Festa política, Carnaval é espaço para reforçar causas sociais diárias

Nas fantasias, letras de músicas ou simplesmente na liberdade de curtir como e onde quiserem, blocos e foliões gritam contra racismo, machismo e LGBTfobia - latentes na sociedade durante o ano inteiro

Deveria ser óbvio que negro não é fantasia, travesti não é chacota e mulher não é objeto. Deveria ser claro que o batuque da macumba é crença, ser LGBTI+ é identidade e corpo é liberdade (de quem o tem, não para quem o quer). Em pleno 2019, ainda é preciso desenhar o sentido de respeito, necessidade que faz do Carnaval além de uma festa - espaço político e momento propício para reforçar a luta por direitos tão históricos como negados.

É isso o que compõe o DNA do Maracatu Vozes da África, fundado em 1980 no âmbito de universidades com o intuito de fortalecer uma tradição que já definhava, viva em apenas quatro ou cinco grupos, à época, segundo o vice-presidente e carnavalesco Márcio Santos. O grupo foi criado na Semana da Consciência Negra, indo à avenida, no ano seguinte, para desfilar contra o racismo estrutural e histórico e a intolerância às religiões de matriz africana.

Origem

"Já surgimos levantando bandeira. De 1981 até este ano, trazemos sempre temas e enredos para enaltecer a cultura negra, os mitos, as histórias e lendas. Em 2019, o enredo é 'Comida de santo, banquete sagrado', para desmistificar o preconceito com as religiões de matrizes africanas, tão demonizadas, e mostrar que aquilo não é mau, e sim bonito. Pensam que tudo o que vem do negro é mau, precisamos quebrar esse paradigma", ressalta o carnavalesco.

Por meio do negrume (tinta preta que cobre o rosto dos brincantes), das fantasias e adereços, grupos de maracatu cearenses como o Vozes da África relembram a História em busca de um presente que evolua. "Quando saímos do barracão para ocupar espaços públicos, as pessoas se interessam em conhecer, veem como manifestação da cultura popular. Entendem que pintar o rosto de preto relembra o que era feito nos anos 1950, quando os homens se vestiam de mulher para se esconder, já que a participação delas no Carnaval de Rua não era bem-vista", remonta Márcio.

A noção da "mulher de respeito", aliás, é herança que assombra a sociedade até hoje, por mais velada que seja. Mostra-se quando a roupa curta é vista como convite ao assédio, permissão para toque ou violação - transtornos comuns a foliãs como a chef de cozinha Beatriz Leitão, 37.

Foto: Foto: José Leomar

Assédio

"Nós, mulheres, tentamos participar e ter uma vida comum no Carnaval, mas ainda está longe de ser uma coisa tranquila. As lutas contra violências verbais, morais e até físicas em relação à mulher e à subjugação masculina são, na verdade, diárias, e assim permeiam a festa", afirma.

Nos roteiros que Beatriz monta para garantir passagem pelos carnavais da Praia de Iracema, Benfica e Mercado dos Pinhões não constam as situações de assédio: mas a ocorrência delas é quase sempre certa. "Já fui assediada um 'zilhão' de vezes por motoristas de aplicativo, voltando do carnaval sozinha. Pra me preservar, me sinto horrível, péssima, mas coloco uma camiseta maior na pochete. Acho terrível que eu tenha que me preocupar com isso, que meu corpo passe por risco a depender da roupa que eu esteja".

Os golpes do machismo na pele em plena festa, aliás, tornam evidente: ainda falta muito para alcançarmos o básico do respeito. "Os homens heteros pensam que 'ah, Carnaval é isso mesmo, todo mundo beija todo mundo?' Não, né? Não. Infelizmente, mudar isso é um processo educacional longuíssimo, que eu nem vou ver. Meu filho e minha filha não vão ver - mas eu digo sempre pra eles que não tem roupa nem brinquedo nem privilégio de homem ou mulher. É todo mundo igual", sentencia.

Liberdade

O respeito, "acima de tudo, à liberdade do masculino, do feminino, e de que todo mundo tem seu direito e seu espaço", a propósito, é uma das principais premissas do Bloco As Travestidas, que traz ao Carnaval de Fortaleza o alerta para a urgente e emergente violência contra pessoas LGBTI+ - apesar de ser, segundo o ator e integrante do coletivo, Silvero Pereira, "um espaço para agregar todo mundo".

Legenda: Bloco das Travestidas leva cores e militância aos espaços públicos da Capital
Foto: Foto: Thais Mesquita

"Tudo o que a gente produz é pensado para trazer questionamentos e provocação social. Fazer com que a arte, por ser uma das armas mais poderosas que temos hoje - pela ousadia, pelo poder de imediatamente conseguir provocar uma sociedade -, seja instrumento de transformação. O Carnaval, então, vem para demarcar um território de diversidade e de liberdade de gênero", descreve Silvero.

Transformação

Atualmente, o bloco concentra cerca de 5 mil pessoas na Praia de Iracema, evidenciando a figura das travestis e transexuais, alvos de estereótipos e caricaturas durante o Carnaval. Mas, como frisa o ator, as demandas de pessoas LGBTI+, apesar de ainda tão atuais, são históricas. "Desde de culturas muito antigas essa luta está presente. O mais importante de pensar é que gerações passadas sofreram preços muito pesados para que as novas sofressem menores. Então nós precisamos transformar em não ter mais preço para as gerações futuras", alerta.

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