Bancada cearense cobra ao novo presidente da Câmara prioridade em debates sobre auxílio emergencial

Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara dos Deputados em meio à forte articulação de deputados e Governo Federal

Arthur Lira comemora vitória na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados
Legenda: Arthur Lira comemora vitória na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados
Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados

Em meio à turbulenta eleição da nova Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, os parlamentares da bancada cearense já definem prioridades a serem discutidas em Brasília. Entre aliados e opositores do novo presidente, Arthur Lira (PP), é unânime a avaliação de que ele terá de pautar a prorrogação do auxílio emergencial e pressionar o Governo Federal por mais vacinas. No núcleo oposicionista, há dúvidas sobre a autonomia do recém-eleito presidente.

Para o deputado federal Pedro Bezerra (PTB), aliado de Lira na disputa, a vitória do novo presidente da Câmara não deve ser atrelada diretamente ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

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“É mérito dele e dos apoios que conseguiu juntar. Muitos, inclusive, me questionam por ser aliado do (governador) Camilo Santana e do (senador) Cid Gomes e ter votado em um candidato do Governo. Minha obrigação em Brasília é conseguir recursos para o Estado. Essa interlocução é fundamental”, defendeu. 

Segundo o parlamentar, o Centrão, grupo a que pertence Lira, cria possibilidades de diálogo “fundamentais para o País sair da crise”, segundo ele. A interlocução que terá com a presidência da Câmara, de acordo com o deputado, servirá também para cobrar medidas contra a pandemia.

“Garantir uma quantidade maior de vacinas no menor tempo possível e, aliado a isso, estender o auxílio emergencial pelo menos até junho, porque se mostrou fundamental, como eram os programas de transferência de renda”, disse. 

Também aliado de Lira, Capitão Wagner (Pros) avalia que o apoio que concedeu ao então candidato à presidência da Câmara trará benefícios além do acesso à Mesa Diretora.

“Vamos participar de relatorias importantes, e a vitória dele facilita a harmonia entre o Legislativo e o Executivo para que possamos buscar melhorias para nosso Ceará, que tanto precisa do Governo Federal”, disse. 

Ações voltadas à pandemia

De oposição a Lira, o deputado federal José Airton Cirilo (PT) disse ser “imprescindível”, tanto a nível regional quanto nacional, discutir a crise sanitária e econômica no Brasil. “Precisamos exigir que o Executivo e nós, do parlamento, possamos prorrogar o auxílio, é uma questão humanitária, de sobrevivência das pessoas que estão passando privações”, defendeu.

“Temos que exigir também a questão de medidas, para enfrentar a pandemia, do governo federal, a vacinação”, ressaltou. 

“A agenda principal do País é se reencontrar administrativamente, resolver a questão da vacina. Acho que o Lira foi muito feliz em citar em seu discurso essas questões. E, na economia, a volta do auxílio emergencial ou o fortalecimento de um programa de distribuição de renda”, disse Danilo Forte (PSDB), que não revelou o voto na Câmara. 

Heitor Freire (PSL) defendeu debates semelhantes. “Espero que o Lira faça um bom mandato, pautando projetos para vencer a pandemia e recuperar nossa economia”, disse. Ele ainda destacou a urgência de se discutir as reformas.

“Aprovamos em 2019 a Nova Previdência, mas em 2020, por conta da pandemia, não tivemos como priorizar as reformas tributária e administrativa”, ressaltou o cearense, que votou Marcel van Hattem (Novo). 

Assim como os aliados de de Lira, Freire também atribuiu à vitória do candidato do PP à articulação do parlamentar, mesmo reconhecendo o apoio do Executivo. 

Relação com o Governo Federal

O novo presidente da Câmara recebeu apoio massivo do Palácio do Planalto, que ofereceu cargos e influências na destinação de recursos para garantir os votos necessários ao então candidato. Lira nega que, sob sua gestão, o Executivo terá controle sobre o Legislativo. Além de mais autonomia aos deputados, ele promete diálogo aberto com o Governo Federal.

“Tenho certeza que esta Casa encontrará pontos mínimos comuns para, juntamente com os demais poderes, ajudar o povo brasileiro a enfrentar os traumas e as dores da pandemia”, disse em seu pronunciamento de abertura. 

Aliado de primeira ordem de Lira no pleito interno da Câmara, Domingos Neto (PSD) saiu em defesa do deputado logo após o resultado ser proclamado. “Não será jamais um presidente que comprometeria a independência do parlamento”, disse.

“Quem viu a fala dele, quem conhece o Lira sabe que ele também não será jamais um presidente que comprometeria a independência do parlamento“, acrescentou.

Mesmo integrando bloco de oposição ao presidente da Câmara, integrantes da bancada pedetista se mostraram cautelosos nas críticas. O deputado federal Idilvan Alencar (PDT) argumenta que a vitória de Lira não significa uma Câmara subserviente ao Planalto em todas as pautas. “A eleição do Lira não significa que a oposição não vai estar vigilante, cobrando. O processo vai estar só começando”, diz.

“Qualquer dos dois que sejam eleitos tenho certeza que teremos condições de fazer com que possam preservar a independência do Legislativo”, declarou, pouco antes da votação, o deputado André Figueiredo (PDT).

Autonomia

Para o cientista político Cleyton Monte, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC), a vitória de Arthur Lira na disputa pela presidência  pode ser firmar como uma articulação encabeçada por ele junto ao grupo chamado de Centrão.

“Ele pode ter uma certa autonomia justamente porque esse grupo, historicamente, não tem fidelidades. Pode haver a garantia de emendas e recursos, mas é uma relação que precisa ser construída. O próprio Lira atribui sua vitória à coalizão do Centrão”, destacou o pesquisador. 

Monte, contudo, pondera que a tendência é que a relação entre o Legislativo e o Executivo seja menos tensionada agora do que na gestão de Rodrigo Maia (DEM). “Ele não será opositor como o Maia, do tipo que bate de frente, não sei se por não ter a mesma força ou por não ter nem interesse, mas essa relação dele com o presidente não será de subordinação. É moeda de troca”, concluiu.

 

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