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Armazenamento de energia em baterias gera economia de até 40% no consumo; entenda

Prática ainda não é permitida na geração centralizada, mas ganha adeptos na modalidade distribuída

Escrito por Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
15 de Setembro de 2024 - 07:00 (Atualizado às 08:14)
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Legenda: Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias (BESS) em Curitiba. Testes estão sendo feitos na rede, mas regulamentação ainda está pendente.
Foto: Companhia Paranaense de Energia (Copel)/Divulgação.

Saem os geradores a diesel e entram os Bess. O equipamento, com nome em inglês, é traduzido para Sistemas de Armazenamento de Energia por Baterias e funciona de forma literal: "estoca" a eletricidade produzida e disponibiliza no sistema quando há necessidade. Alternativa que combina geralmente formas de geração elétrica limpas, a perspectiva é de que o investimento nesse equipamento garanta uma redução de até 40% no consumo de energia. 

Os Bess já são uma realidade da geração distribuída no País e vêm ganhando cada vez mais adeptos no Ceará. Um dos clientes aqui, por exemplo, é o Supermercados Moranguinhouma das maiores varejistas do Estado. O objetivo é que haja o armazenamento de energia para utilização em momentos críticos ou da chamada "ponta de carga", quando a eletricidade consumida é mais cara. 

A responsável pela instalação das baterias do Moranguinho foi a Matrix Energia. Segundo informações da empresa, o contrato é para a aquisição de 12 unidades do sistema, "totalizando 5 megawatts-hora (MWh) de Bess instalado. A primeira unidade–conceito a ser atendida pelo Bess tem previsão de entrega em outubro e capacidade de 1 MWh de Bess".

Segundo Alexandre Gomes, diretor da unidade de negócios da rede de energia, as vantagens do sistema de armazenamento são muitas, mas o destaque fica pela disponibilidade quase que ininterrupta do fornecimento das baterias. Elas estocam a energia e liberam quando for necessário.

"A gente fornece energia mais estável para o cliente, fornece energia onde elimina eventuais reativos que ela tenha. Se tiver energia reativa, o Bess atua como filtro também. Ele tem a função do Black Start, que substitui um gerador. Para algumas cargas, nem se percebe a entrada do Bess, sem fazer barulhos, sem queimar combustível fóssil, é um ambiente super controlado de automação", observa.

Locais como supermercados e hospitais, cujas interrupções no fornecimento de energia são consideradas críticas para as operações, adotam geradores a diesel para suprir eventuais quedas. Para Vinícius Suppion, especialista técnico regulatório da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Bess surge como uma opção de melhor custo-benefício.

Em lugar onde tem baixa confiabilidade (da rede) e a gente tem cargas que precisam ser atendidas com uma certa qualidade, como hospitais, frigoríficos e supermercados, onde ele possa ter perda pela falta de energia elétrica, pode instalar a bateria. Ao invés de gastar com o diesel, usa a energia estocada nas baterias. É uma estratégia que custa muito menos do que o diesel e consegue uma economia significativa nesse caso.
Vinícius Suppion
Especialista técnico regulatório da Absolar

"O gerador a diesel vai ser relativamente barato na hora da compra, mas o custo de utilização dele por hora é altíssimo porque vai ter que gastar comprando o diesel. O armazenamento é diferente: tem um gasto inicial maior, pois o sistema é mais caro, porém no uso não vai se ter nenhum gasto. Isso vai depender do perfil de utilização, mas em muitas aplicações, as baterias superam o diesel como solução mais viável", pontua o especialista.

Como funciona o armazenamento de energia na geração distribuída no Brasil?

Atualmente, estocar eletricidade nessa forma só é possível na geração distribuída (GD) no País, presente no mercado livre de energia. Essa modalidade foi regulada no início de 2022, e desde então, estabelece regras para produção energética, em geral, por meio de placas fotovoltaicas e turbinas eólicas.

Clientes residenciais que produzem a própria energia pagam progressivamente o chamado "fio B", taxa que vem na conta de luz pelo uso da linha de transmissão da rede da geração centralizada (GC), controlada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A maioria desses sistemas produz a energia e joga imediatamente na rede, sem armazenamento. Vinícius Suppion ressalta que essa prática gera um grande desperdício de eletricidade, uma vez que a maioria da produção de fontes renováveis são fora do horário de pico, entre o fim da tarde e início da noite.

