Covid-19: “todo dia ela tira uma pessoa, o amor da vida de alguém”

Familiares de vítimas do novo coronavírus no Ceará relatam percurso “doloroso” desde o surgimento dos sintomas até o sepultamento de quem não resistiu à doença, e reforçam a importância do distanciamento físico para frear a pandemia

Legenda: Felipe Kuhn ao lado da "mãe, amiga e conselheira", Maria Aparecida dos Santos
Foto: Foto: Arquivo pessoal

Nenhuma dor é fielmente imaginável até ser, de fato, sentida. Na pele, na cabeça, no peito. Em corpos e vidas inteiras. No Ceará, centenas de famílias já conhecem, com propriedade, uma angústia que tem afetado o mundo todo – a das mortes causadas pelo novo coronavírus, que se espalha rápido, invisível e letal.

O cearense Felipe Kuhn, 35, entrou para as estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) no último dia 19 – continua vivo e fisicamente saudável, mas agora sem a companhia da “mãe, amiga e conselheira, uma pessoa com quem contava pra tudo, tudo, tudo na vida”. Maria Aparecida dos Santos morreu aos 69 anos, após um mês de internação pela doença que iniciou como uma “gripe comum” e evoluiu, dia a dia, em um “processo devastador”.

“Ela começou a apresentar sintomas comuns de gripe antes mesmo do isolamento social (decretado pelo Governo do Estado em 20 de março). Só febre, dor no corpo e tosse, não tinha falta de ar. Como tem aquilo de só ir ao hospital se apresentar falta de ar, confiamos. Fomos tratando, mas foi tendo uma piora significativa. Depois de oito dias, a gente teve que ir ao hospital, e nos primeiros exames foi detectada a covid”, relembra Felipe.

A idosa tinha apenas a idade como fator de risco, sem quaisquer doenças prévias. “Era uma pessoa saudável, ativa. Mas depois da internação, foi ladeira abaixo”, descreve o filho. “A doença é real, tá aí, tirando vidas. Pode ter um recorte de doença pré-existente, de idade… Mas todo dia ela vai tirar uma pessoa, o amor da vida de alguém, de maneira sangrenta. Dói, dói muito. Foi quase um mês de viver na esperança de ir buscá-la. A gente fica vendo vídeo de gente que melhora, e esperando que seja nossa vez. Mas muitas vezes não vai ser. Como não foi no meu caso, como não foi no de milhares de pessoas que não estão se despedindo da família, da mãe, dos filhos. Ninguém tá preparado pra uma dor dessa. Ela é palpável e tá na nossa porta.”

Se o luto já pesa em qualquer circunstância, em tempos de pandemia é preciso, muitas vezes, carregá-lo sozinho: “sem um abraço, um olho a olho”, como testemunha Felipe  – filho único que dividia com a mãe a casa, as viagens à praia e à serra, e a companhia do neto dela, de 6 anos.

A gente não se despede, não pode velar, rezar. Recebe a notícia e tem que enterrar. Parece que você não encerra um ciclo, não tem tempo de entender, processar. Como estive no hospital pra fazer a questão burocrática, tô em em isolamento de novo, longe do meu filho, da minha família. No meu pior pesadelo eu não imaginei passar por isso”, diz Felipe

‘Negligência’

A lacuna que a não-despedida deixou também preenche, agora, os dias da família de João Paulo Simão Pinto, morto aos 39 anos, há uma semana (dia 19), e sepultado apenas pela irmã mais nova e um primo. Funcionário de um depósito de gêneros alimentícios, João estava entre os “essenciais”: não teve direito ao distanciamento físico fundamental para fugir da covid-19. Outra chance que não teve foi a de um diagnóstico precoce – com febre, tosse, falta de ar e sem olfato, principais sintomas da doença, só ficou internado e foi testado na terceira ida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Pajuçara, em Maracanaú.

Legenda: João Paulo Simão era funcionário de uma empresa de gêneros alimentícios - não teve direito a isolamento social
Foto: Foto: Arquivo pessoal

“Ele piorou, voltou à UPA e ficou no balão de oxigênio, já muito debilitado. Foi feito um raio-x do pulmão e estava bem comprometido. Não tinha mais UTI em Fortaleza, só em Quixeramobim, mas o médico não autorizou o deslocamento, porque seria muito arriscado. Na madrugada de sábado pra domingo, conseguimos leito no Leonardo Da Vinci (hospital do Governo do Estado), onde ele chegou 4h30. Mas por volta de 8h15, veio a óbito”, relata Roger Cid, 32, primo de João – “um cara batalhador, alegre, alto astral, com muitos amigos e querido por todos”.

O resultado do teste rápido, positivo para o novo coronavírus, ainda não foi acessado pela família, que só soube do diagnóstico “pela boca do médico”. A esposa dele já apresenta sintomas e está em quarentena. “A morte dói mais porque me parece que a vida dele poderia ter sido salva, se ele tivesse tido a atenção devida desde o início”, pontua Roger, destacando, ainda, outro fator que teria distanciado o primo da morte. “Quando a gente deixa de ver só número na televisão e passa a ser estatística, fica mais chateado com pessoas que não têm sensibilidade, que dizem que isolamento é uma besteira e que o comércio tem que voltar. No fim, o maior prejudicado sempre é o pobre”, protesta.

Questionado, o secretário de saúde de Maracanaú, Torcapio Vieira, afirmou que “o fluxo do paciente obedece ao perfil de sintomas leves, médios e/ou graves da doença”, e que internações “são solicitadas de unidade básica para UPA” e, depois, “para o Hospital Municipal, por regulação do sistema da rede de urgência e emergência”. “A UPA 24h atende aos pacientes de uma média gravidade; e o hospital, em caso severo respiratório de covid-19, com 13 leitos clínicos e cinco de UTI”, pontuou. Os protocolos médicos não foram detalhados.

Consolo

Por Maria Zelinda Cidrão, por outro lado, foi feito todo o possível – mesmo assim, o novo coronavírus decretou a morte física da matriarca, no dia 26 de março, aos 85 anos, sendo o dela um dos três primeiros óbitos confirmados no Estado, dia 31 do mês passado. Filha, genro, neto e outros vários familiares também apresentaram sintomas, e os quatro únicos testados tiveram diagnóstico positivo. A suspeita é de que a família tenha se contaminado em uma festa de aniversário no dia 7 de março, como relata o neto de Zelinda, Rodrigo Cidrão, 34.

Legenda: Maria Zelinda Cidrão, "matriarca e viajante", morta aos 85 anos após contrair covid-19
Foto: Foto: Arquivo pessoal

“A gente nem consegue identificar onde foi a transmissão. Ninguém tinha viajado ou tido contato com alguém com sintomas. Minha vó, hipertensa, era a mais saudável de todos os que pegaram. E cada um teve um diagnóstico diferente: dengue, pneumonia, H1N1”, relembra Rodrigo, que morava com a avó “há mais ou menos 20 anos”, tendo nela uma “parceirona de tudo, companheira de viagens, cervejinha e caranguejo na praia”.

O enterro de caixão fechado, sem velório e com apenas cinco pessoas da família, foi, para ele, o oposto do que culturalmente significa: ao invés de fim, decretou o início da espera pelo reencontro dado como certo. “Quando acabar a pandemia, vou fazer uma tarde de louvor pra vovó. E quando formos à praia, vamos lembrar dela, levantar o copo e brindar aos ensinamentos que ela nos deu sobre resiliência, esperança, amor e fé. A gente sofre pela saudade que projeta de momentos maravilhosos, quando deveria agradecer por ter vivido e rezar pelo dia de estar junto novamente.”

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