Festa de todos a todo custo

Legenda: Resistente nas ruas de Carnaval, a professora Andréa Michiles homenageia Jovita Feitosa
Foto: FOTO: CAMILA LIMA

O carro parou no cruzamento da Heráclito Graça com a Dom Manuel. A sirene veio alta, como se de cidade sitiada em guerra. "Tu já tinha visto um tanque assim, no meio da rua?", disparou o motorista, iniciando uma análise geográfica sobre a presença das forças do Exército nas ruas de Fortaleza. No mesmo momento, duas mulheres atravessaram na faixa, tiaras na cabeça, roupas coloridas e papo solto rumo à Praia de Iracema. O Carnaval é mesmo transgressão: se há mesmo um toque de recolher quando a noite se pinta de escuro, ele não funciona na prática.

É verdade que o cearense vive em constante vigilância, embora as autoridades comemorem a redução do recorde de homicídios de três anos atrás. O "perigo", assim mesmo, impessoal e abstrato, nos ronda. Se não à frente, nos faz olhar por cima do ombro de vez em quando, a esconder bens pessoais nas roupas, a mudar da rota do cheiro do queijo. Some às dúvidas, neste fevereiro, a ausência de agentes ostensivos que deveriam nos proteger da "criminalidade" - assim mesma, impessoal e abstrata.

Mas, na prática, o Carnaval só fortalece o verso imortalizado por Sérgio Sampaio: "Eu quero é botar meu bloco na rua". O brincante tira a fantasia do guarda-roupa ou a improvisa, o glitter ilumina o rosto e o bonde inteiro pega o bonde, porque bom mesmo é alegria compartilhada.

Corpo na rua também tem esse sentido de resistência, como pensa a professora Andréa Michiles, 43 - na própria pele e nas vestes da militar Jovita Feitosa (1848-1867), cearense que resolveu homenagear na primeira edição do bloco "Pula que lá vem história". "Eu acho que Carnaval é um momento de alegria. Infelizmente, a gente tá passando por esse problema que gera uma insegurança. As pessoas ficam com medo de sair", comenta a brincante.

Porém, para Andréa, o medo é mais sensação, tensão, do que presença. Por isso, não o carrega ao passar por polos como Praça da Gentilândia, Aterro e Largo da Mocinha. "Acho que a gente não pode colocar o medo que tentam nos impor. Sei que tem o perigo real, mas a gente está nas ruas para brincar, para pular. É um momento de diversão no momento difícil que o País passa", confessa.

"Mas você não teve medo de sair?" "Eu sou do Rio de Janeiro, né?", respondeu de pronto o estudante Breno Dabela Luna, 26, como quem justifica uma coisa óbvia. Emendou: "Eu tô acostumado com esses cuidados que se recomendam num período de greve de policiais porque já vivemos isso lá. Mas não me impediu e acho que não me impediria. A gente só fica um pouco mais atento, mas Carnaval é pra curtir", finca o pé.

Breno não vai sair ileso pela primeira viagem em Fortaleza: ele foi assediado no Aterrinho. Uma experiência que o abalou, mas não a ponto de deixar de conhecer o resto da festa. "A gente vive a violência urbana e tem várias taxas e índices que a medem. Mas também existe o medo excessivo e as pessoas que ficam paranoicas demais com isso", observa o turista.

É um fevereiro de coragem porque nada pode impedir o sorriso da criança quando joga a mão cheia de confete para cima, ou a dança desinibida dos idosos lembrando cenas da juventude, ou o beijo casual de quem se conheceu há pouco e diz, entre lábios: estamos vivos! Nada pode impedir o Carnaval.


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Redação 28 de Maio de 2020