Além da violência, Cajazeiras sofre sem serviços básicos

No bairro de contrastes, moradores reclamam por melhores condições de saúde, lazer e educação

Escrito por
Renato Bezerra / Cadu Freitas - Repórteres producaodiario@svm.com.br

Localizado na Regional VI, o bairro Cajazeiras, com área de 3,3 km² e aproximadamente 15 mil habitantes, é mais um exemplo do grande contraste social no qual se insere boa parte de Fortaleza. De um lado, a expansão imobiliária nos últimos anos agregou casas e condomínios à região. De outro, áreas periféricas sobrevivem à graves problemas sociais, como carência de infraestrutura e a violência, esta última, e no caso mais recente, retratada na Comunidade do Barreirão, onde 14 pessoas morreram na maior chacina já registrada no Estado.

Analisando aspectos de Renda, Longevidade e Educação, o bairro conta com Índice de Desenvolvimento Humano Básico (IDH) de 0,30, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), considerado muito baixo, e o 49º pior índice entre os 119 bairros da Capital. O dado se assemelha a grande parte da Regional VI, onde 82,7% dos bairros possuem IDH considerado muito baixo e 13,7% são classificados como baixo.

Uma vulnerabilidade social que, por muitas vezes, tem relação direta com os índices de violência, tendo como agravante a carência de políticas públicas e especialmente as urbanísticas, na avaliação do sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira.

"Se você tem bons serviços urbanos, a comunidade terá mais condições de controle da violência. Você tendo ruas asfaltadas, iluminação, praças publicas, isso tudo leva a melhores condições de vida. É importante que se diga: a violência atinge a um público bem maior hoje. Vivemos o momento da violência difusa, que está presente em todos os lugares e em todas as horas, mas apesar de atingir a todos, temos as vítimas preferenciais, que são essas pessoas mais vulneráveis socialmente", destaca o coordenador do LEV.

A ausência de serviços, conforme acrescenta, fomenta a parcela da população que não trabalha e nem estuda, principalmente os jovens. "É como se estivéssemos agravando esse ciclo vicioso, de pessoas que não trabalham, não estudam e não estão procurando emprego, e elas não procuram porque não veem condições objetivas para isso", diz.

No Barreirão

Ana Lúcia Silva é Barreirão da cabeça aos pés. O solado do pisante da mulher de 46 anos ainda sente o chão quente e arenoso do período no qual ajudou a construir a comunidade - no KM 7,8 da BR 116 - pensada e nomeada a partir da vontade do amigo Martiliano, em 2004. "Ele foi o fundador, a comunidade estava com uma semana e eu fui convidada por uma amiga que morava no Conjunto Palmeiras para a gente vir".

Na chegada, a 2 de novembro do mesmo ano, o projeto de ocupação pleiteou a vontade de cada morador. Cada qual pôde marcar seu terreno no local desejado, contanto que não houvesse beco algum. "Queríamos que os terrenos fossem todos padrõezinhos, não queríamos ruas com sequelas, tudo organizadinho, que nem lote", explica a manipuladora de alimentos, lembrando das marcas do corpo adquiridas pela luta por terra.

Por ser irregular, a ocupação deu de frente com o Poder Público, que exigia a saída dos moradores da comunidade. Os caldeirões - pelos quais a alimentação da comunidade no período da sua gênese era preparada - foram, por diversas vezes, chutados; bem como as pernas, os braços e os troncos de pessoas que sonhavam ter seu canto próprio. "Quando você ocupa um lugar que está precisando para morar, você enfrenta, e foi o que aconteceu com a gente. Fomos muito xingados, não tinham pena da gente, o Batalhão de Choque também, chegavam digladiando", narra a mulher.

As 14 ruas do Barreirão são todas com nomes de santos, frades ou irmãs celestiais, como um agradecimento pela graça alcançada de ter o direito à moradia. Apesar da luta, a comunidade foi conquistada a partir do próprio suor dos fundadores, alguns mortos no sábado, 27.

