Missão impossível

Legenda: ​Mesmo com pandemia ainda em curso, ônibus lotados circulam na capital cearenses
Foto: FOTO: NATINHO RODRIGUES

Andar de ônibus em Fortaleza nunca foi uma das atividades mais fáceis. Primeiro, porque é preciso ter disposição pra correr atrás de um busão - que sempre passa quando tô chegando na parada. Segundo, porque é necessário lidar com a tal simpatia diária de motoristas, cobradores e passageiros (eu incluso), que esboçam aquele sorriso matinal amarelado como se fossem obrigados a fazê-lo. Terceiro, porque é preciso se encaixar em poucos espaços do veículo que ainda estão disponíveis: às vezes ficando suspenso no ar ou entre o pé de uma pessoa e os braços de outra.

Quando fui pegar ônibus pela primeira vez após esse vírus maldito desembarcar em Fortaleza, a tarefa de se deslocar dentro dele e, ao mesmo tempo, manter o distanciamento social, pareceu quase uma missão impossível. Tom Cruise sentiria orgulho da minha capacidade de desviar da população em massa, sem pegar bastante nos ferros de segurança. O problema é que nem sempre a gente conta com a compreensão de todo mundo, né?

Assim que sentei em um banco para passar a viagem com o mínimo de conforto, subiu um vendedor de sequilhos com sua mochila preta recheada, claro, dos sabores tradicional, maracujá e formigueiro. Como de praxe, ele saiu distribuindo os alimentos pelas mãos dos passageiros pois "só de segurar eles já estavam ajudando".

Eu, por outro lado, à medida que ele se aproximava da cadeira em que eu estava, no fim do veículo, ficava mais atônito. "Será que pego o sequilho e corro o risco de ganhar um corona na mão? Ou mexo o dedinho em sinal negativo e sou taxado de mal-educado?". Optei pela prevenção, afinal além de eu não saber por quais mãos aquele sequilho passou, ainda estava muito receoso com os efeitos de um vírus que mudou a vida de milhões de pessoas no mundo.

Não deu outra. Ouvi diversos salmos da Bíblia Sagrada, sermões e odisseias de como o ser humano precisa ajudar o outro e compreender as dificuldades pelos quais as pessoas passam, especialmente naquele período crítico da pandemia.

É fato que o coronavírus foi responsável pelo desemprego de centenas de milhares de pessoas, pela redução na oferta de serviços e pela dificuldade - humana eu diria - de conseguir lidar com o isolamento social e a distância daqueles que a gente ama. Mas também é fato que precisamos nos reeducar, compreender o outro e saber que, até nos locais mais comuns de sociabilidade, há aqueles que não corroboram com a nossa ideia de mundo.

Depois dos salmos, dos sermões e das odisseias, sentado no fundo do busão, pensei no quanto aquela minha ação era uma gota no oceano. Todos os dias, o fortalezense pega um ônibus como se nele fosse incapaz de o vírus se disseminar. Não tem isolamento que dê jeito.

Esses meios de transporte são o retrato de uma sociedade que já está até acostumada a ser colocada ao relento. É como se, mesmo no meio de uma pandemia e com todo o apelo governamental para se distanciar, o valor que entra nos cofres de quem pode fazer isso fosse mais importante do que a saúde alheia.

Ainda assim, na dúvida, me desculpem, mas eu vou negar segurar o sequilho, o bombom e até o gel doutorzinho.

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Redação 23 de Setembro de 2020