Ataques à imprensa tentam "blindar" denúncias, diz ANJ

Em visita ao Sistema Verdes Mares, o jornalista Marcelo Rech destacou a importância do jornalismo profissional e de uma mídia livre para a propagação de informações corretas e para o fortalecimento da democracia

Legenda: O jornalista Marcelo Rech presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) avaliou o cenário da profissão no Brasil e no Ceará
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA

Se a democracia é um processo de decisão, o jornalismo profissional deve firmar o compromisso de ser instrumento para garanti-la. Foi sob essa premissa que o presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores, Marcelo Rech, avaliou o cenário da profissão no Brasil e no Ceará, ressaltando a necessidade de combate às informações falsas e de atenção da sociedade aos diferentes suportes - rádio, televisão, impresso e internet.

No cenário em que o conteúdo se propaga em redes sociais, qual a importância de fortalecer o jornalismo profissional?

Dizer que o jornalismo profissional nunca foi tão relevante não é um clichê. Isso tem razões bem objetivas. Ele é o exercício dos profissionais, que, seja em qual for a parte do mundo - na Ásia, na África, na Europa, Estados Unidos, Brasil, têm formações e culturas diferentes, mas valores comuns. Assim como os médicos, por exemplo, nosso objetivo é acertar. Erramos, e é uma tragédia para nós - mas, no nosso compromisso, procuramos corrigir o erro. O jornalismo profissional está no ramo de retratar e interpretar a realidade, não só na apuração e na difusão de notícias, mas por meio da pluralidade, da difusão de diferentes pontos de vista para que a sociedade forme o seu julgamento. Ele não se confunde com ativismo, embora este seja legítimo.

A mídia tem sofrido ataques que visam descreditá-la. O que fazer?

Em diferentes partes do mundo, líderes políticos utilizam a expressão "fake news" como forma de desqualificar a informação que não é confortável: uma eventual crítica, algum desvio. Precisamos adotar mais a palavra "desinformação", que é a informação artificialmente criada para gerar confusão e criar um caos na sociedade. De fato, estão se refugiando nessas acusações à imprensa no sentido de tentar descaracterizar e se blindar de denúncias, investigações, mal-feitos, independentemente de qual for a origem política. É um recurso preocupante, porque gera também hostilidade física aos jornalistas. O Brasil é um dos países que mais preocupam as Nações Unidas e entidades internacionais do ponto de vista de segurança da imprensa: assassinatos, agressões e ataques à reputação dos profissionais são formas intimidatórias de estabelecer uma nova censura prévia.

Como atentar à checagem da informação para evitar a desinformação?

Jornalismo profissional se distingue dos caçadores de clique, porque não faz tudo pela audiência. Há valores e princípios da atividade, da linha editorial dos veículos. Claro que a audiência é importante, mas há princípios éticos que vêm muito antes: respeito, dignidade e não apelação à violência são partes essenciais do nosso processo profissional, que é civilizatório. Mas é verdade que o mundo gira online, e as redações e profissionais têm de trabalhar, hoje, cada vez mais em duas velocidades - na instantânea e na de decantação, que é um pouco mais trabalhada, interpretativa, profunda, que dê mais significado aos acontecimentos.

É aí onde o jornalismo impresso encontra lugar?

Seguramente. Por isso dizemos que não existe um meio dominante, hegemônico. As pessoas se informam em plataformas diferentes e de uma forma complementar, que vai desde uma informação instantânea do que está acontecendo agora - na rádio, na televisão, no digital - até uma coisa mais profunda. O público é absolutamente dominante na forma como quer consumir.

Diz-se que o jornal impresso vai acabar. Que perfil precisa assumir para manter leitores e atrair a nova geração?

Historicamente, sempre que surgem meios novos, se diz que o anterior vai acabar. São camadas que vão se sobrepondo e formam essa complementaridade informativa. Desde que surgiu a internet, ouvimos falar que o jornal impresso vai acabar. Isso está longe de acontecer. O meio impresso tem uma característica muito diferenciada, que é concentração de atenção: quando leio, estou focado. Não tem a dispersão dos digitais. É uma forma eficaz de transmissão de conhecimento, informação e publicidade. Não tem substituição.

Quais as tendências em relação ao uso das redes sociais como meios de receber conteúdo e aproximar as pessoas?

O jornalismo profissional é o único antídoto contra a onda de desinformação. Recolocar a verdade e fazer a verificação é um elemento essencial da nossa atividade, especialmente no campo digital. Estamos sendo cada vez menos apuradores e cada vez mais certificadores de coisas que já circulam, para aferir ou não a velocidade daquela informação. Quando unimos nossa marca pessoal de jornalistas profissionais com a marca do veículo, temos um certificado de que essa informação é própria para consumo. Fazer isso de forma regional é ainda mais relevante - porque nada substitui o papel social que um veículo local tem de ser um espelho das necessidades e da cultura daquela comunidade. No interior do Nordeste, existem regiões sem rádios, jornais ou outro meio de informação. A sociedade fica, então, refém de quem usa a desinformação para distorcer a realidade com objetivos econômicos ou políticos.

Empoderar as pessoas com informação correta é uma arma contra totalitarismos. Como fazer do jornalismo ferramenta de defesa da democracia?

Não existe democracia sem liberdade de imprensa, expressão e pensamento, com responsabilidade: isso é um pilar das sociedades livres. Além disso, o jornalismo é um contraponto ao efeito colateral perverso das redes sociais: a vida em bolha. As pessoas passaram a se informar apenas de fontes que reafirmam suas próprias convicções. É como entrar no supermercado e comprar sempre as mesmas coisas. Essa vida em um casulo de opinião vai levando a um crescente sectarismo, radicalismo, extremismo e intolerância com opiniões diferentes. Os veículos, então, são os supermercados da informação, têm capacidade e missão de serem as pontes entre essas pessoas e a pluralidade. Se a base da democracia é um processo de escolha, fazer os julgamentos corretos é um elemento essencial. Isso forma o vínculo do jornalismo com a democracia: proporcionar qualidade no processo decisório.

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Redação 18 de Outubro de 2020