CE teve recorde de homicídios em 2014

Especialista releva que há um deslocamento territorial da violência de grandes metrópoles para cidades menores

Legenda: Ceará registrou 2.832 homicídios de jovens entre 15 e 29 anos em 2014; Estado ressalta ações como o Ceará Pacífico para reduzir mortes
Foto: FOTO: KLÉBER A. GONÇALVES

O Atlas da Violência 2016 revelou que, em 2014, o Ceará registrou 4.620 homicídios, o que corresponde a 12,66 assassinatos por dia. O estudo - uma parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) - mostra que aquele foi o ano mais violento desde 2004, quando houve 1.576 assassinatos no Estado.

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Os quantitativos são crescentes. Em números absolutos, houve um crescimento de 193,1% na taxa de homicídios no período, o que colocou o Estado entre os cinco com piores índices. São Paulo lidera com 6.131 assassinatos, seguido da Bahia (5.733), Rio de Janeiro (5.522), Minas Gerais (4.682) e Ceará (4.620).

Considerando-se a proporção por habitantes, o Ceará fica em segundo no ranking, com 52,2 mortes/100 mil habitantes, atrás de Alagoas, com 63 mortes/100 mil habitantes. Em terceiro lugar está Sergipe (49,4), seguido de Rio Grande do Norte (46,2) e Goiás (42,7). O aumento no Ceará é de 166,5% entre o primeiro e o último ano apontado no levantamento. Foram 52,2 mortes/100 mil habitantes em 2014, contra 19,6 em 2004.

Sobre as 20 microrregiões mais violentas de 2014, três são do Ceará. Fortaleza apresenta a segunda maior taxa de homicídios, considerando a análise Bayesiana/ 100 mil habitantes, médias ponderadas que levam em conta a incidência de homicídios nas localidades vizinhas. Para a população considerada de 3.533.255 pessoas, a taxa é de 81,1. Em terceiro lugar está Pacajus, que apresentou taxa de 80,6 homicídios/100 mil habitantes. A região do Baixo Jaguaribe ocupa a 12ª posição do ranking e taxa 66,4.O primeiro lugar ficou com São Luís, no Maranhão (84,9).

Microrregiões

O estudo aponta que as informações sobre as 20 microrregiões com maior crescimento das taxas de homicídios revelam que há um crescimento acelerado dos homicídios em localidades interioranas e até pouco tempo atrás bastante pacíficas. De acordo com o professor e pesquisador do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (LabVida) da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Geovani Facó, os últimos mapas revelam que há um deslocamento territorial da violência de grandes metrópoles para metrópoles regionais e cidades de médio e pequeno porte. "Vimos isso com Fortaleza, que não tinha essa tradição de violência, e vem triplicando seus números de homicídio nos últimos anos. Acompanhando essa mesma tendência, vemos cidades do Interior que começam a apresentar índices elevados. Isso acontece por vários motivos. O primeiro é que o desenvolvimento econômico não é acompanhado pelo desenvolvimento humano e aí o que vemos é que grande parte da população fica exposta a uma sociabilidade violenta", explica o especialista.

Geovani Facó ressalta ainda que cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife tiveram experiências exitosas no combate à violência urbana, que devem ser replicadas. Ele indica ações do programa Ceará Pacífico como importantes para a redução dos números em 2015.

O Atlas mostra ainda o perfil das vítimas. A morte violenta de jovens cresce em marcha acelerada desde os anos 1980. A Bahia tem o registro de maior número de homicídios por faixa etária de 15 a 29 anos, com 3.274, em 2014. Depois, vem o Ceará com 2.832, seguido de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Em 10 anos, o crescimento foi de 244,1% no Estado.

Para o sociólogo, os jovens são os mais afetados, sobretudo, pelo narcotráfico e o crime organizado. "O jovem é seduzido pelo acesso ao consumo de bens via narcotráfico. Eles são vítimas e precisam de proteção, tratamento e políticas públicas. É preciso lidar com inteligência e técnica, que passa por revisão do Código Civil, política de saúde pública e revisão da Justiça, que julga mal, prende mal e reabilita mal".

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) destaca que "com a implantação do Programa Em Defesa da Vida, em janeiro de 2014, houve uma quebra na tendência de alta que se apresentava entre 2004 e 2013. Nesse período, conforme dados da própria SSPDS, a média de crescimento anual era de 14,5%, caindo para 1% em 2014 comparado a 2013".

Iniciativas

A SSPDS reforçou que mantém ações contínuas para consolidar o quadro de redução dos indicadores de criminalidade e citou a ampliação do policiamento especializado no Interior. Houve, diz a Pasta, a reestruturação do trabalho desenvolvido pelo Comando de Policiamento Comunitário (CPCom - Ronda), por meio da atuação nas Unidades Integradas de Segurança (Unisegs), cuja primeira foi inaugurada no último dia 5, no Vicente Pinzon, em Fortaleza e que prevê a ampliação do número de delegacias 24h. Citou as ações conjuntas do Ceará Pacífico como estratégia de enfrentamento.

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