Mortes de crianças no trânsito caem, mas ações devem ser ampliadas

Entre 2016 e 2019, o número de menores de até 14 anos que perderam a vida no tráfego da Capital caiu 80%. Apesar do avanço, especialista em segurança viária avalia necessidade de mais áreas seguras em outras regiões

Legenda: Iniciativas como a instalação de faixas de pedestres elevadas aumentam a segurança viária
Foto: FOTO: CAMILA LIMA

Frágeis em qualquer uma de suas condições, seja como pedestres ou passageiras, as crianças no trânsito vêm sendo beneficiadas por ações de segurança viária em Fortaleza. O bem-estar dos jovens nesse meio, porém, divide-se entre pais, responsáveis e o Poder Público, que atuam em conjunto também para formar adultos conscientes no futuro. Apesar dos resultados positivos, especialista avalia que é preciso ampliar ações, com mais áreas seguras para zerar estatísticas.

De 2016 - quando a Capital registrou cinco mortes de crianças e adolescentes de até 14 anos - para cá, surgiu motivo para comemorar. No ano passado, um único óbito nessa faixa etária foi registrado na cidade. Mudanças como a implantação de travessias elevadas para pedestres, próximas a escolas, tiveram influência direta nessa redução.

O momento de chegada e saída do colégio tornou-se foco de análises da Autarquia, que busca melhorar a sinalização e construir lombadas no entorno de instituições de ensino. Até o meio do ano, a proposta do órgão é instalar 39 travessias elevadas na cidade, das quais 70% estarão situadas em frente a escolas, de acordo com o superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Arcelino Lima.

"Sabemos que a principal causa de morte de crianças de 0 a 5 anos, no mundo, são os acidentes de trânsito. Isso fez com que a gente voltasse nosso olhar para esse público sensível", diz. Segundo ele, as Áreas de Trânsito Calmo se encaixam na proposta de tornar o tráfego mais seguro, especialmente para os jovens. "Lá, a gente coloca travessias elevadas nas vias e faz uma adequação de velocidade para 30 Km/h", explica.

Em 2020, o projeto Área de Trânsito Calmo chega a nove instituições de ensino na Capital, sendo seis no bairro Conjunto Palmeiras e três no Cristo Redentor. Em dezembro do ano passado, o primeiro pacote de requalificação do programa Caminhos da Escola foi inaugurado em um trecho da Av. Monsenhor Hélio Campos, no bairro Cristo Redentor. A iniciativa também visa garantir a segurança viária de crianças durante seus deslocamentos no dia a dia, por meio da implantação de intervenções em áreas escolares. Parte do sucesso alcançado com a redução dos índices de mortalidade de crianças no trânsito é atribuída ao trabalho feito pelo programa AMC nas Escolas. A ação, que teve início em 2013, pode ser solicitada por instituições de ensino públicas e privadas, e visa orientar os menores sobre como se comportar no trânsito.

Ações

"Falamos do respeito às leis, como respeitar o semáforo. Quando a criança for realizar a travessia, fazer sempre usando a ferramenta de segurança, que é a faixa de pedestre, orientando para olhar para os dois lados, e ratificamos a nossa fala com a exibição de vídeos, abrangendo a maneira geral da segurança da criança dentro do trânsito", detalha Nertan Rocha, gerente de educação para o trânsito da AMC.

Segundo ele, as próprias crianças podem atuar como "ferramentas de divulgação" das regras do tráfego. Após receberem as orientações em sala de aula, alguns filhos passam a observar as ações dos pais enquanto dirigem. "Eles dizem 'pai, você passou o sinal vermelho, eu vi na escolinha que não pode fazer isso'. A gente recebe esse retorno e, em cima disso, elaboramos a nossa amostragem de segurança no trânsito, tanto para as crianças quanto para os pais".

Para solicitar o serviço gratuito, a unidade de ensino deve enviar um ofício à Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania. Uma vez recebido, o órgão entra em contato com a escola para conversar sobre as necessidades da instituição. Assim, surgem duas opções: os alunos podem ser levados para uma aula na Escola de Mobilidade Urbana, ou uma equipe vai até a unidade que enviou o ofício.

"Nós preparamos a apresentação em uma linguagem própria, de acordo com a faixa etária. Atendemos os jovens de 5 a 17 anos. Em cima da nossa análise, a gente prepara o material que vai ser utilizado, como vídeos, contação de histórias, esquetes, jogos, pinturas", revela Nertan.

O programa AMC na Escola realiza um levantamento das escolas de maior fluxo, e prioriza o atendimento das demandas dessa forma. De acordo com o gerente de educação para o trânsito, a maioria das escolas atendidas é da rede pública e, até o momento, cerca de 45 a 50% das unidades de ensino de Fortaleza já passaram pelo programa. Na Escola de Mobilidade Urbana, aproximadamente 100 crianças são recebidas diariamente.

"O nosso foco é esse. Se nós trabalharmos as crianças hoje, com certeza daqui a uma década teremos condutores mais voltados para a segurança, com essa intenção de harmonizar o trânsito. O resultado disso tudo, além da engenharia da cidade e a fiscalização, é essa redução significativa de acidentes envolvendo crianças", avalia Nertan. Para os pais, a orientação é voltada ao uso da 'cadeirinha', do assento elevado e do Bebê Conforto, que trazem segurança para a criança no transporte de casa para a escola.

Avanço

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo, o trabalho de educação no trânsito voltado para crianças e jovens é necessário, porém, lento. "Não adianta aplicar ações e equipamentos para um trânsito calmo se os motoristas não cumprirem com a parte deles também. Nesses casos, as crianças estão em uma espécie de armadilha", pontua. "Quando uma criança é orientada a atravessar na faixa de pedestres e que, dessa forma, os condutores vão parar e esperá-la, já é um risco, já que muitos [motoristas] não têm o costume, caso não haja semáforos", diz.

Conforme ele, as ações da Prefeitura são um trabalho em conjunto. "Aplicação, orientação e fiscalização são as três palavras-chave. A ideia do trânsito também é ter cuidado com os demais", diz. Apesar da instalação das Áreas de Trânsito Calmo, como medidas protetivas para as crianças, Azevedo pondera sobre os maus hábitos culturais no trânsito. "É louvável a aplicação de áreas como esta na cidade, mas ela precisa estar em várias localidades".

Mesmo com a redução de mortes notada com o passar dos anos, o professor Mário Azevedo considera que "o ideal é não haver morte alguma. É notório o esforço dessas ações de prevenção, mas no ano passado, por exemplo, ainda assim morreu uma pessoa, então o ideal é pensar: o que fazer para não morrer mais ninguém?".



Redação 05 de Agosto de 2020