Eleitores revelam o que esperar de novas gestões de Fortaleza e Caucaia a partir de 2021

Os municípios além de definirem prefeitos no segundo turno, compartilham movimentações de pessoas que residem numa cidade, mas estudam ou trabalham em outra, gerando duas expectativas sobre o futuro

Legenda: Saúde é apontada por parte dos eleitores como uma das áreas passíveis de melhora nas duas cidades
Foto: FOTO: HELENE SANTOS

Apenas duas cidades do Ceará passam por segundo turno neste domingo (29): Caucaia e Fortaleza. Os dois maiores municípios em população são vizinhos e mantêm uma estreita relação de intercâmbio.

Tão intensa que parte de seus limites se borram e dificultam a identificação clara entre onde um termina e o outro começa. Além dessa dinâmica espacial, uma parcela dos moradores realiza pequenas migrações diariamente para estudar ou trabalhar e retornam às suas cidades ao fim do dia. Divididos, eles têm dupla cobrança sobre o que esperam das gestões que assumem em janeiro de 2021.

O economista Sávio Medeiro Viana, 25, mora desde os sete anos em Caucaia, onde concluiu parte do ensino básico. No entanto, desde o ensino médio, suas relações tanto educacional como profissional se desenvolvem em Fortaleza. "Basicamente, minha vida em Caucaia é dormir. A maior parte do meu consumo é em Fortaleza. De Caucaia, só mesmo as contas obrigatórias de água, luz, internet, que parte da receita vai para o município. Então, é normal eu sentir uma identificação maior com a cidade vizinha", explica.

No novo ciclo político, Sávio espera gestões "transparentes e comprometidas" com a população e uma maior integração entre os municípios limítrofes, já que, mesmo próximas, ele percebe um "abismo econômico" entre elas. "Caucaia cultua aspectos de uma cidade média do interior do Estado, sem integração com as tecnologias, ou até mesmo um plano de longo prazo - como o Fortaleza 2040 - para um desenvolvimento sustentável", analisa.

Já para a Capital, ele cobra "ações assertivas" porque, embora reconheça "grandes avanços" da última gestão, percebeu um recuo em políticas públicas efetivas, sobretudo pela problemática do avanço da violência.

Aos 27 anos de vida, a assistente administrativa Ana Carolina Lima sempre morou em Caucaia, mas manteve ligações com a Capital desde cedo. Primeiro, nas idas ao médico e acompanhando a família em compras no Centro. Depois, para estudo e trabalho.

Na balança entre as duas cidades, chega a ter indecisão: "gosto muito de morar na Caucaia, de curtir as praias, mas resolvo muita coisa em Fortaleza". Para ela, é preciso que as gestões deixem de lado provocações e brigas políticas para se debruçarem sobre questões relevantes às cidades e aos cidadãos. "Um ponto a ser muito melhorado é a saúde, principalmente a de Caucaia. Eu percebo que ninguém procura atendimento lá; se alguém fica doente, vai para Fortaleza", aponta.

Deslocamentos

No estudo "Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas do Brasil", publicado em 2016 - desde lá, não houve atualizações -, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) descreve que Caucaia e mais sete cidades da Região Metropolitana formam, junto com a Capital, um arranjo populacional de 3,2 milhões de pessoas. Dentre as que trabalham e estudam em outros municípios do grupo, quase 60 mil provêm de Caucaia.

A publicação relata que pouco mais de 57 mil caucaienses realizam deslocamentos em direção a Fortaleza, periodicamente, correspondendo a um percentual de 42,5% das 134 mil movimentações do arranjo. Também destaca esse como o maior fluxo dentro de concentrações urbanas entre 100 mil e 200 mil pessoas.

"A incorporação de novas áreas residenciais, a busca por emprego ou serviços e a oferta de transportes mais eficientes são alguns dos elementos que favorecem a consolidação desse fenômeno", explora o levantamento, ressaltando que, quando duas cidades unem tecidos urbanos, "extravasam limites político-administrativos" e "estabelecem fortes vínculos socioeconômicos".

