Qual deputado tem força política na sua cidade? Retorno a redutos eleitorais é estratégia para 2022

Períodos de recesso das atividades parlamentares no plenário da Assembleia Legislativa costumam intensificar a presença de deputados nas bases eleitorais; levantamento mostra distribuição de influências no Ceará

Escrito por Felipe Azevedo, felipe.azevedo@svm.com.br

Política
Plenário da Assembleia Legislativa do Ceará
Legenda: Número de parlamentares eleito por cada região não deve servir como um indicativo de maior ou menos representatividade qualitativa desses deputados e deputadas.
Foto: José Leomar

Uma vez encerradas as eleições que firmaram os novos prefeitos dos 184 municípios cearenses, os deputados estaduais começam a estabelecer um movimento de “volta às bases”, uma estratégia de reaproximação das lideranças políticas e reforço da base eleitoral. Mirando o pleito de 2022, eles contam com a representatividade de suas regiões para garantir mais quatro anos de mandato. 

O Sistema Verdes Mares fez um levantamento para traçar qual o perfil regional dos parlamentares na Assembleia Legislativa. A distribuição da representatividade dá um indicativo de quantos deputados foram eleitos de acordo com suas bases eleitorais e regiões de origem. A influência parlamentar nas diferentes regiões importa, ainda que o mapa dos redutos políticos revele regiões ainda subrepresentadas numericamente no Ceará.

Cientistas políticos apontam, no entanto, que questões ideológicas e programáticas também são cruciais, em alguns casos, para estabelecer uma votação expressiva. Esse cenário é mais comum na Capital e na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

De olho na base 

No último dia 25 de janeiro, dez prefeitos da região do Cariri se reuniram em uma das salas da Prefeitura de Crato. Eles estavam ali para discutir, sob a liderança do presidente interino da Assembleia Legislativa do Estado, Fernando Santana (PT), a destinação do lixo na região a aterros, sob a forma de um consórcio.

Ocorria no mesmo encontro, em paralelo, uma articulação política visando a preparação das bases eleitores, de olho nas eleições de 2022. É o que especialistas chamam de “mapeamento de lideranças”, quando deputados se concentram no seu eleitorado mais fiel e traçam estratégias já com foco no próximo pleito.

Na representatividade regional dos parlamentares, o histórico conta. É o que frisa o cientista político Raulino Chaves Pessoa Júnior, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Assim como no Cariri, parlamentares buscam manter ativa a representação em suas respectivas bases, o que passa pela relação com prefeitos e vereadores eleitos no pleito municipal. 

Quais deputados representam a sua região? 

Um alerta feito por especialistas é que a representação numérica não está ligada, necessariamente, à capilaridade de um determinado grupo político. É o caso do Sertão dos Inhamuns, que apesar de ser reduto do ex-vice-governador Domingos Filho (PSD) - articulador político de um dos partidos que mais conquistaram prefeituras em 2020, elegeu como representante na Assembleia apenas dois deputados em 2018.

Uma delas é a ex-deputada Patrícia Aguiar (PSD), esposa de Domingos. Ela renunciou ao cargo recentemente para reassumir a Prefeitura de Tauá, nos Inhamuns. O filho do casal é o deputado federal Domingos Neto (PSD), que já foi Relator do Orçamento do Governo Federal.

O caso do Cariri 

A região Sul do Estado, com 29 municípios, tem agora - após a efetivação de suplentes que assumiram vagas de deputados eleitos prefeitos – quatro deputados estaduais com representatividade na Assembleia. Além do presidente interino do Legislativo, formam o grupo Nelinho Freitas (PSDB), Davi de Raimundão (MDB) e Guilherme Landim (PDT). Todos eles têm algo em comum: a tradição familiar na política. 

Guilherme é filho do ex-deputado e presidente do Legislativo Estadual, Wellington Landim, morto em 2015. Davi também segue os passos do pai, o ex-deputado e ex-prefeito de Juazeiro, Raimundo Macêdo. A herança política de Nelinho vem igualmente do pai, o ex-prefeito de Russas, Raimundo Cordeiro.

