Desabamento de falésia no RN acende alerta no litoral do Ceará

Especialistas indicam que praias cearenses precisam sinalizar perigo em áreas de falésias para evitar acidentes como o ocorrido ontem na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte. Pai, mãe e filho morreram após desmoronamento

Na costa do mar, as falésias integram a paisagem litorânea. Apesar da beleza cênica, os paredões íngremes sofrem processo erosivo cíclico, o que pode causar acidentes, como o registrado ontem na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte. O acidente também acendeu um alerta no Litoral Leste do Ceará, detentor desses monumentos naturais que atraem turistas. Especialistas citam a necessidade de monitoramento dos riscos para evitar desmoronamentos.

"Essas áreas, agora principalmente, devem ser definidas em mapas, com escala de detalhes e com análise da evolução espaço temporal do recuo da falésia", indica o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeovah Meireles. Além de avaliar as vulnerabilidades, ele complementa que deve haver ainda marcação no espaço físico. "É importante definir áreas de acesso livre e restrito, e definir essas restrições desde o menor risco até o risco máximo".

A mesma estratégia de sinalizar os espaços também é apontada como uma alternativa preventiva pelo docente Davis Pereira de Paula, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual do Ceará (Uece). "Na falésia, se você não tem uma placa indicando que é uma área de risco, sujeita a mudanças muito rápidas e bruscas, que podem ocasionar o desmoronamento de blocos, então pode levar a pessoa entender que é um local seguro", justifica.

A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) comunicou à reportagem do Diário do Nordeste que restringe atividades nas áreas de falésias para garantir a preservação dessas estruturas. São elas: retirada ou desmonte das formações geológicas que compõem as falésias, a construção ou a reforma, a realização de obras civis, de terraplenagem, e a abertura de vias ou o cercamento sobre as formações geomorfológicas.

Estudo

Uma pesquisa ainda em execução do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC está mapeando as falésias da zona costeira do leste cearense para classificar o nível de erosão de cada uma. O estudo já identificou que a área possui 36,7 Km de falésias ativas, isto é, têm contato com o mar, e 39,64 Km de inativas. No entanto, os pontos que apresentam os maiores riscos serão divulgados apenas na publicação do material, em 2021.

36,7 Km
De falésias que têm contato com o mar no Estado, aponta pesquisa

Segundo a doutoranda em Ciências Marinhas Tropicais do Labomar, Rhaiane Rodrigues, integrante do grupo de pesquisa, todas as falésias ativas do litoral têm perigo de obstruir e causar acidentes, já que é um processo cíclico pelo contato da água do mar com a base, provocando o desmoronamento do topo. A queda de uma parte de falésia em Pipa, a cerca de 100 km de Natal, ocasionou a morte de um casal e seu filho, no início da tarde de ontem. As vítimas estavam sentadas na parte de baixo quando houve o rompimento. A Prefeitura informou que coloca placas com alerta de risco na área, mas são levadas pela maré cheia.

Rhaiane explica que a principal diferença entre as falésias do Ceará e as do Rio Grande do Norte está na formação geológica. "As nossas são mais arenosas e as de lá possuem uma consistência mais rígida. As nossas não formam um solapamento (perda de sedimento da base) tão forte, ou seja, assim que solapa já desmorona mais rápido e as de lá demoram pouco mais e têm um potencial de risco maior por serem mais altas", detalha.

A doutoranda pondera que é possível identificar quando uma falésia está prestes a cair, observando a parte mais inclinada.

"Se você for em uma praia com falésias e identificar que na escarpa a base está um pouquinho para dentro, como se fosse uma minicaverna, não fique perto, porque em pouco tempo, a gente não consegue saber exatamente em quanto tempo, ela vai desmoronar".

Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema) acrescentou que o "desmonte das falésias para implantação de sistemas hoteleiros, barracas e residências" intensifica o processo erosivo, degrada o ambiente e contamina o lençol freático.

"Outros impactos locais são a extração mineral (retirada de areia/barro) para uso no artesanato local, inscrições nas falésias, corte de barreira e tráfego irregular de veículos automotores", descreve.

A Pasta afirma que detém a gestão de unidades de conservação para minimizar os problemas nas áreas de proteção, como o Monumento Natural das Falésias de Beberibe, Apa da lagoa do Uruaú e Apa das Dunas da Lagoinha. Também ponderou que coordena um estudo chamado "Zoneamento Ecológico Econômico" com diretrizes de orçamento e gestão de território, mas não repassou mais detalhes.

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