Escalada de violência: quem são as vítimas da crise na segurança pública no Ceará

Na sexta-feira (21), foram 37 homicídios no Ceará; no sábado (22), foram 34 assassinatos. No domingo (23), 25 casos foram contabilizados. Já na última segunda (24), 23 ocorrências foram registradas.

Durante a semana em que um motim na Segurança Pública retirou uma parte dos policiais militares das ruas, o número de homicídios no Estado disparou: pelo menos 170 assassinatos foram contabilizados no Ceará desde o fim da da última terça-feira (18), data que marca o início da paralisação dos PMs. O período registrou os dois dias mais violentos em relação ao número de mortes desde o dia 1º de janeiro de 2012, ano da última greve de militares no Ceará, quando ocorreram 41 assassinatos. 
 
Quase todas as mortes foram causadas por armas de fogo. Em meio a um contexto de barbárie, que vai além dos números registrados, histórias de vidas. Das 170 ocorrências registradas, o Sistema Verdes Mares lista os cinco casos com mais detalhes e que tiveram mais repercussão nessa escalada da violência.
 

Francisco Jorge Gomes Xavier, de 39 anos, e Jorgiane dos Santos Xavier, de 1 ano e 11 meses, pai e filha 

Até o momento, a criança é a vítima mais nova dos atentados no Ceará. Nas 24h mais violentas do Ceará, entre a madrugada da sexta-feira (21) e sábado (22) um pai e uma filha de 1 ano e 11 meses foram assassinados a tiros dentro de casa, em Beberibe, no litoral do Estado. 
 
Com 29 anos, Francisco Jorge Gomes Xavier era agricultor e teria sido confundido com um homem com quem os criminosos haviam brigado horas antes. A filha dele, Jorgiane dos Santos Xavier, de 1 ano e 11 meses, dormia ao lado do pai em uma rede e também foi atingida pelos disparos. 
 
“Eu escutei um carro passar, mas não saí para olhar. Depois, eu escutei uma pancada enorme da porta sendo aberta. Aí, eu escutei o barulho de cinco tiros. Quando eu cheguei, ele estava na rede. Eu ainda chamei pelo apelido dele, ‘neguinho’, mas ele não falou nada. Depois, eu fui até a rede da minha neta e vi uma poça de sangue debaixo da rede dela. Nunca mais vou esquecer o que vi”, relatou a agricultora Liduina Xavier, que via TV, em uma residência em frente à das vítimas.  
 
Questionada, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), informou que um inquérito policial será instaurado para investigar a morte do agricultor, que não tinha antecedentes criminais e da filha. A cena é marcante para Liduína.

“Eu nunca mais vou esquecer esse momento, nem se eu saísse desse lugar. Eles estavam dormindo um do lado do outro. Eu não consigo imaginar o porquê, já que ele não tinha inimigo e não era envolvido em nada”.

Maria de Paula Moura Miguel, dona de casa, 26 anos, mãe de dois filhos 

Legenda: Uma das vítimas, Maria de Paula era conhecida como "Mamãe Chuteira".
Foto: Arquivo Pessoal

Na noite da quarta-feira (19), Maria de Paula Moura Miguel, mãe de dois atletas mirins, voltava do treino de futebol do filho mais velho, quando foi alvejada por tiros em uma tentativa de assalto no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza. 
 
Era Maria de Paula, dona de casa de 26 anos, que conduzia o veículo no momento da abordagem dos suspeitos. Além dos dois filhos, de 5 e 7 anos, e a mãe da vítima também estava no carro.  De acordo com um familiar da vítima, ouvida pelo Sistema Verdes Mares, o pai das crianças está sob efeitos de remédios e a família se encontra abalada.  
 
Segundo a SSPDS, a vítima trafegava por uma rotatória quando dois homens saíram de um matagal e, ao abordarem o veículo, dispararam contra a mulher. Após os tiros, a dona de casa acelerou o carro e colidiu com o veículo no muro de um condomínio próximo ao local. A vítima chegou ainda a ser encaminhada a uma unidade de saúde, mas morreu no hospital.

Três suspeitos foram capturados pela Polícia. Um, porém, acabou sendo morto, em confronto com os policiais. Ainda conforme a SSPDS, duas armas de fogo foram apreendidas na ação. A Polícia investiga o caso com o objetivo de identificar e capturar outras pessoas envolvidas no crime.
 

Adrine da Silva Mendes, de 17 anos, e Andreza da Silva Mendes, de 18 anos, irmãs 

As duas irmãs conversavam na calçada da residência, em Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza, na noite da sexta-feira (21), quando foram surpreendidas por uma dupla que chegou em uma motocicleta.  
 
Elas correram para dentro de casa, mas os homens desceram da moto e as perseguiram. Já no quintal da casa, elas foram atingidas por tiros e morreram no local. 
 
O Sistema Verdes Mares procurou o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e foi informado que o crime está sendo investigado na tentativa de identificar e prender os suspeitos e descobrir a motivação.

Francisco Anderson Rodrigues, 23 anos, operador de serviços gerais  

Na tarde do último sábado, por volta das 13h30, o auxiliar de serviços gerais Francisco Anderson Rodrigues foi abordado por três homens encapuzados. Os suspeitos desceram de um carro e efetuaram vários tiros de pistola contra a vítima, em um bairro da periferia de Fortaleza. 
 
As cápsulas dos projéteis foram retiradas da cena do crime, segundo testemunhas. Francisco não tinha antecedentes criminais e, de acordo a família, não era envolvido com crimes. 

Tarcísio Nascimento da Silva, de 20 anos 

Enquanto caminhava com a namorada nas ruas do bairro Parque Araxá, na periferia de Fortaleza, Tarcísio Nascimento da Silva foi abordado por criminosos armados. Ele tentou fugir, subindo no telhado de uma casa, mas os homens o perseguiram e atiraram nele. O jovem foi atingido e caiu no quintal da casa. 
 
Segundo o relato do pai da vítima, o jovem não tinha passagem pela Polícia, mas era usuário de drogas. 

Outras vítimas 

Além da bebê Jorgiane, outra criança foi morta durante o período. O adolescente Francisco Kauã Anchieta Tavares tinha 14 anos quando foi morto na última quinta-feira (19). Não há detalhes sobre a morte. 
 
A vítima mais velha foi Francisco Félix da Silva, de 59 anos, morto a tiros na zona rural de Assaré, no interior do Ceará.  Segundo testemunhas, um homem chegou a pé ao bar que funcionava no primeiro cômodo da casa da vítima e efetuou os disparos, sem qualquer discussão.
 

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