Ter quatro representantes do Cariri na Assembleia Legislativa foi um cenário que havia ocorrido há 19 anos, quando Ana Paula Cruz, Vasques Landim, Iris Tavares e Raimundo Macedo foram eleitos deputados em 2002. É justamente a herança de suas bases que esses deputados usam como uma das estratégias para captar o eleitorado.

Distritos informais

“Do ponto de vista formal, eles podem ser votados nos 184 municípios do Estado, mas existe uma categoria chamada ‘distritos informais’ - municípios nos quais deputados concentram mais esforços; os municípios-alvo”, explica Cleyton Monte, cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará. 

É o caso, por exemplo, do deputado estadual Romeu Aldigueri (PDT), cujo berço político se concentra na Região Norte, mais especificamente no município de Granja. Na disputa de 2018, cerca de 54% dos eleitores granjenses votaram nele. Foram 16.126 votos, mais do dobro do segundo colocado, o deputado Sérgio Aguiar (PDT), que contabilizou 7.636. A dobradinha entre eles, ambos fortes na região, se repetiu em Camocim, cidade vizinha a Granja. Lá, Sérgio Aguiar somou 17.268 votos, 51,03% do eleitorado; enquanto Aldigueri obteve 10.429.

É importante ressaltar que o número de parlamentares eleito por cada região também não deve, na prática, servir como um indicativo de maior ou menos representatividade qualitativa desses deputados e deputadas.

Fortaleza

Na Capital, a lógica de reduto político assume outras complexidades. “É difícil pensar Fortaleza como uma base eleitoral. É um colégio gigante e envolve conteúdos muito mais programáticos”, observa a professora de Teoria Política da Uece, Monalisa Torres. Para ela, é preciso cuidado ao analisar a representação política focalizada em distritos.

Ela lembra do caso do deputado André Fernandes (Republicanos), que obteve votação recorde nas eleições de 2018. Foram 54.943 votos somente em Fortaleza, angariando 4,46% dos eleitores da Capital. O segundo município com maior votação, para ele, foi Maracanaú, com 4.640 votos (4,11%) e Juazeiro - distantes cerca de 500 km -, com 2.568 votos (2,10%).

“É a votação distrital informal: alguns deputados são votados em áreas específicas, mas isso não é uma regra eleitoral, acontece na prática sem ser uma regra eleitoral”, complementa a especialista. 

Mapa dos deputados 

De acordo com os berços políticos expostos nos perfis dos deputados registrados no site da Assembleia Legislativa, Fortaleza e Região Metropolitana (19 cidades) concentram 52% da representatividade, com 29 dos 46 parlamentares.

O segundo maior grupo representativo é da região Centro Sul, que tem 13 municípios e conta com cinco parlamentares na atual legislatura. Seguido das regiões do Cariri (29 municípios) e Litoral Norte (13 cidades) com quatro deputa os cada uma.

Na região do Sertão de Sobral, que agrupa 18 cidades, são três representantes. No Sertão Central (13 municípios), são dois deputados, e no Sertão de Crateús (13), Litoral Leste (6) e Vale do Jaguaribe (15) há, para cada região, um deputado na Casa.

As informações levam em conta os deputados eleitos para a legislatura 2019 - 2022 e os suplentes que assumiram efetivamente o mandato no decorrer dos últimos anos. A relação com os redutos eleitorais, considera Cleyton Monte, está presente na atuação dos parlamentares. “É lícito que os deputados atendam às demandas dos prefeitos e líderes comunitários, visando manter o capital eleitoral”, ressalta o pesquisador. 

“Às vezes, a gente não tem dimensão do impacto que é um poço artesanal, por exemplo. É impactante para o interior, para uma comunidade sem abastecimento. Esse é o trabalho do parlamentar: viabilizar obras, estar presente, aparecer junto com as lideranças: é o trabalho do deputado de base”, completa.