A busca da Unidade para além das diferenças
“Eu sou uma pessoa que tem, como filosofia de vida, beneficiar a si próprio, ao outro e ao mundo em geral, na medida das minhas possibilidades. Sempre procuro me aproximar da ideia da bondade para cada vez mais entendê-la e aplicá-la inteligentemente. Considero a vida como uma oportunidade extraordinária, e não só os chamados ‘grandes momentos’, mas o cotidiano, essas belezas espalhadas pelo nosso dia desde que abrimos os olhos e percebemos o sol entrando pelo canto da janela. Gosto de estar consciente de cada momento, inteira em cada coisa que eu faço.
E também adoro imaginar que, um dia, os lugares por onde eu passar, sejam eles quais forem, ficarão um pouquinho melhores porque eu passei por ali; para isso, procuro dar o meu melhor em cada coisa que faço, desde a louça bem lavada, a cama bem arrumada até um relatório bem-feito. Percebo que embelezo o mundo e vou crescendo cada vez que faço isso.”
Não é difícil deduzirmos que o texto acima, se escrito com sinceridade, dá a entender que se trata de uma pessoa boa, com bom caráter, profundidade, fraternidade... Mas agora me responda: qual é a cor de pele desta pessoa? sua religião? sua orientação sexual? sua idade? seu peso corporal? Que curioso, não é? Nenhum destes elementos pode ser deduzido do texto e nem são fundamentais, por não informarem nada que possa contaminar ou promover a qualificação desta pessoa. Cá entre nós, sejam quais forem as respostas a estas perguntas, essa é uma pessoa que eu gostaria que fizesse parte da minha vida.
Imagine alguém que julga seus presentes recebidos apenas pelos pacotes; e se eles estiverem todos vazios? Definitivamente, é de vazio que padecemos; um vazio existencial que se manifesta em todas as formas de fugas e alienações. E o tempo se vai e a vida chega ao seu termo, quando todas as embalagens serão tomadas de nós, e seremos, finalmente, obrigados a olhar para dentro e valorizar o conteúdo reunido, talvez já tarde demais.
Aceitar a diversidade como algo que colore o mundo e o embeleza, mas nos voltarmos para o que realmente interessa, que nos une, é algo para ser feito agora, não podemos adiar, e toda a humanidade desperta é chamada a se comprometer com isso.
Lúcia Helena Galvão é filósofa, escritora, palestrante e voluntária há 35 anos da Organização Internacional Nova Acrópole do Brasil.