A importância do Geopark para o Cariri

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Foto: Antônio Vicelmo

A rede mundial de Geoparks é um programa recente estabelecido sob os auspícios da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a partir de 2004. Trata da proteção de territórios de excepcional significado geológico e paleontológico, com vistas à promoção da educação e da pesquisa, mas, sobretudo, do estímulo ao desenvolvimento local sustentável dos territórios partícipes, por meio de ações como o turismo científico qualificado.

A implantação do Geopark Araripe constitui-se um marco na busca do desenvolvimento auto-sustentável da Região do Cariri. Para a criação do Geopark caririense partiu-se da constatação de que a Bacia Sedimentar do Araripe é detentora do maior depósito paleontológico da era cretácea do mundo, somando-se ainda um apreciável conjunto de outras características geofísicas e humanas.

Interessante esclarecer que essa denominação, Bacia Sedimentar do Araripe, refere-se também à gênese deste território, relacionada aos eventos de ruptura do continente ancestral Gondwana1, dando origem aos continentes Americano e Africano e ao Oceano Atlântico Sul. A Bacia do Araripe guarda as “cicatrizes” desse megaevento e também registros fossilizados da vida pretérita que remontam a mais de 100 milhões de anos, sendo, portanto, uma referência imprescindível à compreensão da evolução da terra e da vida.

O Geopark Araripe não se propõe unicamente a preservar o patrimônio paleontológico do Araripe, seja evitando a exploração clandestina das jazidas fossilíferas, seja auxiliando na regulação do uso educativo e científico dos fósseis do Cariri. Vai mais além. Entre os objetivos do Geopark caririense inclui-se o reforço à preservação de um precioso e particular bioma, a Floresta Nacional do Araripe, primeira unidade de conservação da natureza criada no Brasil, há 60 anos. Fica ali a mais rica reserva da biodiversidade do semi-árido nordestino.

Outro desafio é auxiliar a manutenção e interpretação do patrimônio histórico e das tradições populares do Cariri, região considerada das mais ricas do Brasil, no que concerne à cultura popular. O Cariri constitui-se num território privilegiado, dotado de extraordinários recursos da natureza e habitado por uma população valorosa, empreendedora e criativa, responsável pela construção do rico e diversificado patrimônio cultural - material e imaterial -aqui localizado, tendo como figura central Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, causa e reflexo desses processos.

A criação de um conjunto de Unidades de Conservação da Natureza distribuídas por todo o território caririense, que compõe o Geopark Araripe, cada qual correspondendo a um nível estratigráfico da Bacia do Araripe, ou a um período diferente da história da terra, consolida esta iniciativa. Este é um conceito extremamente original, e que foi reconhecido pela Unesco, por meio de sua divisão de Ciências da Terra e Meio Ambiente, em tempo célere, durante a 2ª Conferência Internacional da Unesco sobre Geoparks, realizada no último mês de setembro em Belfast, Irlanda do Norte.

Trata-se do primeiro território do Ceará a alcançar um status de reconhecimento e proteção da Unesco e o primeiro geopark do gênero no hemisfério sul e continente americano.

Agora é bastante importante que a sociedade civil, as instituições, empresas e os poderes públicos tenham consciência do grande marco alcançado e do que isto representa ao desenvolvimento de nosso Estado e a promoção da educação geral e da ciência, auxiliando-nos na consolidação e potencialização desta iniciativa pioneira e preciosa.

André Herzog (*)
especial para o Diário do Nordeste
(*) Reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca)