Se reapropriar de espaços públicos será desafio ainda maior após pandemia, avalia José Borzachiello

Pós-doutor em Geografia Humana, Borzacchiello avalia que ocupar as áreas públicas é um desafio anterior à pandemia, e o atual contexto retoma o dilema

Legenda: José Borzacchiello é pós-doutor em Geografia Humana e docente do Departamento de Geografia da UFC
Foto: Fabiane de Paula

Após quase três meses de isolamento social - vivenciado de modos distintos, é fato, a depender do território habitado em Fortaleza -, as ruas da cidade voltam a ser ocupadas. A ação tão esperada, porém, ocorre enquanto a Covid-19 continua comprometendo a rotina, devido ao alto poder de transmissão. O momento é de transição com prudência, exigem as normas de saúde.

Na retomada, o uso do espaço coletivo é aparentemente uma das grandes demandas daqueles que forçadamente tiveram que se recolher. Mas adaptar-se não é tarefa fácil. Na última semana, muitos habitantes da Capital deixaram as casas rumo às compras e formaram aglomerações. Áreas públicas precisaram ser gradeadas para evitar movimentação semelhante.

Esse momento delicado de reocupação aponta um dos grandes desafios sociais das últimas décadas: garantir adequação às novas exigências sanitárias enquanto a população busca retomar as experiências de convivência comunitária. Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o pós-doutor em Geografia Humana e professor emérito do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), José Borzacchiello da Silva, fala sobre esse processo, que, segundo ele, não vem desvencilhado das marcas que Fortaleza já tem: uma cidade desenvolvida, mas caracterizada ainda por grandes desigualdades sociais e pela necessidade de reapropriação do espaço público, que é anterior à crise da Covid-19.

Além dos evidentes efeitos sanitários, qual o impacto da pandemia para o uso do espaço público e a convivência comunitária nessa retomada?

Primeiro, quero chamar atenção que a ocupação do espaço público em Fortaleza, uma cidade tão desigual, também se dá de forma bem diferente. Nos bairros que tem maior contingente com salários mais altos, a população pode ficar em casa, mora em condições superiores e a casa acolhe. Mas (na pandemia) a cidade não parou nas áreas de periferia. Foi preciso até uma certa repressão para interromper as feiras. Então, esse aspecto da desigualdade cria uma diferença no uso dos espaços públicos. Isso está ligado diretamente à condição de moradia, e à condição social do fortalezense. O próprio espaço da casa, em algumas situações, não acolhe. Nas casas pequenas, as pessoas vivem amontoadas. Então, a rua vai ser o espaço preferencial.

Então, no retorno, essa dinâmica de ocupação se difere? Na periferia ela não é afetada, mas nos outros espaços, sim? Como isso acontece?

Nós temos dois tipos de espaço público. O espaço público em si, as ruas, as praças, os logradouros, e os espaços públicos privados. Nós vivemos o momento em que há filas das pessoas para entrarem nos shoppings. Embora não esteja podendo ainda abrir as praças de alimentação, vimos as pessoas andando nas 'ruas' dos shoppings. Então, se valoriza o público que é privado. E há desprezo por determinados espaços públicos. Esses espaços precisam ser conservados, e a ausência de segurança é que historicamente tem provocado um certo abandono.

Além disso, os espaços públicos são usados de forma diferente pela população de maior poder aquisitivo e aquela que está dentro da vulnerabilidade social. Então, quando falamos de espaço público, eu falo, por exemplo, das praças. O que é a Praça do Ferreira e a José de Alencar quando podemos compará-las com a Praça Portugal? A Praça Portugal é uma composição de paisagens. Compõe um ambiente sofisticado. Enquanto a Praça do Ferreira concentra a população em situação de rua e a José de Alencar é a do comércio, do encontro. Estamos falando do mesmo espaço, todos são públicos, porém com uso e funções diferenciados.

O espaço público é o espaço de fricção, da alteridade. Nós tomamos consciência do que somos nos espaços públicos, na convivência com a outra pessoa. Nós adquirimos o conceito de diversidade nos espaços públicos. É onde nós nos deparamos com o diferente e nós também nos perguntamos qual o nosso grau de diferença. Então, o espaço público de encontro, conexões e solidariedade, e também de competição, ele não é generalizado na cidade.

O retorno às ruas agora pode afetar o sentimento de apropriação da cidade?

Eu acho que trouxe isso. Essa pandemia primeiro trouxe o medo do outro. Então, a questão da alteridade, de você construir laços de solidariedade, é uma solidariedade à distância de 1,5 metro ou 2 metros. Isso em termos da obediência das ordens do Estado. Na rua, a fricção tem uma dificuldade de manter esse distanciamento social. Nos terminais, por exemplo, quando entra no ônibus, a população volta a ficar perto do perigo de contaminação. Mas eu creio que o mundo todo vai mudar. Depois, iremos ver a redução do percentual de uso de alguns estabelecimentos. Haverá mudança brusca e vamos ter que nos acostumar com o novo modo de vida gregária até que venha a vacina e estejamos livres dessa pandemia. Mas, com certeza, vamos mudar o nosso comportamento.

