Donas do próprio prazer

Com autoconhecimento e produtos eróticos, mulheres vencem tabu e experimentam o empoderamento da sexualidade. No contexto da pandemia, cresce a procura por produtos eróticos

Legenda: Abordagem sobre sexualidade com leveza e bom humor ajuda a quebrar tabu, afirma orientadora sexual Viviane Quinto.
Foto: Divulgação

Com o distanciamento social imposto pela pandemia, os encontros românticos tiveram que esperar, mas a libido não. Afinal, para muitas mulheres, ficar em casa não significa abrir mão do prazer sexual. Sozinha ou a dois, cada vez mais, elas têm buscado alternativas para apimentar essa relação com o próprio corpo ou com o par. 

Nessa busca, quem chegou ao clímax foi o mercado brasileiro de produtos voltados para sexualidade feminina. 2020 foi o ano do setor, que apresentou um aumento expressivo das vendas no Brasil. De acordo com um levantamento feito pelo portal Mercado Erótico, mais de um milhão de vibradores foram vendidos entre março e junho do ano passado, um volume 50% maior quando comparado à mesma época do ano anterior. Ainda segundo o portal, o número de empreendedores no Brasil triplicou em 2020. 

Em Fortaleza, empresárias como Vanessa Pessôa, proprietária da loja Doce Pimenta (@soudocepimenta), sentiram o aquecimento das vendas. “Os solteiros passaram a procurar mais, por não terem acesso aos parceiros, e os casados para dar aquela apimentada no casamento. A faixa etária se manteve entre 30 e 50 anos”, detalha a empreendedora, no mercado há 12 anos.   

Legenda: No mercado há 12 anos, Vanessa Pessôa comenta o que mais vendeu na pandemia: os acessórios foram os queridinhos do momento.
Foto: Divulgação

Como observa Venessa Pessôa, a clientela que nunca tinha entrado em um sex shop cresceu na pandemia, buscando principalmente os acessórios. “Os géis perderam um pouco de espaço na pandemia. Já os acessórios, como vibradores, algemas e masturbadores, foram os queridinhos do momento”, observa. 

Para Viviane Quinto, fundadora da loja virtual Papo Inttimo (@papointtimo), o aumento das vendas foi mais que o dobro. “Meu crescimento nesse período foi de 110%”, comemora. Para a empresária, que também é orientadora sexual, o período se tornou propício para o estímulo da sexualidade. “Passamos muito tempo dentro de casa com nosso parceiro (a) ou sozinha. Foi um bom momento para fortalecer laços e se conhecer intimamente melhor”, considera. 

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Experiência de autoconhecimento 

Casada há 13 anos, a fotógrafa Alice Frota, 33 anos, começou a experimentar produtos eróticos durante a pandemia, como forma de autoconhecimento. “Surgiu a partir da necessidade de conhecer meu corpo, saber o que proporciona prazer para mim e para o meu parceiro”, relata. Ela conta que, ao buscar conteúdos de educação sexual, percebeu que havia muitas possibilidades de explorar o prazer, o que aguçou a curiosidade. “A informação mudou a minha experiência sexual e a do meu parceiro também”, destaca. 

Legenda: Alice Frota: Uso de produtos eróticos da pandemia fortaleceu a autoconfiança e a parceria com o esposo.
Foto: Denise Marçal/Divulgação

Além dos benefícios para o próprio bem estar, Alice observa que o consumo de produtos voltados para o prazer mudou a rotina e a relação com o esposo.

“Experimentar produtos eróticos me proporcionou mais bem estar, autoconfiança e autopercepção. No meu relacionamento, fortaleceu a cumplicidade, pois os dois precisam ter interesse em descobrir o que agrada ao outro. Além disso, são necessários mais diálogo e respeito aos limites de cada um”, reflete. 

A gerente comercial Karina Queiroz, 43 anos, casada há 10 anos, já utilizava produtos eróticos antes da pandemia, mas o contexto propiciou novas experiências com brinquedos ainda não testados. “Passamos a usar mais e procuramos mais inovações nos brinquedos para mudar um pouco do que já temos”, conta. 

A ideia de começar a usar os produtos partiu da Karina, mas não foi difícil o parceiro topar. Para ela, o envolvimento e a diversão na hora do sexo ficaram bem melhor com os acessórios. Mas para ficar bom a dois, ela pontua ser fundamental que a mulher se sinta dona do próprio prazer. “Se você sabe o que lhe dá prazer e se conhece, dividir com ele isso só vai ajudar a esquentar mais ainda a relação”, considera.   

Legenda: Karina Queiroz: conhecer o próprio corpo e o que dá prazer apimenta a relação a dois.
Foto: Divulgação

Vencendo os tabus 

Para começar a experimentar é preciso vencer os próprios tabus. “Muitas vezes o tabu está na sua cabeça e não na sociedade", avalia Karina Queiroz. Como observa a gerente comercial, a liberdade que ela experimenta em casa não é o contexto da maioria das pessoas que conhece. O tema ainda é delicado, observa. “Eu sempre toco no assunto (com amigas) e meu esposo também fala para os amigos dele que alguns brinquedinhos são fundamentais para a relação, ainda mais quando se tem filho e cada momento tem que ser bem aproveitado. Mas muitos têm vergonha, associam com outros olhos o fato de se ter um vibrador, um massageador ou um óleo. Acham que o parceiro não vai aceitar bem. Não sabem o que estão perdendo”, opina. 

