"A escola não será a mesma após a pandemia", diz presidente do Conselho Estadual da Educação

Ada Pimentel, a educadora que gerencia as atividades do colegiado normativo do Ceará, analisa como o período de disseminação do novo coronavírus irá afetar a Educação no Estado e o que deverá ser enfrentado no futuro

Legenda: Ada Pimentel vem de Sobral e é professora convicta do papel social que a escola tem.

A pandemia provocada pela disseminação do novo coronavírus atingiu em cheio a Educação - e isso é impossível negar. De repente, a presencialidade passou a ser substituída pela virtualidade; instituições de ensino tiveram de se adaptar ao "novo normal" e implementar as atividades remotas em tempo recorde; professores, da mesma forma, buscaram nas próprias experiências a inovação para ministrar atividades em um formato que nunca tinha sido treinado.

É com cenário similar a esse que a educação brasileira vive os dias de hoje. Para tanto, os conselhos da área, importantes colegiados normativos, têm atuado para sugerir diretrizes a fim de garantir o mínimo de perdas possíveis. Ada Pimentel gerencia essas atividades no Ceará e, a partir das suas visões, o período é de dificuldades, mas também de aprendizados.

Como estará a escola e a educação como um todo após o fim do período da pandemia da Covid-19?

O mundo não será o mesmo, e a escola certamente será diferente. Até na hora de voltar, terá que ser por grupos,com avaliações diagnósticas, tem de ver a importância da tecnologia na mediação do ensino, a formação dos professores tem que ser ressignificada.

A escola não será a mesma após a pandemia, mas temos de reconstruí-la nas diversas dimensões. E essa reconstrução da escola é uma missão de todos. Não existirão guetos, precisamos sair da nossa individualidade, compartilhar esses momentos e tirar as boas lições que eles nos trazem.

Atualmente, o ensino vem ocorrendo de forma remota. Este modelo é viável durante a pandemia da Covid-19?

Há várias possibilidades, mas muitos desafios. A Constituição fala que tem que oferecer educação de qualidade, mas ofertando também as mesmas condições para todos.

No Ceará, apenas 31% dos alunos têm computador, tablet, banda larga em casa, como é que eu vou assegurar condições para todos? Naturalmente, (o ensino remoto) foi uma inovação, é uma experiência significativa, a gente não pode negar, mas a gente tem de ver a eficácia dessa ação.

Então, quais são os principais gargalos enfrentados durante este período pela área?

A distorção, o grande índice de desigualdade no Brasil, o acesso à educação e a qualidade dessa emissão. Um dos maiores problemas é como é que eu chego a todo aluno da rede pública - que corresponde a 81% do todo? A gente sabe as condições da rede pública. Depois (da pandemia), a gente vai buscar a Secretaria da Educação para que nos deem dados de realidade.

Quem atingiram, como atingiram, e se foram atingidos os objetivos da aprendizagem. A gente acha que é possível, mas nas condições do Brasil, onde o fosso, as diferenças sociais e econômicas são muito fortes é uma dificuldade.

E como isso afeta o Ensino Médio, que é o período em que o governo estadual ainda não conseguiu resultados satisfatórios?

Pode influenciar na evasão escolar, que é muita nefasta porque há prejuízos econômicos,sociais e emocionais, especialmente para quem está no terceiro ano, onde você tem de enfrentar vários exames nacionais, como o Enem, que é a porta de entrada para a universidade.

Enquanto um grupo de alunos tem todas as condições para desenvolverem seus estudos, um percentual muito grande fica a margem, e eles, por não sentirem que tem a oportunidade de sucesso, acabam abandonando a escola. Há um desestímulo muito grande nesse aspecto.

Com relação ao Enem, o Ministério da Educação (MEC), inclusive, defende a manutenção das datas deste ano, nas dos primeiros domingos de novembro. Qual sua posição sobre isso?