Isso implica no quanto nos apropriamos de alguns espaços e deixamos outros de lado?

Essa questão é bem complexa. Primeiro que a pandemia trouxe a redescoberta da casa com as suas coisas boas e ruins. Quando uma chefe de família sai de casa para trabalhar, fica definido que ela saiu. Agora fazer o home office com as crianças sem entender que estão ali é diferente. O espaço da casa passa por um novo reconhecimento. Mas quando falamos da rua, muitas pessoas foram para rua porque estavam com saudade de sair e encontrar amigos, mas tem os que agiram e continuam agindo de forma ideológica, muitos que foram às praias e às ruas por rebeldia. Como vamos retornar?

Outra dimensão é a do encontro. O cearense adora um restaurante, um bar... Temos que falar como isso vai ser alterado. O povo gosta de desfrutar desse convívio. Mas eu vejo como uma conquista que vamos ter que alcançar, ainda. Essa transição não será fácil. Vamos ter que refletir e amadurecer como será esse retorno. Qual a visão prospectiva que vamos ter dessas medidas de distanciamento e redução de contato.

Outras epidemias já causaram transformações urbanas no Brasil com efeito higienista. No atual momento, é possível que perspectivas como essa voltem a ganhar ênfase?

O que foi nesse período do higienismo e a campanha da vacina no Rio de Janeiro e como aqui no Ceará nós tivemos também essa campanha? O saneamento básico interfere na permanência de políticas higienistas. Isso foi no início do século XX, nós estamos a mais de 115 anos dessa campanha e, no entanto, os problemas sanitários permanecem. Em Fortaleza, por exemplo, quando falamos em contágio nas áreas de periferias, de comunidades, de conjuntos habitacionais com casas mínimas, pouco distanciamento. Nosso índice de saneamento ainda é baixo. Temos muitas pessoas ainda tomando água de poço ou de outras fontes. Temos fossas abertas. Nossa população é vulnerável. É muito séria essa questão do higienismo. Não é passado. É presente ainda.

Nas cidades do interior a situação é mais difícil. A questão do banho, da própria higiene pessoal. A higiene pessoal é cara para a população. Então, essa precariedade é que assusta. Porque a classe média encontra formas de sobreviver. Agora essa população é que está desprotegida. As políticas públicas precisam estar mais direcionadas para essa população vulnerável, que também é a que reage mais, pela própria falta de consciência. Porque a própria escolaridade não chega ao nível de despertar uma consciência crítica da sua condição de existência.

Outro dilema é o possível comprometimento de recursos de outras áreas como melhorias urbanas. É a pandemia afetando as políticas sociais?

Eu vivo tentando compreender essa cidade que é Fortaleza. Temos que reconhecer que ela melhora cada vez mais. Agora, ela é uma cidade extremamente desigual e essa desigualdade persiste. As políticas públicas são voltadas para essa população, e a da área de saúde talvez seja a mais universal. Mas no conjunto, o saneamento básico é o mais caro de ser implantado. Só que ele é caro e não é. Porque ele é caro nos valores absolutos, mas sai barato considerando a esperança de vida que você conquista. A pandemia está sendo dura, as verbas ficaram escassas e ainda vamos entrar no período eleitoral. Vamos ver como vai ser.

A pandemia tem sido devastadora para distintas cidades, com mortes e adoecimentos. De modo generalizado, mexeu com a vida de diferentes populações. Mas se pudermos pensar em Fortaleza, com essa dinâmica que o senhor falou, desenvolvida mas desigual, qual a maior implicação?

Eu acho que nós vamos sair mais fortes como pessoas. Tivemos ações políticas imediatas do governador, do prefeito, dos secretários de saúde. Percebemos preocupação política e social por parte dos gestores locais. Isso é inegável. Sairemos mais fortes com certeza. Agora, como aproveitar essa fortaleza para fazermos uma avaliação em busca de uma cidade mais inclusiva, mais justa? Se avaliarmos, essa ocupação do espaço público é extremamente desigual.

O uso da praia, por exemplo. A praia mais popular é a da Barra (do Ceará). O transporte fica reduzido no fim de semana. O povo trabalha, quer ir a um lazer e tem dificuldade. Então, o próprio sistema de transporte é feito para conduzir a população para os equipamentos de consumo e, de repente, isso vira a opção de lazer. Isso é uma deformação social. Se reapropriar do espaço público tem sido difícil, vamos ver como vamos reagir após a pandemia. Estamos ainda em fase de análise. Tudo é muito passageiro.

Temos muita pesquisa ainda para fazer e saber o que mudou na nossa vida com esse exílio forçado que vivemos em casa, que para uns foi confortável e para outros o verdadeiro pandemônio.

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