Para a psicóloga Karine Gonçalves (@kagoncalves), apesar de muitas mulheres se abrirem para o autoconhecimento do prazer sexual, os tabus ainda são frequentes. “O prazer sexual ainda é tratado como um segredo, pois a sociedade construiu a ideia de que a mulher não pode sentir prazer”, analisa a psicóloga.

Além disso, crenças como a não aceitação do próprio corpo, a submissão a regras sociais, a busca pela aprovação do outro, insegurança nas próprias opiniões e sentimentos, são exemplos que levam as mulheres a negligenciar a busca pelo próprio prazer, completa Karine Gonçalves.
 

Legenda: Karine Gonçalves: crenças como a não aceitação do próprio corpo levam à negligência do prazer feminino.
Foto: Digulgação

 Negligenciar o autoconhecimento do corpo pode privar a mulher de viver sua sexualidade de forma mais plena, como observa a orientadora sexual Viviane Quinto. “As mulheres chegam à idade adulta sem conhecer o seu próprio corpo, sem entender seu prazer e, consequentemente, sem orgasmos em suas relações sexuais. O que é um grande desperdício, tendo em vista que temos um órgão exclusivamente destinado ao prazer”, destaca.

“A única função do clitóris é nos proporcionar prazer. São 8 mil terminações nervosas à nossa disposição! Por isso, não tenha receio de se masturbar. É o seu corpo. Descubra o que te proporciona prazer e como pode alcançá-lo sozinha”, ensina. 

Prazer e autocuidado 

A profissional de educação física Natália Lima, 31 anos, ganhou o primeiro brinquedo erótico há quatro anos e hoje se considera dona do próprio prazer. “Solteira, em paz e feliz”, ela diz que que conseguiu se dar prazer, quebrando tabus e preconceitos. A evolução veio com o tempo, passando a se importar cada vez menos com a opinião dos outros e assumindo a própria autonomia na área sexual.  

Legenda: Dona do próprio prazer, Natália Lima experimenta um novo olhar sobre o corpo.
Foto: Fabiano Lima/ Divulgação

Além de experimentar uma sexualidade mais independente de parceiros, ela conta que o uso de produtos eróticos ajudou a melhorar a relação com o corpo. “O olhar no espelho muda, o humor também. A tensão e o estresse diminuíram. Tudo mudou para melhor”, afirma.  

Para a fotógrafa Alice Frota, embarcar nesse universo é um convite ao autocuidado e à imaginação. “Hoje entendo que o prazer pode ser estimulado através de todos os sentidos e que nem sempre precisamos de um parceiro para ter uma experiência prazerosa. O prazer é mais sutil do que eu imaginava, exige paciência, dedicação e curiosidade”.  

O percurso do prazer: como começar 

A auto-observação é o primeiro passo para quem busca mais autonomia no prazer. Mas como pontua a psicóloga Karine Gonçalves, é um processo que começa a partir do sentimento de amor próprio. “Quando a mulher reconhece que é fonte de amor e se alimenta desse sentimento, diz sim ao seu corpo, se abre a descoberta do próprio prazer, cuida das emoções, da mente, se dedica à alimentação adequada para o seu corpo, estimula o desenvolvimento pessoal e se nutre desse processo. Ela consegue, dia a dia, motivar-se no autocuidado, valorizar a sua autoestima e atingir o prazer feminino de uma forma fluida, respeitando a si própria”. 

Foto: Felipe Teixeira (Jamal)

Para ajudar nessa autodescoberta, a empreendedora Vanessa Pessôa, que sempre testa a maioria dos produtos, indica os estimuladores clitorianos recarregáveis, que podem ser usados estando sozinha ou com o par. Viviane Quinto sugere para as casadas começarem com lubrificantes e excitantes para depois experimentarem os vibradores. Já para as solteiras, a orientadora sexual indica vibradores mais simples e discretos até evoluírem para os mais modernos. 

Para quem vai embarcar nessa jornada com o parceiro, a fotógrafa Alice Frota recomenda ir com calma, conhecendo os limites e dialogando muito com o seu par de forma respeitosa. “O autoprazer é algo que você vai conquistando pouco a pouco. Não fique ansiosa para chegar ao clímax, o mais importante é a experiência que se tem para chegar lá. A ansiedade te tira do momento presente”, afirma. 

Começar pelo simples é a dica da educadora física Natália Lima. “Escolha um momento para você. O que você está esperando para conhecer seu corpo e poder comandar sua nave para o prazer? Respire, perceba, permita sentir seu corpo. Depois disso tudo, é só curtir e aproveitar a endorfina”.