A Fortaleza solidária

Dia 18 de março, Fortaleza parou. A miséria dos invisíveis apareceu como ferida exposta, como grito no silêncio nas ruas vazias. Gerou-se um incômodo; um desassossego. É a dor da empatia; o sentir da compaixão. No outro dia, alguns deslocamentos de corpos quebraram o isolamento social, paramentados para manter as medidas de prevenção. Acudiram os que estavam com fome e sede.

Não se sabe ao certo quem começou e de onde partiram. 

Dias depois, ações vindas de vários lugares formaram um emaranhado de pontos na trama do tecido urbano. Movimentos espontâneos de indivíduos, coletivos, organizações religiosas, empresas. É assim que se forma uma rede: Conexões entre pessoas, nós, ajuntamentos que se interligam formando uma teia.

 A rede de solidariedade que se formou em Fortaleza para reduzir as consequências do isolamento social, necessário ao enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, é movida pela benevolência. O bem que faz aquecer os corações como um torvelinho, um alento diante da dor e do desespero. 

Ouvem-se as orações diárias ao cair da tarde. Vê-se o ziguezague das caravanas distribuindo alimentos e água nas ruas e nas comunidades pobres. Ser solidário é pertencer a um conjunto in solido, um corpo sólido em que todos se sustentam. Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, nos diz que é a teleia philia, a verdadeira amizade, o bem desinteressado, que concretiza a cidadania. 

Para ser solidário é preciso se saber interdependente, parte de um todo.

É a experiência do coletivo que pode vencer o individualismo da metrópole. A amorosidade fraterna, capaz de gerar uma força política transformadora da realidade, abrindo espaço para a solidariedade duradoura. Já não seremos mais os mesmos depois que a pandemia passar por nossa cidade. Teremos aprendido mais sobre como fazer pontes e seguir os pontos de luz que iluminam as noites escuras.

Lidia Valesca Pimentel
Doutora em Sociologia e ativista do Grupo Espírita Casa da Sopa e da Rede Rua