Battery Energy Storage System (BESS), traduzido para Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias, deve funcionar armazenando o excedente da produção de energias renováveis
Legenda: Battery Energy Storage System (BESS), traduzido para Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias, deve funcionar armazenando o excedente da produção de energias renováveis
Foto: R. Classen/Shutterstock

"É permitido ter armazenamento de energia, assim como a gente tem sistemas de backup hoje. Coloca esse armazenamento do medidor para dentro de casa. Não seria uma entrega de energia à rede. Seria para a utilização residencial e funcionaria armazenando justamente a energia que está produzindo para outro horário mais interessante, para pagar menos fio B pela utilização da rede. Quando gera fora do horário de consumo, principalmente, consegue fazer isso. A partir desse armazenamento, também pode utilizar nesse horário mais caro e não utilizar energia da rede", explica.

Quais os motivos de ter o Bess?

A GD, neste caso, atua em conjunto com a GC. O consumidor, residencial ou comercial, atua produzindo a própria energia e disponibilizando na rede. Em troca, ele ganha créditos tarifários, abatidos na conta de luz. Com o Bess, como frisa Alexandre Gomes, o uso da eletricidade vinda da geração centralizada fica ainda menor, potencializando a economia dos clientes.

Não existe nenhuma vedação de se instalar o Bess diretamente no cliente de geração distribuída junto com a carga. A nossa tese é levar o Bess para perto da carga dentro do ambiente do cliente, ajudando-o na qualidade e estabilização de rede e no suprimento da falta de energia.
Alexandre Gomes
Diretor da unidade de negócios da Matrix Energia

"A gente chega em alguns casos a ter um desconto para o cliente de 35% a 40%. Depende muito do perfil de consumo de cada cliente, qual o fator de carga que ele tem na ponta, que é onde o Bess tem o maior benefício econômico", acrescenta Alexandre Gomes.

BESS da Matrix Energia. Sistema estoca eletricidade para jogar na rede quando houver necessidade, reduzindo danos com interrupções na corrente elétrica e maximizando o aproveitamento da energia gerada.
Legenda: BESS da Matrix Energia. Sistema estoca eletricidade para jogar na rede quando houver necessidade, reduzindo danos com interrupções na corrente elétrica e maximizando o aproveitamento da energia gerada.
Foto: Matrix Energia/Divulgação

Vinícius Suppion ainda acrescenta que as baterias funcionam como um "sistema de compensação": "O cliente vai utilizar essa energia justamente para trabalhar a conta de luz dele, a tarifa de um jeito que ela fique mais interessante ainda".

40%
Essa é a economia que consumidores de geração distribuída podem ter na conta de luz com baterias armazenando a energia

"Desde a lei 14.300/2022 (que estabelece regras para a GD no Brasil), os solicitantes de parecer de acesso que fizeram uma solicitação a partir de 12 meses após a publicação da lei, já têm que gradualmente ano a ano pagar uma porcentagem um pouquinho maior do fio B. Com o armazenamento, consegue-se minimizar a utilização da rede, injetando menos energia na rede quando se está produzindo e está sobrando e vai recuperar menos energia da rede na hora que você está consumindo", completa.

Realidade na GD, proibido na GC

Ao contrário da geração distribuída, cujo armazenamento é cada vez mais indicado para potencializar o uso da energia produzida sobretudo por fontes renováveis como a eólica e solar, na modalidade centralizada no Brasil, ainda não é permitido estocar eletricidade.

O assunto, antes cercado de polêmica após a declaração da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015, que afirmou que seria necessário desenvolver tecnologia para "estocar vento", virou projeto de lei (PL).

Se a gente pegar, por exemplo, a questão das usinas solares e eólicas do Nordeste, que efetivamente exportam energia para o Sudeste, infelizmente a infraestrutura de transmissão está limitada, ou seja, há muitos momentos onde não se consegue escoar essa energia, basicamente essa energia é perdida. Ela é gerada, mas as usinas não podem entregar essa energia. É um baita prejuízo. Tanto de ter esse ativo disponível, quanto também para o investidor da usina.
Vinícius Suppion
Especialista técnico regulatório da Absolar

Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias (BESS) ainda tem as altas cifras como um dos impeditivos para adoção em larga escala
Legenda: Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias (BESS) ainda tem as altas cifras como um dos impeditivos para adoção em larga escala
Foto: Shutterstock

Tramita na Câmara dos Deputados o PL 1224/2022, que visa regulamentar o armazenamento de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) para a GC. A proposta é de autoria do então deputado federal Beto Rosado (PP-RN), e agora segue para a relatoria do também parlamentar João Carlos Bacelar (PL-BA). Não há prazo para votação.

"Está previsto para dezembro desse ano um leilão de reserva de capacidade de potência, que basicamente são contratar usinas para despachar a potência na rede quando se precisa. Para esse próximo leilão, infelizmente a gente não teve isso incluído nas regras e até agora nenhum posicionamento possa ser reconsiderado. Isso já seria uma aplicação enorme para armazenamento de energia que já se viabilizaria e traria uma economia para todos os brasileiros na conta de energia", lamenta Vinícius Suppion.

 

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