Chuvas de janeiro de 2020 superam média histórica para o mês

As precipitações do mês de pré-estação ultrapassaram a média para o período em 36%. Com isso, na Capital, velhos problemas retornaram. No interior, cidades têm recarga nos reservatórios, hoje com 14,3% da capacidade total

Legenda: Na macrorregião que inclui Fortaleza, as chuvas foram 53.1% acima da média
Foto: FOTO: CAMILA LIMA

O mês de janeiro, que faz parte da pré-estação chuvosa no Ceará, termina com saldo positivo no acumulado de precipitações. Dados parciais do calendário de chuvas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) indicam que, ao longo do mês, choveu 134,9 mm em todo o Estado, ou seja, 36,6% acima do esperado para o período, cuja média histórica é de 98,7 mm.

O órgão lembra que, embora a média tenha sido ultrapassada, os números estão sujeitos a oscilação, para mais ou menos. Eles são atualizados à medida que as informações são enviadas à Funceme.

Em todas as macrorregiões do Ceará, em janeiro choveu mais que a normal climatológica esperada. A do Litoral Norte foi a mais beneficiada com maior intensidade pluviométrica. Houve um desvio positivo de 73,5%, enquanto a média é de 111 mm, choveu 192,5 mm. No Litoral de Fortaleza, foram 148,8 mm, acima dos 97,2 mm esperados para o mês. O desvio foi de 53%. O Cariri teve menor variação (6,4%), mas ainda assim, é a terceira região onde mais choveu: foram 157,8 mm.

Efeitos

O meteorologista da Funceme, Raul Fritz, explica que as chuvas de ontem banharam 110 municípios, sete deles com mais de 100 mm. As precipitações decorrem da aproximação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema que traz chuvas para o Ceará durante a quadra chuvosa (fevereiro a maio), com o litoral. Ela também está associada a um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), um sistema que atua na pré-estação.

"Aqui é horrível", resume Neusa Ferreira, 75 anos, moradora do São Cristóvão há 24 anos, sobre o período chuvoso no bairro de Fortaleza. Por causa da inclinação da rua, pontos de alagamento se formaram em frente à casa dela. "É uma lama medonha. Tenho que limpar duas vezes por dia quando chove, senão entra em casa", reclama. O pastor Plácido Espinosa, 47, também morador da área, acrescenta: "tem motorista que nem quer entrar, porque pode quebrar o carro".

Já no sertão cearense, as chuvas de janeiro têm provocado cheia de pequenos reservatórios e riachos em diversas localidades. Na zona rural de Orós, na região Centro-Sul, o Riacho Saco da Onça recebeu a primeira cheia do ano. "Aqui, está todo mundo alegre e comemorando, acreditando em um bom inverno", diz Thiago Barros, técnico em agropecuária.

Em Cedro, houve registro de chuva em várias localidades. "Os agricultores estão otimistas, preparando terra e iniciando o plantio de grãos de sequeiro", pontua o secretário de Agricultura do município, Manoel Bezerra. Já no Maciço de Baturité, houve registro de enxurradas em riachos. Em Almofala, distrito de Itarema, no Litoral Oeste, houve pontos de alagamento com água sobre as calçadas e na porta das casas.

Segundo o Portal Hidrológico do Ceará, os 155 reservatórios monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) somam 14,3% de volume. A bacia do Coreaú, na região Norte - onde choveu mais -, é a que tem melhor situação hídrica. Os açudes da área têm 69,5% de volume. Por outro lado, o Médio Jaguaribe, onde está o Castanhão, enfrenta a pior: tem só 2,5% da capacidade.

Nos últimos três anos, os meteorologistas da Funceme vêm chamando a atenção para uma maior concentração de chuvas na região Centro-Norte do Estado, beneficiando toda a faixa litorânea e a Ibiapaba. O quadro traz preocupação porque a bacia hidrográfica dos dois maiores açudes do Estado (Castanhão e Orós) estão nas regiões Centro-Sul, Sul e Inhamuns, ou seja, as "cabeceiras" dos rios Salgado e Jaguaribe.

Dessa forma, alertam os gestores, se não chover de forma intensa e em um curto espaço de tempo nessas áreas, os principais reservatórios estratégicos para o abastecimento do Médio e Baixo Jaguaribe e da Região Metropolitana de Fortaleza, que concentram a maior população do Estado, não recebem recarga significativa e necessária para a segurança hídrica.

Previsão

"As chuvas historicamente começam pelo Cariri em dezembro e em janeiro, por isso a região tem maior média estadual nesse período", observa o secretário executivo da Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), Aderilo Alcântara. "A gente espera que, durante a quadra chuvosa, ocorram boas precipitações e cheia dos rios Salgado, Jaguaribe e em outros cursos de água".

No primeiro prognóstico para o trimestre fevereiro, março e abril, há 45% de chance de receber chuvas acima da média. A probabilidade de as precipitações ficarem em torno da média é de 35% e, abaixo da média, de 20%.

Mais uma vez, há uma tendência de as chuvas continuarem em torno da média ou mesmo abaixo no Sul, Centro-Sul e nos Inhamuns. "Infelizmente, essa tendência continua", pontua o meteorologista Raul Fritz. "Se confirmar esse prognóstico, com certeza, atrapalha a recarga dos reservatórios Castanhão e Orós".

21 imóveis são interditados por risco de caírem
No bairro Moura Brasil, algumas casas estão divididas ao meio por grandes rachaduras

A Defesa Civil de Fortaleza registrou, ontem, 46 ocorrências. Dentre elas, 23 foram de risco de desabamentos. Em uma das situações, moradores do bairro Moura Brasil, tiveram, pelo menos, 21 imóveis interditados até o começo da noite. O servente Ari da Silva, 25, precisou deixar a moradia. Segundo ele, os problemas estruturais apareceram após o início das obras da Linha Leste do Metrofor. "Depois dessa obra, está acontecendo só desastre, começaram as rachaduras na maioria das casas. O chão sempre cede, eles só fazem uma camada por cima, e pronto. Tudo volta". Os pais da dona de casa Ana Angélica do Vale, 36, começaram a perceber pequenas rachaduras há algumas semanas - mas a casa só foi, literalmente, partida ao meio por uma fissura há dois dias. "Minha mãe e meu pai foram tirados de casa de madrugada. (Agentes da Defesa Civil) vieram com os carros, começaram a bater nas portas e mandaram todo mundo sair, só com a roupa do corpo", conta.

A Defesa Civil retirou os moradores e interditou os imóveis. Duas famílias estão nas casas de parentes e amigos, e outras 14 foram para pousadas concedidas pela Secretaria da Infraestrutura do Ceará (Seinfra), responsável pelas obras da Linha Leste.

Segundo o decorador Marconde França, 40, morador do Moura Brasil, a situação dos alojamentos para onde as famílias foram é "impossível". "Tem pousadas que não têm luz, água nem alimentação. Retiraram os moradores só com a roupa do corpo, eles não sabem como é que vão ficar por lá". A Seinfra informou em nota que, desde o início da obra, o consórcio responsável monitora o entorno do canteiro, através de sensores que acompanham a estabilidade do terreno. Esse sistema identificou, quinta-feira (30), a necessidade de intervir em parte das edificações. A Seinfra informou que 18 imóveis foram desocupados e outros três estão em processo de evacuação. Os técnicos do consórcio e da Pasta, diz a nota, estão analisando as condições dos imóveis para que os reparos sejam feitos e as famílias possam voltar.
 

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