É possível organizar o Centro de Fortaleza respeitando o comércio ambulante?

Urbanistas apontam que questões socioeconômicas devem ser priorizadas no planejamento urbano da capital cearense

Escrito por Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
22 de Agosto de 2021 - 07:00
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Legenda: Implantação de quiosques foi uma das soluções para ordenamento do comércio informal no Centro de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

Os conflitos históricos entre ambulantes e o poder público no Centro de Fortaleza são a ponta de um iceberg profundo: com o avanço da crise econômica, trabalhadores informais se multiplicam nos espaços, exigindo políticas que vão além do reordenamento urbano.

O Diário do Nordeste ouviu arquitetos e urbanistas, além de um representante da gestão municipal, para tentar responder a questão: é possível organizar o Centro respeitando as necessidades do comércio ambulante?

Verena Lima, professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza que integrou a equipe de requalificação do Centro, aponta que ordenar o espaço público na região “é complexo, porque enquanto há desemprego, aumenta a presença dos camelôs”.

A arquiteta aponta que investir em mais “camelódromos”, como o Feirão São Paulo, é uma solução importante, mas reconhece que “não tem espaço físico para abarcar todas as pessoas”. Ampliar a fiscalização, segundo ela, também é crucial.

Os quiosques nos calçadões, por exemplo, foram uma solução positiva: tiramos os ambulantes da informalidade, passaram por capacitação. Mas o Centro tem muitas outras áreas a trabalhar, e não tem quiosques pra todos.

A professora aponta que as intervenções nas ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha devem ser expandidas para outros pontos, como ruas do Rosário e General Bezerril. “Os ambulantes estão onde as pessoas passeiam, precisamos expandir esses locais”, frisa.

Questionada sobre o problema histórico na Rua José Avelino, Verena destaca que “o perfil dos ambulantes de lá é diferente dos demais”. “A maioria já tem boxes dentro dos galpões, mas quer lucrar também na rua.  A Prefeitura olha de uma maneira diferenciada. Não dá pra falar de lá e do Centro ao mesmo tempo”, finaliza.

Caminhos possíveis

Jefferson Lima, presidente do Instituto de Arquitetos Brasil (IAB) no Ceará, reforça que “a questão não é só urbana, mas econômica e social”. Para ele, identificar, cadastrar e formalizar o trabalho dos comerciantes é uma solução possível.

“Reordenamento não é só posicionar pessoas, como caixinhas. É um trabalho de política socioeconômica. Os ambulantes são profissionais fundamentais, mas é preciso mostrar a eles que a profissionalização é necessária”, pondera.

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Para o arquiteto, o poder público precisa valorizar e potencializar as vocações locais e incentivar o crescimento dos trabalhadores informais. Seria uma forma de aliar políticas de emprego e renda com a questão urbanística, ele aponta.

Fortaleza é, historicamente, um polo de confecção. E onde está o Estado formalizando o pequeno empreendedor, mostrando que a opção não é só a rua, mas o e-commerce também? A saída não é abancar guardas municipais e impedir de ocupar. Isso é chover no molhado.

Quiosques na Rua Liberato Barroso, no Centro
Legenda: Quiosques na Rua Liberato Barroso, no Centro
Foto: Thiago Gadelha

Ouvir os trabalhadores ambulantes nas tomadas de decisão é fundamental para os processos de mudança, “porque eles já estavam lá muito antes da ideia de planejamento urbano”, como lembra o arquiteto urbanista Ruy Rolim, mestrando em avaliação de políticas públicas.

Além disso, ele acrescenta: “a solução tem de estar no entorno”. “São os comerciantes que estão antenados com a dinâmica econômica da atividade, então não adianta removê-los para outro local onde ela não acontece.”

É preciso um programa municipal para formalizá-los, tirá-los da ilegalidade, mas, ao mesmo tempo, permitir uma flexibilização. Qualquer ação vai resultar numa reorganização desses comerciantes em outro local.

O arquiteto cita que nos trechos requalificados no Centro, “a caminhabilidade melhorou bastante”, mas que é preciso considerar “a dualidade entre a qualidade do caminhar e do ambiente do trabalhador”. “Não sei se as intervenções funcionariam em áreas com fluxo mais intenso ou que demandassem quiosques maiores”, exemplifica.

Comércio ambulante predomina na Praça da Lagoinha, no Centro
Legenda: Comércio ambulante predomina na Praça da Lagoinha, no Centro
Foto: Thiago Gadelha

A professora Verena Lima compartilha da visão: “não adianta a gente tentar inserir esses quiosques nos locais onde os ambulantes não querem estar. Só podemos atuar onde eles estão. Esse projeto é interessante pro núcleo do Centro. Passou daquele perímetro, não adianta”, sentencia a arquiteta.

“Espaço público não comporta a demanda”

De acordo com a Secretaria da Regional 12 (SER 12), já foram instalados, desde 2018, 155 quiosques para padronizar o comércio ambulante em áreas do Centro, beneficiando mais de mil “antigos ambulantes, que passaram a ser permissionários”.

As cabines foram colocadas nos calçadões das ruas Guilherme Rocha (39 quiosques), General Sampaio (15), Liberato Barroso (51) e Barão do Rio Branco (50).

R$ 1,4 milhão
foi o valor investido nas estruturas de quiosques.

O secretário da Regional 12 (antiga Regional Centro), Júlio Santos, reconhece que “com a pandemia, houve uma onda de desemprego maior, e uma demanda de comércio informal que o espaço público não vai comportar”.

Diante disso, o gestor informa que a pasta tem feito “uma busca de equipamentos públicos para comportar os ambulantes”. Já foram identificadas 660 vagas, 340 delas no Feirão São Paulo e outras 320 no Beco da Poeira.

“A ideia é aumentar esse número de vagas de camelódromos. Para aquecer o Feirão São Paulo, por exemplo, vamos incentivar a ida dos comerciantes, dando um prazo de 6 meses de permanência gratuita lá”, diz Júlio. Não houve menção à capacitação profissional para os trabalhadores.

Segundo o secretário, outros dois espaços requalificados devem ser entregues em breve – a Praça Coração de Jesus, na Av. Duque de Caxias; e o Parque da Liberdade, na “Cidade das Crianças”. “Nessas intervenções, acolhemos o comércio já presente”, garante.

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