"Eu olhava de manhã, respirava em saber que estava conquistando um pedaço de terra para morar, que nem o Marrom, que nem a Mara, que morreram e estavam aqui desde o início. Esses são os fundadores do Che Guevara, são os que levaram chuva, sol, carreira, passaram fome, sede - e dentro de 40 minutos, fechar os olhos, e passar pela cabeça que nós não sofremos no dia que chegamos o tanto que sofremos sábado". Para a comunidade, as palavras "respeito" e "Justiça" são ponto de partida para diversos problemas que assolam suas ruas, casas e o espaço arenoso que, apesar de 13 anos após a ocupação, parece ter parado em 2004. Da educação à saúde pública, as áreas consideradas mais relevantes pela população, não há presença efetiva dessas políticas públicas.

Deixa a desejar

"Temos só uma escolinha que é conveniada com a Prefeitura, e é a única coisa boa que temos na nossa comunidade", externa a fundadora. Segundo o comerciante Alexandre Ferreira, 39, não há colégios para crianças, além da creche: "a estrutura aqui deixa a desejar, pois tem de se deslocar daqui para o outro bairro, o Barroso", conta.

No bairro, como um todo, há ainda a Escola Municipal José Sobreira de Amorim, a 3,6 km da comunidade, que atua no Ensino Infantil e Fundamental. O Posto de Saúde Waldo Pessoa de Almeida fica a 20 minutos da comunidade, a pé, também no Barroso. "Só que é nota zero. Você chega lá e, se vai tirar pontos, tem que levar o material porque não tem. Minha nora, quando foi ter o bebê, teve de mandar comprar gaze na farmácia", relata Ana Lúcia Silva.

Segundo a Prefeitura, o espaço compreendido pela Regional VI possui 28 Unidades Básicas de Saúde (UBS), além do Hospital Distrital Edmilson Barros de Oliveira (Frotinha Messejana) e Hospital Distrital Gonzaga Mota (Gonzaguinha Messejana). Com relação às denúncias de falta de materiais básicos para os serviços de saúde, a reportagem questionou a Regional VI, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

"O que a população mais pede é o saneamento básico porque iria resolver nossa vida durante o período de chuva; quando ela vem, a gente fica sem poder dar descarga no sanitário porque a fossa enche rápido", relata Alexandre Ferreira. A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) informou que o sistema de esgotamento sanitário que abrange parte do bairro Cajazeiras foi inaugurado na última sexta-feira (26) e que as áreas atendidas receberão visitas dos profissionais da Companhia para orientar sobre a interligação.

No tocante ao lazer, são 105 praças localizadas na Regional VI, sendo duas delas no bairro Cajazeiras, a Praça Ubiratan Aguiar e a Praça do Anel Viário, distantes do Barreirão. Para jogar bola na comunidade, um grupo de moradores juntou dinheiro e aterrou um espaço com areia de praia próximo à creche. "O campo não tem grama, mas, do jeito que estava antes, não dava, tinha muito buraco", conta o comerciante.

A ligação do bairro, por si só, é problemática no que diz respeito ao asfalto. Das 14 ruas da comunidade, apenas quatro são asfaltadas, as três principais, que ligam a BR-116 ao meio do Barreirão, e a Rua Santa Helena, local no qual fica a creche. "Nós não temos saneamento básico, o pouco que a gente tem, esse asfalto, foi feito ano passado nessas quatro ruas", contextualiza a moradora, fundadora do local.

A esperança dos moradores, porém, é a de que a areia na qual foi construída a comunidade Che Guevara possa fundir-se, enquanto Barreirão, com o betume escuro, a fim de adubar sonhos e esperança de tempos melhores.

Protagonista

Da cabeça aos pés, Barreirão é marca no corpo

Aos 46 anos, uma das fundadoras da comunidade Barreirão, antiga Che Guevara, mora no local desde 2004, período de ocupação e construção das casas que hoje ornam o espaço nas Cajazeiras. Apesar de ter passado dois anos fora, voltou para o bairro há cerca de quatro anos e até hoje luta por melhorias estruturais.

Ana Lúcia Silva. Manipuladora de alimentos