Carnaval 2021: como serão os dias dos cearenses amantes da folia

Ausência dos dias de festa afeta rotina e memórias desde foliões amantes dos festejos até quem vive do cenário carnavalesco; mas, apesar da quebra do marco de início de ano, cearenses são unânimes: não há espaço para celebrar

Escrito por Theyse Viana , theyse.viana@svm.com.br

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Legenda: Com 20 anos de atuação no Maracatu, Márcio Santos relata o vazio na rotina sem as festas
Foto: Thiago Gadelha

"O ano só começa depois do Carnaval", dizem os brasileiros. Todo ano novo, aliás, já inicia à espera do recesso imposto pela folia, que lota da praia à serra, das casas às ruas; esvazia salas de aula e fecha as portas dos escritórios. Em 2021, porém, a festa, antes de começar, já teve fim. E não teria como ser diferente - tanto por lei, já que o carnaval foi proibido por decreto do Governo do Estado, no dia 8 de janeiro deste ano; quanto por bom senso, diante das mais de 10.500 (e contando) mortes por Covid-19 no Ceará. Afinal, o que é que haveria para se celebrar?

O questionamento brota também dos pensamentos de Márcio Santos, que vive dos festejos de Carnaval há 20 dos 42 anos de idade, desde que ingressou no grupo Maracatu Vozes da África, tradicional nos desfiles sediados na Avenida Domingos Olímpio, em Fortaleza. Com a ausência da festa, o sentimento é de que a rotina e os dias estão "desorganizados", como quando se está de férias e as segundas, terças e quartas-feiras se embaralham, perdem a identidade.

"A ficha ainda não caiu, está sendo muito complicado. Tenho 20 anos de Maracatu, nove como carnavalesco, então já era uma coisa já muito certa na minha vida. Na verdade, nosso Carnaval inicia quando apagam-se as fogueiras de junho, quando termina o São João. Meu ano sempre começa na segunda-feira de Carnaval. Então, está tudo parado, aqui", declara Márcio, fazendo questão de afirmar que o sentido da folia, para ele, vai além dos festejos.

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Foto: Thiago Gadelha

"Esses dias estive no barracão, como de costume, porque vamos fazer lives. Eu praticamente me mudo pra lá, nesse período, porque tenho que acompanhar toda a equipe de produção, desde os costureiros até o compositor. E tô estranhando esse período atípico, sentindo muita falta da gente lá, com toda a equipe de artistas. Não estamos bem. A gente queria estar lá. Porque o Carnaval não é só o dinheiro, a ajuda financeira dos editais, mas é também a mostra dos nossos grandes artistas, da nossa cultura", ressalta o carnavalesco.

Perdas

Vazio maior ainda, porém, é o das ausências permanentes: segundo Márcio, três membros do grupo Maracatu Vozes da África morreram em consequência da Covid-19.

"Nossa costureira, dona Ivone, que nos acompanhava durante o ano todo; Iran, nosso aderecista, que estava sempre comigo; e a Thina Rodrigues, que não fazia mais parte, mas trabalhou conosco desde a fundação. Ainda estamos vivendo esse luto, não seria possível ter Carnaval de forma alguma. Não é momento pra comemorar, aglomerar e fazer a festa democrática que deve ser. Não tem clima", lamenta.

A constatação é compartilhada ainda por quem não vive da folia, mas aguarda por ela, todo ano, como se vivesse.

"Não tenho pensado muito sobre carnaval, porque não vamos tê-lo. Sou daquele tempo que pegou desde confete e serpentina com os pais até o mela-mela com os amigos, e agora curte o glitter dos pés à cabeça. Passo os dias todos em Fortaleza, aproveitando todas as festas de rua, fantasiada na Praia de Iracema, no Benfica. Mas, neste ano, vem a saúde em primeiríssimo lugar", afirma a gestora de comunidade Roberta Gomes, 39.

O "desinteresse por ambientes com aglomerações" se une, ainda, ao fato de que, diferentemente dos demais anos, Roberta está empregada em uma empresa privada. "Lá a gente sabe que carnaval não é feriado, e eu já tava chorando em posição fetal porque vamos trabalhar todos os dias. Mas já tô pensando em como vou fazer no ano que vem: se tiver vacina e o mundo estiver em condições, vou tirar férias pra curtir o carnaval com tranquilidade", planeja.

Contudo, em 2021, assim como Márcio, a foliã nata reconhece: "não tem clima pra nada". "Ouço isso de todas as pessoas: a gente não se sente muito no direito de estar festejando, feliz, e curtindo esses privilégios em plena pandemia, com tantas perdas. Nesse carnaval, de fato, eu imagino que eu vou dedicar o tempo e o espaço pra refletir, ler, crescer intelectualmente falando. E já que não teremos festa nem feriado, fazer alguma coisa que ocupe esse tempo", projeta Roberta.

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Legenda: Roberta costuma curtir os dias de folia nos polos tradicionais de Fortaleza; foto do Carnaval 2020

O tempo da vendedora Mayara Sousa, 32, será ocupado "em casa e no trabalho", situação que "nunca imaginou passar". Há pelo menos sete anos, ela reúne cerca de 40 amigos em alguma casa de praia em Aracati, um dos pontos mais tradicionais do Ceará, para curtir os quatro dias.

"Carnaval é viagem, é praia com amigos. Sou do tipo que conta os dias nos dedos, e a gente já organizava tudo uns quatro meses antes. Neste ano, vai ser bem diferente", reforça Mayara.

Futuro

Mayara confessa que ela e os amigos "até tiveram uma esperança" de que manteriam a tradição em 2021, mas viram que "realmente não teria como" e "tiveram de se conformar". "A sensação é ruim, é estranha, mas ao mesmo tempo é um momento de pensar mais no próximo, de acreditar que dias melhores estão por vir e que no próximo Carnaval estaremos todos com saúde e imunizados, e tudo vai voltar a ser como era antes, se Deus quiser", espera a vendedora.

Para Roberta, a ausência do carnaval, embora justificada, não passará em branco. "Tem um sociólogo que disse que depois que a pandemia terminar, vai haver uma onda de pessoas tirando o atraso de todas as coisas das quais a gente tá se podando. O brasileiro não vive sem o Carnaval: vai viver, porque precisa, mas depois vai correr atrás", diz, em referência ao sociólogo Nicholas Christakis, que afirmou, em entrevista à BBC, que "por volta de 2024, pode vir uma época de libertinagem sexual e gastança desenfreada".

E se, de um lado, a canção diz que "todo Carnaval tem seu fim"; do outro, 2021 nos impõe: não haverá sequer começo. "Não vamos ter muito a sensação de ter passado pelo período que deveria ser carnaval, sabe?", pontua Roberta, ao que resume: "depois dele é que o ano começava. Como a gente vai seguir 2021 sem ter passado por esse portal?"