O novo normal e a Saúde Integral

O "novo normal" refere-se às atitudes consideradas necessárias para se proteger do inimigo do momento, como uso de máscaras, desinfecção constante e contato humano o mais reduzido possível. Se cumprimentar com o olhar, já que nem sorrir adianta mais, pois as máscaras escondem.

Estudiosos da etologia mostram que ser mamífero assinala a necessidade de aprender a vinculação. No reino hominal, essa vinculação tem que ser tão forte que, em geral, o útero abriga só um filhote, o mais dependente de todos, se comparado aos outros mamíferos. Quanto mais dependente sou, mais vínculo preciso desenvolver. E a ocitocina, o tal hormônio do amor, tem suas benesses à saúde bem estabelecidas pelas neurociências: controle do estresse, melhora do sono, controle de ansiedade e depressão. A ocitocina é liberada a partir do contato humano amoroso e da empatia.

A Covid-19 instalou-se no mundo para materializar o que já se configurava de forma sutil: o isolamento social. Em muitos encontros sociais as pessoas estavam juntas, mas separadas por atrativos virtuais. Professores reclamavam que alunos não se faziam "presentes" nas aulas, casais saíam para jantar e o olho no olho virava olho na tela. Os vizinhos não se conheciam mais. Os pais, terceirizando a educação das crianças. Assim, justamente o que é premente na espécie humana vinha se fragilizando: o contato pele a pele e a vinculação.

Nestes tempos, as pessoas se isolaram fisicamente e as conexões virtuais se tornaram ainda mais evidentes. Estão falando que o novo normal vai continuar. Parece que temer os semelhantes, pois o inimigo nos espreita, será oficialmente válido: a reificação do individualismo. A coletividade segue cega, enxergando a doença e esperando a solução mágica que vem de fora.

Eu sigo com esperança de que percebam que toda doença traz uma oportunidade de aprender e transformar, não o que está fora, mas o que desequilibrou dentro de nós. A imunidade - pasmem! -, melhora quando amamos e nos vinculamos.

Sigo desejando que o novo normal seja mais contato humano e mais redes de proteção por vínculos. Sigo lutando para que o paradigma da doença deixe de ser normal, e que o novo normal seja o da saúde, já anunciado há mais de um século por Claude Bernard: "O micróbio não é nada; o terreno é tudo".

Ligia Erbereli

Fisioterapeuta e Educadora Popular


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