Falta de convívio social pode impactar na aprendizagem e saúde de crianças na primeira infância

Devido ao isolamento social, especialistas ponderam efeitos do isolamento e da restrição ao convívio social em crianças nascidas próximas da chegada do coronavírus

Legenda: Devido ao medo de deixar seus filhos órfãos, Géssica evita sair de casa e frequentar espaços comuns de seu condomínio
Foto: Arquivo pessoal

Como é crescer em meio à pandemia? Para as crianças que nasceram próximas ao início da pandemia da Covid-19 no Ceará, as primeiras vivências têm sido marcadas pelo distanciamento e pela saudade do que ainda há para viver. Com o isolamento e a privação do convívio social, as crianças podem apresentar impactos na aprendizagem, na saúde e até nas interações humanas, coloca a pesquisadora Márcia Machado.

cientista chefe na área de infância e juventude da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), aponta também que apesar de ainda ser cedo para especificar detalhadamente e cientificamente os reflexos da pandemia nas crianças, já é possível considerar essas hipóteses com base nas experiências vividas durante o período.  

O fato de não conhecer os próprios avós ou outras crianças, sem nenhum contato fora de casa, pode fazer com que a criança não consiga interagir e prejudicar até a questão da linguagem. No momento em que eu não socializo as crianças com mais pessoas, pode haver algum prejuízo com o número de palavras conhecidas. É preciso acompanhar essas crianças nascidas a partir de 2020".
Márcia Machado.
Enfermeira e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC)

No Ceará, de março do ano passado até maio de 2021, quase 137 mil nascimentos foram registrados, conforme Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil (ARPEN). Destes, cerca de 42,3 mil ocorreram só em Fortaleza, a cidade mais afetada pelo novo coronavírus no Estado. 

Restrição às visitas

O pequeno Raul, de apenas 5 meses, faz parte do grupo de fortalezenses nascidos em meio à pandemia. Segundo filho da gerente administrativa Géssica Viana Araújo, 30 anos, tem seu  mundo restrito à área do apartamento, precisando ficar distante até mesmo dos avós. 

Géssica sonhava com os passeios para a praia, as caminhadas matutinas para o banho de sol, o encontro com amigos e familiares para apresentar o filho, tal qual fez com a sua primogênita, Alicia, 8 anos. 

Praticamente tudo que envolve convívio social e lazer, a gente não faz com o Raul. Não saímos, não passeamos, nem para o hall do prédio a gente tem coragem de descer com ele. Conto nos dedos às vezes que desci com minha filha para brincar no parquinho.
Géssica Viana
Mãe de Raul

Da mesma forma, a mãe e estudante de nutrição, Roberta Damasceno, 32 anos, também tem restringido as saídas de seu primeiro filho, Davi, 8 meses. “Eu me sinto muito triste, porque assim como outras mães, queria que nosso filhos pudessem brincar juntos, se reunir e a gente pudesse conversar sobre fraldas, cocô e tudo que a maternidade pede”, coloca.

O filho só conhece as tias e os avós paternos por meio das chamadas de vídeo. Pelo fato de Roberta viver com a mãe, Davi contou também com essa ajuda. 

Legenda: Apesar das restrições vividas durante a pandemia, Roberta acredita que seu filho conseguirá recuperar os aprendizados que não pôde ter de forma completa
Foto: Arquivo pessoal

Convívio social 

A psicóloga e coordenadora Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança (NUCEPEC), do departamento de Psicologia da UFC, Andrea Carla Cordeiro, acredita que a restrição aos espaços para a criança explorar e se desenvolver, assim como os déficits de aprendizado devem se acumular durante os dois anos de pandemia

É preciso que as escolas privadas e públicas estejam atentas a estratégias no pós-pandemia para tentar recuperar esses déficits de aprendizagem, de conteúdos assimilados pelos alunos.
Andrea Carla Cordeiro
Psicóloga

Além disso, Márcia Machado também explica que o contato com outras crianças é importante para estimular a interação do bebê, a empatia e o lado mais social, principalmente durante o período da Primeira Infância, até cerca de 3 a 5 anos. 

Dentre outros impactos que ainda precisam ser estudados, levantados como hipótese por Márcia, estão a insegurança alimentar e possíveis transtornos ósseos.

No caso do primeiro, o consumo excessivo de achocolatados, doces e industrializados podem resultar em obesidade, enquanto o uso excessivo dos dedos para as telas, tablets e smartphones pode acarretar impactos na estrutura óssea.

Legenda: Géssica sonhava em poder apresentar Raul, 5 meses, para familiares e amigos da mesma forma que fez após o nascimento de Alícia, 8 anos
Foto: Arquivo pessoal

Redução dos impactos 

Enquanto o retorno seguro aos antigos hábitos ainda não é possível, Andrea coloca que os pais devem ter papel ativo no desenvolvimento da criança, evitando compartilhar os medos e estresses resultantes da pandemia. "Precisam transmitir um mínimo de segurança e tranquilidade para que os filhos possam se estruturar”, explica. 

Como forma de minimizar os efeitos da pandemia, Márcia também recomenda que os pais contem mais histórias para as crianças e utilizem brinquedos domésticos, como caixas e papel, para fazer brincadeiras e usarem o espaço de casa de forma educativa.

No caso de Géssica, a pesquisa sobre desenvolvimento infantil é constante. A cada mês, acompanha os aprendizados do filho para rolar, girar e interagir. 

Leio em voz alta, pratico atividades de solo, faço chamadas de vídeo com a família. Ele já reconhece a voz, já interage.
Géssica Viana
Gerente administrativa

Por sua vez, Roberta também tenta manter o contato do filho com os parentes, contando sempre histórias e mostrando os retratos de família para Davi se acostumar com os rostos. 

Ambas fazem parte do movimento Lactantes pela Vacina, que reivindica a imunização das mães que amamentam. Quando os filhos puderem ir às creches e ocupar os parquinhos, desejam que eles estejam seguros e prontos a recuperar os aprendizados que não puderam reter em meio ao isolamento.  

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