Redesenho urbano agrega novas formas de deslocamento na cidade

Constante transformação da estrutura viária de Fortaleza muda rotina de moradores. Nos últimos meses, vias importantes passaram por requalificação em prol de um convívio sustentável entre modais. Novas ações estão previstas

Legenda: Vias como Santos Dumont e Duque de Caxias passaram por redesenho urbano este ano
Foto: Foto: Fabiane de Paula

Fortaleza cresce, muda e se ajusta. Pelo menos, é essa a expectativa com o redesenho urbano da Capital, que nos últimos meses vem passando por transformações relevantes no trânsito e na rotina dos moradores. Requalificação viária, novos meios de deslocamento, atenção a grupos antes ignorados e outras ações dão à cidade uma perspectiva mais sustentável e segura no ir e vir diário da população.

E as mudanças devem continuar. Uma delas, que sintetiza a construção de uma nova cidade, será feita na Avenida José Bastos, com remodelação por completo, segundo o Executivo municipal. Importante elo entre os bairros Parangaba e Centro, a via, até então, prioriza a circulação massiva de veículos automotores, sejam estes particulares ou transportes coletivos.

Com a requalificação, uma demanda antiga promete ser atendida: a dos ciclistas, uma vez que a artéria ganhará uma ciclovia bidirecional ajustada ao canteiro central. Também estão previstos novo sistema de drenagem, redesenho da sinalização (em atendimento a todos os modais), piso de concreto nos pontos de ônibus, nova pavimentação, semáforos com tempo para pedestres, além da readequação da velocidade máxima de 60 Km para 50 Km/h.

Distante dali, quase chegando à praia, o embalador de alimentos Francisco Campos desce pela calçada da Avenida Desembargador Moreira, empurrando sua bicicleta. Sempre que utiliza este modal para ir ao trabalho é assim que costuma deixar o serviço, por medo de pedalar na rua. "Gostaria de que aqui tivesse uma ciclofaixa, como na Rua Ana Bilhar", diz.

Calçadão

Em todo a sua extensão, essa avenida também deve passar por mudanças em breve. Mas é exatamente no trecho entre as Avenidas Dom Luís e Beira Mar que é esperado o maior redesenho. Isso porque as faixas do sentido Aldeota/Beira Mar serão fechadas para a implantação de um calçadão e da infraestrutura cicloviária.

De acordo com a Prefeitura, o espaço criado no local - de 6.500 m² - contará com mobiliário, arborização, paisagismo e nova iluminação, incentivando a ocupação de pedestres. "Assim, vai ficar bom porque vai ter mais gente fazendo passeios, correndo, andando de bicicleta. Haverá mais pessoas na rua", estima Campos.

Dar meios de circulação aos pedestres, promovendo maior segurança viária, foi o objetivo principal da requalificação realizada na Avenida Barão do Rio Branco, no Centro da Capital. Antes, apenas 33% do espaço eram destinados a esse grupo, embora eles representem 80% dos usuários da via. Após a intervenção, uma das faixas foi aproveitada como extensão da calçada, diminuindo os riscos para os pedestres.

Para o professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Angelo Azevedo, é justamente do Centro de onde deveriam partir as principais iniciativas de redesenho viário. Em razão da grande circulação de pessoas diariamente, destaca ele, o feedback positivo pode ser maior, assim como a chance das intervenções serem reivindicadas em outros pontos da cidade.

Arborização

"O Centro é um lugar pouco aproveitado. Todas as medidas que facilitem um deslocamento sustentável a pé, de bicicleta ou pelo transporte público são bem-vindas. Investir em arborização também é importante por causa do nosso sol forte. Mas é preciso saber que Fortaleza não é só Aldeota e Meireles, tem gente morando no resto da cidade", comenta o especialista.

Outras alterações já realizadas vêm gerando retorno variado. O frenesi do Centro se estende até boa parte da Avenida Duque de Caxias, onde é grande a circulação de pedestres e veículos.

Com a implantação da primeira etapa do trinário - com as ruas Clarindo de Queiroz e Meton de Alencar - o tempo de deslocamento na via, agora sentido único Aldeota Centro, acabou sendo otimizado, especialmente para os usuários do transporte público. Estes representam 80% de todas as pessoas que passam pelo local diariamente, segundo dados da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP).

Além do novo pavimento, também foram implantados prolongamentos de calçadas, uma ciclofaixa, rampas de acesso, semáforos com botoeiras de tempo e nova iluminação. Mudanças que agradaram o pedreiro Rogério Lima, embora não completamente.

"Sou pedestre e ando de ônibus e sei que melhorou a circulação, mas para pegar ônibus em direção ao Papicu ficou esquisito porque tem que ser na (rua) Meton de Alencar. É perigoso", diz.

Ajustes pontuais na região, no entanto, podem ser analisados, segundo prometeu o prefeito Roberto Cláudio, durante a entrega do trinário, tendo como base o próprio retorno da população.

Na Avenida Santos Dumont, as mudanças promovidas pela implantação do binário com a Rua Lauro Nogueira resultaram em uma via de mão única no sentido Centro-Praia, com três faixas para veículos e uma ciclofaixa bidirecional.

Mas apesar do local ter recebido reforço da sinalização, a principal queixa dos pedestres diz respeito à travessia no cruzamento com a Rua Valdetário Mota. O trecho não contempla semáforo para veículos e, a depender exclusivamente do respeito à faixa de pedestres por parte dos condutores, quem tenta atravessar sai em desvantagem.

"Eles não respeitam, era para ter um semáforo. É difícil atravessar aqui sendo jovem, imagina um idoso. É preciso lembrar que todos nós somos pedestres e temos um parente andando na rua", comenta o aposentado Paulo Danésio.

Opinião
Mudança no olhar

Márcio Dornelles
Editor

Dos portões da nossa casa ao mundo, somos ligeiras calçadas, estreitas ruas, grandes avenidas, longos quarteirões, espaçosos bairros: a cidade inteira. Do jeito que ela se constituiu ao longo dos anos e a partir das novas formas que ganha diante da transformações do próprio comportamento dos seus habitantes.

Na bagunça do crescimento desordenado de décadas, é tarefa dos equilibristas do poder processar os espaços soltos e fazê-los um bolo só. Fortaleza tem sido muitas e nós, seus filhos, de raiz ou coração, também modificamos a nossa forma de interação.

Mais que atender a necessidades antigas de deslocamento e convívio, a implantação de novas estruturas viárias influencia a rotina, especialmente o olhar de quem antes se via refém dos mesmos modais. Agora, são aliados.

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Redação 29 de Outubro de 2020
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