Doe de Coração alerta para efeitos da pandemia na doação de órgãos

No Ceará, número de transplantes em meio à onda mundial de Covid-19 caiu pela metade em relação ao primeiro semestre de 2019; campanha busca combater desinformação e incentivar ato de solidariedade

Legenda: Campanha será lançada hoje (8), com programação durante todo o mês de setembro
Foto: Divulgação

Conciliar a perda de um ente querido com a necessidade de decidir doar ou não parte dele não é fácil - mas é um meio poderoso de salvar vidas. O Ceará é referência nacional na doação e no transplante de órgãos, mas, com a pandemia de Covid-19, os procedimentos foram prejudicados, tornando ainda mais fundamental a conscientização de familiares para o ato de entrega e amor - incentivado pela campanha Doe de Coração, a ser lançada nesta terça (8).

Os "Desafios e panorama da área de transplantes de órgãos e tecidos no Brasil em tempos de pandemia" serão tema da live de lançamento da Doe de Coração 2020, da Fundação Edson Queiroz. O bate-papo será transmitido pela TV Unifor, a partir das 19h, com a presença de Tadeu Tomé, médico e coordenador do Programa de Transplantes do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo; Bartira de Aguiar Roza, professora e coordenadora-técnica da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (EPE/Unifesp); e Edison Henriques Júnior, transplantado renal.

De acordo com Polianna Lemos, médica nefrologista e coordenadora da campanha Doe de Coração 2020, a desinformação é o maior obstáculo para a concretização de doação. "Independentemente de o registro de doador estar ou não presente na célula de identidade, é sempre muito importante informar em vida à família sobre o desejo. Porque, mesmo essa informação estando no documento, é a família que vai autorizar ou não a doação, e a tendência dela sempre será de respeitar a vontade da pessoa", pondera.

Cenário

Entre janeiro e junho deste ano, foram notificados 204 potenciais doadores no Ceará, conforme Registro Brasileiro de Transplantes (RBT). Do total, as famílias de 132 foram entrevistadas para tratar da doação - 51 delas (39%) recusaram doar. Ainda assim, o Ceará foi líder do Nordeste em número de doadores efetivos, em 2020, com 72 registros. Em 2019, foram 122.

O cenário pandêmico, segundo Polianna, prejudicou ainda mais os processos.

"A pandemia impactou a doação de inúmeras formas, desde a família de um doador em potencial que tinha medo de se apresentar ao hospital para autorizar a doação, por temer pegar a Covid; até o próprio paciente que receberia o órgão ter medo de receber. Fora as questões de logística, também", enumera a médica, ressaltando, contudo, que "a doação nunca foi interrompida".

Entre março e junho, 23% dos potenciais doadores de órgãos não puderam concretizar as cirurgias por causa da Covid-19. Foram notificados, nesses três meses, 117 doadores disponíveis, mas 27 deles receberam diagnóstico positivo para a infecção, após exame RT-PCR. Os dados são do RBT e da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

O Ceará teve uma queda de quase 50% nos transplantes de órgãos, no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período de 2019. De janeiro a junho deste ano, foram realizados 380 procedimentos, contra 737 no ano passado, de acordo com dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados em agosto.

Cirurgias

Já os números da Sesa mostram que foram 396 e 762 cirurgias em ambos os períodos, respectivamente. Órgãos como pâncreas e pulmão não foram transplantados no período, e em abril e maio, de acordo com informações da Central de Transplantes do Ceará, não foram realizados transplantes de coração, pulmão nem rins no Estado.

Apesar de reconhecer que o temor pela infecção prejudicou as doações, Polianna destaca que, com a chegada massiva do novo coronavírus no território cearense e a lotação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), emergências e pronto atendimentos, foram organizados pelo Estado "ações e protocolos sanitários que garantissem à família, ao paciente e aos centros de saúde a segurança de todo o procedimento", diz.

Em entrevista ao Diário do Nordeste no início de agosto, a secretária-executiva de Vigilância e Regulação do Ceará, Magda Almeida, garantiu que pacientes que precisam ser transplantados em Fortaleza ou no interior do Estado recebem o resultado do teste de detecção da Covid-19 "em até quatro horas, porque são prioridade total", e não nas 48h médias previstas.

A importância de dialogar sobre o assunto e incentivar a doação de órgãos em qualquer tempo é reforçada pelo bancário Fernando Montenegro, 56 - que tem 14 irmãos, uma das quais 100% compatível para doar a ele um rim, há 20 anos.

"Foi a Maria Auxiliadora, até o nome dela é sugestivo. Ela estava com duas filhinhas pequenas, então foi uma coisa surreal a família concordar e ela ter feito isso por mim, ido pra uma mesa de cirurgia. Minha gratidão é imensa", relembra, emocionado, afirmando que voltou a "viver plenamente" e já conheceu "quase o Brasil todo" após o procedimento.

Para Fernando, Auxiliadora o salvou. "Pedi a Deus pra me dar vida pra ver meus filhos crescerem. Minha vida foi transformada. É indescritível, ela é uma parte de mim, e isso teve um poder transformador tão grande. Nossa família é ainda mais unida. Quando doa um órgão, você não tá dando uma coisa a alguém - tá dando simplesmente a vida de volta. É um gesto tremendo de solidariedade e amor, pra mim não tem linguagem no Universo que descreva", finaliza, com gratidão em cada sílaba.

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