O que falta para o Ceará receber R$ 74 bilhões e 27 mil empregos do Hidrogênio Verde?

Ao todo, o Brasil possui 13 iniciativas avançadas para a produção de H2V.

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
Espaço delimitado por cerca com gerador movido a hidrôgênio verde (H2V).
Legenda: Setor aponta que o maior entrave físico para que os projetos de H2V saiam do papel é o acesso à rede elétrica.
Foto: Kid Junior.

Com investimentos de R$ 74,4 bilhões previstos para o Complexo do Pecém (CIPP), a promessa do Hidrogênio Verde (H2V) no Ceará engloba a geração de 27 mil empregos durante a construção das plantas.

O Estado concentra hoje mais da metade dos projetos mais avançados do País. Contudo, a concretização desses números depende de uma corrida contra o tempo em Brasília e de obras de infraestrutura previstas apenas para 2029.

Esses planos constam na Agenda Estratégica 2026, lançada recentemente pela Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV) com participação da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

O estudo revela, contudo, que a distância entre os memorandos de entendimento e o início das obras ainda é longa. O caminho atual é pavimentado por gargalos regulatórios, tributários e elétricos.

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Ao todo, o Brasil possui 13 iniciativas avançadas para a produção de H2V. Dessas, 11 estão no Nordeste e seis estão localizadas no Ceará. O impacto desses projetos no PIB brasileiro é estimado em R$ 120 bilhões, apresentando um efeito multiplicador de 1,8x para cada real investido.

Decisão final de investimento 

No entanto, para que essa cifras se concretizem no Estado, as empresas precisam tomar a Decisão Final de Investimento (FID), marco crucial que sinaliza a transição do planejamento para a implementação efetiva.

Joaquim Rolim, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Fiec, participou do evento de lançamento da agenda e acrescenta que o H2V é uma nova fronteira energética essencial diante dos riscos globais nas cadeias de suprimento, principalmente devido aos conflitos no Golfo Pérsico.

Ainda na cerimônia realizada em Brasília, a diretora-executiva da ABIHV, Fernanda Delgado, afirmou que nos últimos dois anos, ocorreram avanços consistentes na construção de um ambiente institucional favorável, com um marco legal que oferece segurança jurídica e previsibilidade para estruturar essa nova cadeia produtiva.

"Embora já observemos a formação de hubs estratégicos em regiões portuárias com vocação exportadora, como o Ceará, o desafio agora é transformar esse potencial em contratos e os projetos em escala real", avaliou.

"Para isso, precisamos superar gargalos conjunturais, como o aumento do custo de capital e a ausência de uma demanda firme de longo prazo, além de implementar políticas que induzam o consumo doméstico em setores como siderurgia e fertilizantes. Mais do que uma agenda ambiental, o Hidrogênio Verde representa uma oportunidade histórica de reindustrialização para o país", ressaltou. 
 

Gargalos na infraestrutura 

O maior entrave físico apontado pelo setor e especialistas é o acesso à rede elétrica. O cronograma da Agenda 2026 indica que os reforços na rede e a liberação de margem de 3 gigawatt (GW) específica para o Ceará e Piauí só devem ocorrer em 2029.

No documento, a ABIHV reforça que o acesso firme e previsível à rede é condição crítica para projetos eletrointensivos. Para o professor de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Raphael Amaral, esse prazo reduz drasticamente o ritmo de implantação.

"O investidor vai tender a adiar o investimento ou vai dividir o projeto em fases menores, esperando mais previsibilidade dessa conexão elétrica. Com isso se tem mais cautela, maior custo de capital e cronogramas alongados, o que afeta diretamente a geração de empregos", alerta o especialista. 

Apesar da aprovação do Marco Legal do H2V (Lei 14.948/2024), falta a regulamentação de instrumentos vitais como o Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro) e o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC). 

"O que falta é transformar a lei em regra operacional. No Rehidro, falta ter critérios claros de habilitação e parâmetros realistas de conteúdo local. No PHBC, faltam as regras dos leilões e a definição de como os recursos serão distribuídos", explica Amaral. Sem essas regras, os projetos não se tornam "bancáveis", segundo ele.

Outro ponto de crítica é o aumento do imposto de importação sobre eletrolisadores. Para Raphael Amaral, "a medida é contraproducente". "Aumento de imposto geralmente é um tiro no pé. Você desincentiva a produção e a economia. Isso vai aumentar o Capex (investimento em equipamentos), reduzir o retorno e elevar o risco regulatório", observa.

A Agenda 2026 corrobora essa visão, destacando que a elevação tarifária compromete projetos de grande porte diante da limitada escala industrial doméstica atual. 

Dependência externa e a falta de demanda local

Atualmente, 90% dos projetos de H2V miram o mercado europeu. A ausência de políticas para induzir a demanda interna na siderurgia e na indústria de fertilizantes do Porto do Pecém é vista como uma oportunidade perdida.

"Sem essa perspectiva, os empreendimentos ficam dependentes da exportação, o que aumenta o risco e dificulta o financiamento. A demanda local poderia ajudar a destravar o setor", pondera Amaral.

Além disso, Amaral é taxativo ao dizer que "Brasília está atrapalhando muito". "O governo diz uma coisa na COP30 e semanas depois anuncia contrato com termoelétricas para carvão. Isso faz com que o investidor repense o seu projeto", conclui o professor da UFC.

Mapa de Investimentos no Hub do Pecém

O Estado possui hoje um portfólio de projetos estruturantes que, se concretizados, transformarão a economia local. Ao todo são mais de 30 memorandos de entendimento com empresas nacionais e internacionais já assinados.

Desses, de acordo com o detalhamento da Agenda 2026, os principais empreendimentos são:

  • Fortescue: investimento de R$ 18 bilhões e geração de 8.920 empregos na construção;
  • Casa dos Ventos: R$ 12 bilhões em aportes e 4.600 empregos;
  • Qair (Projeto Fraternité): R$ 17,7 bilhões e 5.700 empregos;
  • FRV (Fases 1 e 2): total de R$ 24 bilhões e 5.650 empregos;
  • Voltalia: R$ 2,7 bilhões e 1.400 empregos;
  • EDF: projeto em fase de reserva de área, com previsão inicial de 650 empregos.

Além do Hidrogênio Verde, o documento foca em derivados como amônia, e-metanol e fertilizantes verdes. 

Veja os 5 pilares da Agenda Estratégica 2026

  1. Marco Legal: concluir a regulamentação infralegal e definir critérios de conteúdo local para o Rehidro;
  2. Indução de Demanda: criar mecanismos para uso de H2V em fertilizantes, aço verde e combustíveis marítimos/aviação;
  3. Setor Elétrico: planejar a expansão da transmissão e garantir sinais de preço horários e locacionais adequados;
  4. Financiamento: reduzir o custo de capital através de instrumentos como a Plataforma BIP e o Fundo Clima;
  5. Comércio Exterior: manter a competitividade tributária e alinhar a política industrial ao estágio de maturidade da produção nacional. 

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