84% dos pais acreditam em medidas punitivas para educar crianças no Ceará, revela pesquisa

Estudo foi realizado pelo projeto Primeira Infância para Adultos Saudáveis entrevistou 7038 cuidadores de crianças de 0 a 5 anos de 16 municípios cearenses em outubro de 2019. Medidas corretivas podem aumentar durante pandemia.

Legenda: Palmadas e gritos estão entre os castigos mais comuns investigados pelo estudo.
Foto: Foto: Natinho Rodrigues

No dia em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 30 anos de existência, pesquisadores alertam para o possível aumento de casos de violência contra os grupos mais jovens durante a quarentena. Uma pesquisa realizada pelo projeto Primeira Infância para Adultos Saudáveis coletou dados acerca de medidas punitivas usadas por cuidadores de crianças em 16 cidades do Ceará. Os resultados preliminares apontam que 84% acreditam ser necessário colocar de castigo, gritar e/ou dar palmadas na criança com o objetivo de educá-la

 

O levantamento mostra que, desse total, 73% consideram o castigo como uma forma de disciplina, 49% veem a palmada como medida eficaz, e 25% optam pelo grito. Durante o isolamento social, profissionais explicam que o desgaste pode intensificar o comportamento corretivo violento. “É uma possibilidade concreta em função do momento de estresse que os pais estão vivenciando, com os riscos da pandemia e seu impacto na economia”, avalia a pediatra Sonia Venâncio, diretora-assistente do Instituto de Saúde de São Paulo, que está à frente da pesquisa.

“Por isso, é um momento oportuno para esse alerta, da importância da não utilização de disciplinas punitivas. Embora seja um momento difícil, os pais podem dedicar mais tempo às brincadeiras, leitura e contação de histórias, fortalecendo assim os vínculos e propiciando estímulos adequados ao desenvolvimento da criança”, frisa a médica. 

Na primeira fase do estudo, foram entrevistados 7.038 responsáveis por crianças de 0 a 5 anos, em outubro de 2019. Além de Fortaleza, foram entrevistados residentes dos municípios de Cruz, Barroquinha, Meruoca, Pentecoste, Paramoti, Quixadá, Catarina, Cedro, Macaranaú, Itaitinga, Itaiçaba, Caridade, Tabuleiro do Norte, Jaguaribe e Orós. O Ceará foi selecionado por meio de uma parceria com o Governo do Estado e da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que desenvolve projetos voltados à Primeira Infância.  

Além dos dados sobre medidas punitivas, a pesquisa mostra também o índice de estimulação cognitiva, em que 63% das crianças entrevistadas foram engajadas em quatro ou mais atividades de estímulo nos três dias que antecederam a entrevista, como ler, cantar, brincar, contar histórias e levar para passear.  

Resultados  

Dos resultados da pesquisa, a pediatra destaca a percepção dos pais sobre a necessidade de utilizar disciplinas punitivas para educar a criança. “Temos poucas informações sobre essa questão no Brasil, e os dados revelaram que é alto o percentual de pais que considera isso normal no processo de educação. Isso permitiu uma discussão muito rica com as equipes municipais sobre a necessidade de abordar essa questão nos atendimentos às famílias no setor saúde, educação e assistência social e conscientizar os pais sobre o impacto negativo que essas práticas podem ter”, esclarece.  

A psicóloga infanto-juvenil Camila dos Santos explica que muitas pessoas diagnosticadas na vida adulta com transtornos mentais vivenciaram medidas punitivas na infância. “É um mito muito antigo que, para educar, seja necessário bater ou agredir a criança de alguma forma (física ou verbal). A partir dos estudos voltado para esse período da vida, foi sendo confirmado, cientificamente, que a criança possui peculiaridades que precisam ser respeitadas e compreendidas”.  

Segundo Camila, os efeitos psíquicos dessas punições são muitos. Alguns de curto e médio prazo são, ainda na infância: dificuldade na aprendizagem, baixa autoestima, comportamentos antissociais e agressivos. A longo prazo, os adolescentes podem apresentar comportamentos autolesivos, inseguros, com baixas habilidades sociais, pensamentos depressivos e, em alguns casos, comportamentos delinquentes.

“Existem muitas estratégias para que não seja necessário nem uma leve palmadinha. Entretanto, é necessário que os pais estejam dispostos a estudar sobre elas e aplicar. Fortaleça seu vínculo com sua criança, crianças cooperam muito mais com quem possui vínculos fortes. Tenham uma boa comunicação, façam acordos e, caso a criança não 'respeite' o acordo, relembre-a das consequências e a execute. Consequência é diferente de castigo”, pontua Camila. 

Punição

Sonia Venâncio explica ainda que o objetivo do projeto é coletar informações sobre a Primeira Infância, período que compreende os cinco primeiros anos de vida de um indivíduo, por meio de uma metodologia rápida e de baixo custo, que consiste na aplicação de um questionário a pais/cuidadores nos momentos de campanhas de vacinação. “A ideia é coletar essas informações para que os municípios possam planejar ações intersetoriais voltadas à promoção do desenvolvimento infantil”, afirma.

“O estado do Ceará tem se destacado por várias iniciativas de políticas públicas voltadas para a Primeira Infância e a ideia foi realizar a pesquisa para fornecer dados que possam apoiar a formulação de propostas”, ressalta a pediatra.  

A realização da pesquisa aconteceu durante a campanha de multivacinação no mês de outubro. Para isso, foram coletadas informações por entrevistadores que eram alunos de universidades e profissionais de saúde previamente treinados para aplicação do questionário utilizando um aplicativo. “Nosso questionário inclui informações sobre saúde, nutrição, aprendizagem oportuna, proteção/segurança e cuidados responsivos. Além disso, fazemos perguntas para saber como está o desenvolvimento motor, cognitivo, da linguagem e socioemocional”, detalha Sonia.