José Borzacchiello da Silva, pós-doutor em Geografia Humana e docente do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), observa que, em relação a Fortaleza, Caucaia ainda é "muito dependente". O processo de metropolização da cidade se deve muito, aponta, à construção de conjuntos habitacionais como Tabapuá, Novo Metrópole e Parque Potira, entre o fim dos anos 1960 e os anos 1980.

"Muita gente da Jurema e do Metrópole continua votando em Fortaleza porque é de lá mas se mudou porque era mais barato e existem muitos conjuntos habitacionais e loteamentos", considera. Essas áreas mais próximas da Capital ainda enfrentam uma certa indefinição identitária, pensa ele, porque a BR-222 e a BR-020 segregram a localização do Centro de Caucaia e também das regiões de praia e serra do município.

Modernização

Além disso, o especialista percebe que a juventude da cidade vizinha prefere buscar equipamentos culturais, polos gastronômicos e shoppings em Fortaleza, onde há maior concentração de serviços e produtos, sendo favorecida também por um setor privado de transportes bastante capilarizado e com boa frequência. "Ninguém quer se mudar para onde não esteja conectado ou tenha dificuldade de mobilidade", sinaliza.

A tabeliã Patrícia Câmara, 30, reside em Fortaleza, mas diariamente passa metade do tempo em Caucaia, onde trabalha em um cartório. Mesmo na rotina atarefada, ela consegue ter percepções sobre as áreas que devem passar por melhorias em cada uma. "Caucaia é na infraestrutura; na segurança, que é péssima; e na saúde. Acho o hospital municipal bem sucateado. Em Fortaleza, confesso que mais a saúde mesmo, porque em termos de infraestrutura esse mandato não deixou a desejar em areninhas e pavimentação", diz.

Para ela, o período de eleições é muito importante para o exercício da cidadania. "No fim de semana de eleição, eu nunca viajo porque faço questão de exercer meu direito de votar. Nunca votei nulo ou branco porque acho que a gente sempre precisa ter um posicionamento", assegura a também moradora da Barra do Ceará, bairro que faz limite com Caucaia na orla - separados apenas pela ponte sobre o Rio Ceará.

O professor José Borzachiello, da UFC, pondera que as gestões de Caucaia preferem se debruçar sobre o sistema viário e o sistema educacional básico, deixando de ampliar e inovar nas áreas médico-hospitalar, de lazer e mobilidade urbana. "Ainda é muito acanhada para uma cidade do porte que ela tem", afirma, destacando-a como a segunda maior população e o terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do Estado.

"Na saúde, é claro que a sobrecarga vem pra Fortaleza. Uma parte da população da Jurema, por exemplo, prefere correr para as estruturas médico-hospitalares da Capital. Você também vê regiões extremamente pobres, como o Parque Leblon, a ausência de áreas de lazer e a destruição da faixa marítima da Iparana, do Pacheco, do Icaraí. Caucaia tem uma gestão tradicional que atende ao mínimo", avalia o pesquisador.

Por lá, são 222.128 eleitores aptos a votar em 2020, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE). O aumento foi de 4,2% em relação a 2016, quando a cidade tinha 213.181 eleitores. Do total, 41,5% têm Ensino Médio completo ou alguma etapa do Ensino Superior. Na cidade, há 590 seções eleitorais. No primeiro turno, a abstenção foi de 14,85%, já que 32.980 eleitores deixaram de comparecer aos locais de votação.

Já em Fortaleza, são 1.821.382 pessoas aptas a votar, 7,6% a mais que as 1.692.712 registradas há quatro anos. O eleitorado feminino é maioria, representando 55,1% do total. Além disso, 52,9% têm Ensino Médio ou algum grau de instrução superior. Ao todo, são 4.573 seções distribuídas no território. Na primeira etapa do pleito, 397.774 deixaram de votar no município, representando abstenção de 21,84%.

 

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