Aplicativo facilita acesso a culturas afroindígenas para pessoas com deficiência visual

Autodescritivo, o Memórias de Abayomi realiza uma espécie de exposição virtual acessível de instrumentos musicais

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Legenda: Cultura afroindígena mais acessível a pessoas com deficiência visual a partir de aplicativo

Berimbau, pandeiro, atabaque, djembe, abê, agogô, reco-reco e caxixi. Como forma de exposição virtual, estes oito instrumentos compõe o aplicativo Memórias de Abayomi, lançado ontem (07), o primeiro de difusão da cultura afroindígena, voltado exclusicamente para o público com deficiência visual. A ferramenta inédita foi produzida pelo Centro Mandinga da Ribeira, grupo cultural do município de Groaíras, na região Norte do Estado.

Este é um dos dois produtos culturais do projeto Mandinga na Ribeira Memórias de Abayomi, que além do aplicativo, criou um espetáculo de contação de histórias africanas em formado digital, ambos com foco na acessibilidade cultural. O trabalho conta com apoio da Secretaria de Cultura do Estado, da Secretaria Especial de Cultura, que faz parte do Ministério do Turismo, e da Lei Aldir Blanc.

Nele, o usuário tem acesso, de forma autodescritiva, aos recursos do aplicativo, que oferece uma lista de instrumentos. A partir da escolha de um deles, é acionada uma descrição detalhada e um exemplo do seu som. O aplicativo funciona por comando de voz, de forma instrutiva, proporcionando a autonomia para pessoas cegas e de baixa visão. 

Adaptação

De acordo com o coordenador do Centro Mandinga na Ribeira, Jones Cruz, popularmente conhecido como Pretinho Jones, a ideia do aplicativo é difundir e democratizar as linguagens da cultura afroindígena para um público com deficiência visual que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somam 29 milhões de brasileiros. 

“A ideia também surge a partir da necessidade do nosso coletivo de se readequar frente a esse momento de pandemia, de distanciamento social. Uma das ações pensadas era uma exposição destes instrumentos de forma presencial e, desde o princípio, desejamos atender o público com deficiência visual”, ressalta.  

O desenvolvimento do aplicativo se deu nos últimos meses de fevereiro e março e consistiu na realização de oficinas-montagem artísticos culturais, realizadas através da plataforma Streamyard. Nela, houve também a gravação de um espetáculo, narrando a história do surgimento da boneca Abayomi. O trabalho foi veiculado, em vídeo, nas plataformas virtuais.

O aplicativo foi desenvolvido em parceria do Instituto dos Cegos de Sobral e unidades da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de municípios da região. “Ele traz, justamente, essa exposição como forma de acesso às pessoas com deficiência. Todos eles fazem parte do acervo do Centro da Ribeira”, descreve Jones. 

Barreiras

Durante o processo de desenvolvimento e pesquisa, se descobriu que se trata do primeiro aplicativo voltado para esse público. Isso animou o trabalho: “Ainda existe uma barreira em relação a estes aspectos da cultura afroindígena. O objetivo é difundir”, completa.

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Legenda: Aplicativo apresenta descrições e sons característicos de instrumentos musicais
Foto: Reprodução

Com 23 anos de trabalho voltado à difusão da cultura na região Norte, o Centro Mandinga da Ribeira, fincado na periferia de Groaíras, trabalha com três eixos. O primeiro, o simbólico, aberta à cultura afrobrasileira como patrimônio imaterial brasileiro. Já o segundo, se trata da cidadania. “O direito e acesso à cultura, historicamente são negados. Por isso, promovemos esse acesso de forma educativa, que possa ser transformador”, destaca Jones.  

Por último, o eixo econômico é trabalhado na geração de empregos de forma direta e indireta para a comunidade. O aplicativo é um exemplo: “Promove renda para os profissionais que desenvolveram, seja da tecnologia ou de outras áreas. Aqui, contempla o comércio local e da região”, acredita o coordenador do Centro.  

Com a pandemia, mesmo com mais de duas décadas de trabalho, os agitadores culturais foram obrigados a repensar suas ações. “Enquanto coletivo de cultura, conseguimos, no contexto da pandemia, unir elementos da cultura popular, de matriz afroindígenas, com as novas tecnologias. O aplicativo é um símbolo dessas nossas práticas. Esse é o desafio”.

Acesso

O aplicativo está disponível, desde ontem (07), na Play Store da Google Play. Outros trabalhos do Centro Mandinga na Ribeira podem ser acessados em sua página no Instagram.

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