Brincar do começo até o fim

Legenda: Diversas alas das 15 agremiações trouxeram acrobacias, carros alegóricos, manifestos políticos e homenagens
Foto: Foto: Fabiane de Paula

A Avenida Domingos Olímpio tem o mais interior dos carnavais e, talvez por isso, a mais Fortaleza das festas. Não só porque é o Maracatu tão antigo nas ruas da Capital - não é o passado que faz uma tradição. Basta olhar ao redor para perceber que não há nada mais autêntico. Nada contra nenhuma das outras folias, pelo contrário. Elas nos ajudam a entender que o "Carnaval da Domingos" é o mais diferente. Brincam, a um só tempo, o velho, a criança e o adulto. Não tem o momento que é "kids".

A qualquer hora tem criança grande e tem criança pequena. Em quatro noites, maracatus, sambas, blocos, afoxés. É tudo dança, mas uma dança natural do corpo.

Quem está na avenida se parece com quem está na arquibancada, e eis mais uma constatação: é o carnaval da periferia. Sim, sem força de expressão, não precisa.

A periferia de Fortaleza se encontra e enxerga no Carnaval da Domingos. E como se esse encontro não bastasse, as nossas raízes africanas, base na pintura dos rostos negros do Maracatu, cruzam com os tantos irmãos africanos de Guiné-Bissau e Cabo-Verde. É uma avenida intercontinental.

Famílias ficavam nas arquibancadas e em pé nos alambrados, de onde é possível ir caminhando ao lado, da calçada desfilando com os olhos para o asfalto. Foram 15 agremiações de maracatus entre sábado e domingo. Nos outros dois dias, blocos, samba e afoxés. Entre todos, o Bloco dos Sujos, de brincantes desfilando a conta-gotas na avenida com suas fantasias por simpatia (ao fim, elege-se o"melhor sujo").

Tanta diversidade que até um recorte neste espaço parecerá injusto. Tem desde Luziânia Gomes, que desfila há mais de 40 anos dos seus 55, a Vitória Régia, com menos de um ano e já percebe a profusão de cores, luzes e sons. A mãe começou como filha no Maracatu Vozes da África. Só não estão as três gerações porque Luzia, a matriarca, virou estrela. "Até doente vinha", lembra a filha, num desfile da saudade.

"Agradece a plateia. Agora, vem pra minha direita; pra esquerda, agora. Voa, voa". Ao comando do locutor Praciano, um drone operado pela organização do evento, realizado pela Prefeitura de Fortaleza, faz graça no intervalo dos blocos.

Na mesma janela de tempo, os alambrados que separam do público se dissolvem para crianças que invadem a avenida para brincar de correr, pular e se jogar confete antes da próxima agremiação. Nada mais banal, nada mais interior. Por muitos instantes, a Domingos parece um circo de picadeiro em linha reta. "É o Carnaval da periferia. Lá fora é o Carnaval dos outros", sentencia a professora e pesquisadora Lourdes Macena, plateia fiel.

Dona Vanda Maria levou seu 'filho mais novo', Benji, um vira-lata, para conferir o desfile. Pendurado no alambrado, recebia o comprimento dos brincantes. Via tudo. Até quando Carlinhos, ornamentado e pintado, desabava no chão a 50 metros do fim por eternos cinco segundos. Correram pra acudir. Chegaram bombeiros. Carlinhos recobra a consciência, fica em pé, é levado com calma para fora da avenida. Antes que pise fora, desvencilha-se, retoma o turbante. Ergue os braços, a cabeça, recaminha ao centro, cortejado por aplausos. "Eu disse quero terminar a avenida desfilando. É uma luta muito grande o ano todinho pra não terminar meu cortejo". É de festa e lição de viver esse Carnaval da Domingos.

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza


Redação 21 de Outubro de 2020