que sejam locais 100% livres da doença, mas o risco é bem menor”.

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza