Rodrigo Maia é reeleito na Câmara; imbróglio adia eleição no Senado

Enquanto o presidente da Câmara dos Deputados confirmou favoritismo e venceu a eleição com certa tranquilidade, senadores protagonizaram mais de cinco horas de discussões e a sessão, suspensa, só será retomada neste sábado (2)

O primeiro dia de trabalhos no Congresso Nacional, após a posse de deputados federais e senadores, foi intenso e mostrou como pode ser o clima de discussões em Brasília nos próximos quatro anos. Se por um lado a Câmara dos Deputados reelegeu Rodrigo Maia (DEM-RJ) para presidir a Casa pelos próximos dois anos com certa tranquilidade, o Senado encerrou o dia em um impasse. Com a presidência interina do Senado, representada por Davi Alcolumbre (DEM-AP) em suspeição, parlamentares também divergiram com a polêmica que envolveu o voto aberto e, após mais de cinco horas, a sessão foi suspensa e deve continuar hoje.

A solução temporária ocorreu após intervenção de Cid Gomes (PDT) por volta das 22h15 de ontem, horário de Brasília. Com cinco horas de indefinição, o ex-governador sugeriu que houvesse a suspensão dos trabalhos e a retomada hoje com a presidência representada pelo senador José Maranhão (MDB-PB) - o mais velho da Casa.

"Presidente, é claramente visível que hoje não há clima mais para que a gente possa dar sequência. Eu pondero à Vossa Excelência que coloque em votação uma proposta de suspensão da sessão seguida de um compromisso que a próxima sessão seja presidida pelo mais antigo", disse o cearense. A decisão monocrática de Alcolumbre postergou a eleição da Mesa de ontem para as 11 horas de hoje, horário de Brasília.

Davi Alcolumbre, o nome defendido pelo ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), presidiu a sessão por ser o único remanescente da antiga Mesa Diretora que manteve o mandato. Sem se declarar oficialmente como candidato, ele patrocinou então uma manobra, contrária ao regimento do Senado, colocando em votação a proposta de votação aberta - aprovada por 50 votos a 2.

Renan Calheiros (MDB-AL) - que é alvo da Lava-Jato e tem pouquíssimas chances em uma votação aberta - e aliados protestaram e acabaram inviabilizado a sessão. A senadora Kátia Abreu (PDT-TO) chegou a subir à Mesa Diretora e tomar de Alcolumbre a pasta dos trabalhos.

Além de Cid, os outros dois senadores cearenses se mantiveram entre os personagens do enredo cujo fim foi adiado. Eduardo Girão (PROS) coletou assinaturas e mostrou que a questão do voto aberto era possível, como se mostrou na votação em plenário. Antes da sessão, Tasso Jereissati (PSDB) se retirou da disputa e sinalizou que haveria um "espetáculo deprimente". Ele ainda protagonizou áspera discussão com Renan Calheiros.

Outro clima

Na Casa vizinha, Rodrigo Maia foi reconduzido à presidência com 334 votos. O parlamentar carioca, eleito pela primeira vez após a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), vai comandar a Câmara pelos próximos dois anos.

Legenda: Rodrigo Maria comemora a eleição com aliados na Câmara: ele teve 334 votos, dentre 513 possíveis
Foto: Foto: Agência Câmara

Para conseguir se eleger pela terceira vez consecutiva, fato inédito na Câmara, Maia contou com o apoio de partidos de todos os lados do espectro político. Fazem parte do bloco centrado em torno do presidente da Casa legendas do Centrão como PP, PR, PRB, Solidariedade e Podemos, bem como o PSL, do presidente Jair Bolsonaro, e siglas da centro-esquerda, como PDT.

Com o voto secreto, é impossível determinar quais votos vieram de partidos da base do atual presidente e quais partiram de dissidências como de alas do PT e do PSB que, reservadamente, admitiam votar em Maia.

"A Câmara precisa de modernização na nossa relação com a sociedade, simplificar leis e comandar reformas de forma pactuada com prefeitos e governadores", defendeu o reeleito, em discurso. Ele reforçou que quer dialogar com esquerda e direita e representar "todos os 513 deputados que tomaram posse hoje".

Em Brasília para acompanhar a posse de Cid Gomes, o governador Camilo Santana (PT) fez uma pausa na agenda para "dar um abraço" em Rodrigo Maia. Ele disse que o presidente reeleito "tem sido muito plural" e defendeu prioridade a pautas no Congresso. "Precisamos rever o Código Penal, que está ultrapassado. A lei antiterrorismo que também precisa de reforma", mencionou. "Isso precisa ser tocado agora".

Agora, caberá a Rodrigo Maia tocar a agenda econômica do governo de Jair Bolsonaro, à qual já se declarou favorável. A reforma da Previdência, por exemplo, deve ser enviada ao Congresso ainda em fevereiro e terá de ser aprovada na Câmara antes de seguir para o Senado, tarefa que não foi possível no governo de Michel Temer (MDB). Para Maia, o debate sobre Previdência na Câmara levará, "no mínimo", dois meses.

Empossados, deputados cearenses destacaram prioridades. Domingos Neto (PSD), cotado para coordenar a bancada cearense, deve ter papel importante na discussão do Orçamento da União. "Vamos estar lutando para garantir os recursos que o Ceará precisa, nas mais diversas áreas".

Recursos

O líder do PDT na Câmara, deputado André Figueiredo, destacou a necessidade de buscar recursos federais para o governo estadual dar continuidade às obras estruturantes e projetos sociais. "Somos representantes do povo cearense e temos a obrigação de buscar recursos, cada um dentro do seu partido. O PDT do Ceará elegeu seis deputados federais e temos a compreensão da necessidade de ajudar o governador Camilo Santana a conseguir recursos".

O deputado Heitor Freire, do partido de Jair Bolsonaro, disse que será um interlocutor do novo governo no Parlamento. "Eu estarei defendendo as causas da direita, dos conservadores. Fui eleito defendendo as bandeiras pelos movimentos de direita do Ceará e estarei aqui defendendo a família, a inocência de nossas crianças", disse.

Eleito com a pauta de defesa dos animais, Célio Studart (PV) quer ampliar a atuação na Câmara na defesa de projetos relacionados à questão ambiental. Ele afirmou que reivindicará um assento na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Casa. "Temos muitas questões relacionadas ao meio ambiente, no Ceará e em todo o Brasil, que precisam ser discutidas e defendidas", sustentou.