As nossas atitudes agora não podem ser iguais porque são situações geradas num contexto adverso. Eu acho ilógico não se mudar o calendário para o Enem tendo essa disparidade social. Os alunos que são mais pobres serão prejudicados. É diferente um aluno do terceiro ano que tem condições de ter estudo em casa de outros que subsistem a partir da escola. É muito injusto um competir com outro em condições diferenciadas.

Mas o próprio ministro disse que o Enem não é para corrigir diferenças sociais, é para selecionar. Então, a partir desta frase do ministro, não tem mais o que se dizer o que ele pensa e como isso repercute nas diferenças sociais e econômicas.

Como está sendo a relação com o MEC e com o Conselho Nacional de Educação (CNE) neste período da pandemia?

Pela ausência da coordenação do Ministério da Educação, o grande protagonista nessa história foi o Conselho Nacional de Educação. O MEC soltou umas notas, mas quem tem orientado, feito reuniões online, webconferências, tem debatido e consultado é o CNE.

A nível federal em relação ao Ministério, (a relação é) quase nada. A gente tem tido uma boa relação com os relatores do Conselho Nacional e com os presidentes das Câmaras de Educação Superior.

Com relação à Educação Infantil, como ela foi afetada durante a pandemia e como Resolver suas questões?

Na educação infantil, há uma pressão muito grande, mas em nenhuma parte da legislação diz que é possível se trabalhar em atividades remotas. Tem que se trabalhar com os pais, para que eles adotem as experiências, estimulem os filhos, porque o aspecto cognitivo não se sobrepõe às atividades de experiência. Eles não são reprovados para ir para o primeiro ano.

E outra coisa muito séria: como alfabetizar com o ensino remoto? Temos uma situação bastante diferenciada com relação à aprendizagem dos pais. Quando a criança tem os pais alfabetizados, ela tem um melhor desempenho porque são mais estimulados, e a escola terá que dialogar muito essa comunicação.

A Assembleia aprovou nesta semana a redução de até 30% na mensalidade de escolas particulares no Ceará. Qual sua posição sobre essa decisão?

Eu não li na íntegra, mas a situação das escolas privadas é muito delicada. Alguns diretores, proprietários de escolas já tinham começado a dialogar com esses pais. Muitas escolas já eram sensíveis a essas questões. Acho que a lei foi motivada para que se abra mais o diálogo.

Havia escola que já havia entrado no entendimento, até dando um percentual muito maior do que esse que foi definido; e outras eram irredutíveis. O que fez para que isso se transformasse em lei foi a falta de diálogo que em determinada situação deve ter ocorrido em determinadas instituições.

Há denúncias de que professores da rede privada estão recebendo menos e trabalhando da mesma forma e remotamente. Como garantir essa renda a esses profissionais nesse momento tão difícil?

Soube que muitas instituições do ensino básico e superior estavam reduzindo o salário dos professores. O que a gente tem é que lamentar muito. Há instituições de pequeno porte que não têm lastro ecônomico, mas outras têm um bom lastro, e agora é o momento da contribuição social que se pode dar.

Mas cada qual sabe da sua situação e do seu compromisso social. Isso se resolveria com o diálogo, nada mais do que um diálogo efetivo e fundamentado.

Quais as mensagens que esse período da pandemia passa para a educação como um todo?

Depois dessa pandemia, a gente tem que fazer uma ação intersetorial envolvendo áreas da saúde e da assistência social. Vão ter impactos emocionais que a situação deve trazer aos alunos e educadores. O retorno exigirá um plano de ação muito consistente em diversas frentes e demandará intensa articulação e contextualização local. Vamos fazer revisão de calendário, rever a formação dos professores e ter um retorno gradual com precauções com a saúde.

Quando eles voltarem, a gente vai ter que saber, aluno por aluno, como eles estão, o que conquistaram, como avançaram. E, se tiverem muito diferenciados, vão ter que refazer uma recuperação de aprendizagem. Mas isso precisa ser feito com agentes públicos, iniciativa privada, todos os possíveis, pois a gente não faz ensino sozinho, isolado, tem que ter outras forças.

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