Brasileiros têm mais hábitos sustentáveis quando moram em países estrangeiros, aponta pesquisa

A análise foi feita com base em estudos qualitativos e quantitativos, com cerca de 139 brasileiros que moravam em Montreal, no Canadá

foto lixo
Legenda: Lixo descartado inadequadamente em Caucaia
Foto: Camila Lima

Um estudo realizado pela professora e coordenadora de Comunicação e Marketing da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cláudia Buhamra, aponta que os brasileiros que moram no exterior desenvolveram mais comportamentos sustentáveis depois que deixaram o Brasil.

A ideia foi elaborada no Canadá, durante o pós-doutorado da professora, em 2012, e parte do conceito de que os brasileiros já têm uma vontade inicial de contribuir com o meio ambiente, que só é posta em prática quando não estão em seu país natal. A pesquisa, que está disponível no disponível para consulta, sugere uma série de fatores que podem causar este fenômeno.

A análise foi feita com base em estudos qualitativos e quantitativos, com cerca de 139 brasileiros que moravam em Montreal. O resultado demonstra que “o comportamento só veio de fato a ser sustentável quando eles chegaram no Canadá porque encontraram leis que se faziam cumprir e infraestrutura", destaca.

Isso nos leva a conclusão que, sendo ofertada uma infraestrutura adequada e uma correta educação, e até cobrança do ponto de vista punitivo, muito provavelmente o brasileiro responderá de forma bem positiva às demandas de sustentabilidade”
Cláudia Buhamra
Coordenadora de Comunicação e Marketing da UFC

Benefício coletivo

Outro fator que impede a frequência de hábitos sustentáveis no Brasil é o coletivismo. “O coletivismo é bem essa coisa de que eu não faço esperando pelo outro. Os países individualistas, como o Canadá e a Alemanha, são países que, embora eu reconheça que a obrigação é de todos, eu vou fazer a minha parte individualmente porque eu reconheço que o benefício será coletivo”, complementa.

Para a pesquisadora, além da infraestrutura disponível no País, o comportamento pode ser explicado a partir do conceito de aculturação, que consiste na adaptação às regras do local de migração para se sentir mais confortável e aceito.

“Existem autores que defendem que respeitar as regras de sustentabilidade também é uma forma de ser aceito no novo ambiente em que você migra, por isso que é tão relevante para os brasileiros estarem de acordo com a legislação”.

Poder Público

O papel do poder público é o mais fundamental, de acordo com Cláudia Buhamra, para que os brasileiros possam desenvolver essa prática também no país de origem. Dentre as medidas estão leis que regularizem e fiscalizem o descarte correto do lixo, além de infraestrutura adequada e benefícios para a população. 

“O Brasil há muito tempo já tem a legislação dos resíduos sólidos que obriga todas as prefeituras a cuidar dos resíduos, com destino adequado. Se o Governo Federal obrigasse e cobrasse das prefeituras e as prefeituras cobrassem dos cidadãos, mas não apenas no sentido de punição, mas também no sentido de estímulo, beneficiar o cidadão, ter desconto de impostos para que aquele cidadão que devolve o lixo, que faz logística reversa, que nao suja a sua cidade”, afirma.

O Canadá foi escolhido para ambientar a pesquisa por uma “feliz coincidência", como considera Buhamra, já que ela estava local para fins profissionais. O país também mantém grande controle de sustentabilidade

A pesquisa foi feita em parceria com o professor Michel Laroche e Golam Mohammad Aurup, ambos da Concordia University, e Sofia Batista Ferraz, da Universidade de São Paulo (USP).   

Pesquisas anteriores

A professora conta que já era familiarizada com a sustentabilidade antes mesmo de começar a pesquisar o tema de seu pós-doutorado. O interesse inicial surgiu a partir de estudos sobre o ciclo de um produto, desde a sua fabricação até o seu descarte. Cláudia comenta que além do papel do Estado e da sociedade, há ainda o dever das empresas que produzem materiais que serão descartados futuramente.

"A responsabilidade socioambiental hoje de uma empresa é para além da fabricação de um produto que vai agradar o consumidor. Ela tem que ter responsabilidade sobre o solo, sobre a água, sobre o ar e tudo o mais de recursos ambientais que esse produto utiliza”, explica.

Sendo assim, vem à tona a importância da logística reversa, método que reflete sobre como as embalagens podem retornar ao início do ciclo de produção ou serem reutilizadas. “A logística reversa é você trazer de volta do meio ambiente, produtos, embalagens que já foram utilizadas e que serão descartadas. É toda uma logística que volta da casa do consumidor para dentro da empresa, se for reaproveitada na reciclagem, ou para algum destino que o poder público dê”.

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