Pessoas trans esperam, em média, três meses por atendimento em ambulatório especializado

O Sertrans, em Messejana, é o único serviço público do tipo no Ceará. Segundo a Sesa, 30 pessoas estão na fila

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Legenda: Sy Gomes Barbosa, artista visual e historiadora

“Quando você abre os olhos e ao se ver no espelho, não consegue se encontrar, parece que você está perdido. Dói muito”. O relato é de Noah Pierre, morador de Pentecoste – localizada a cerca 80km de Fortaleza – que há um ano e quatro meses aguarda para ser atendido no Serviço de Referência Transdisciplinar para Transgêneros (Sertrans), no Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), em Messejana, na Capital. No único serviço público de ambulatório especializado no Estado para atendimento de pessoas trans, o tempo de espera para ser acolhido ainda é um percalço. Segundo a Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), hoje, há 30 pessoas na fila para atendimento no Setrans. O tempo médio para o paciente ser chamado é de três meses. 

Conforme o antropólogo e presidente da Associação Transmasculina do Ceará (Atransce), Kaio Lemos, a sociedade é cisgênera – condição da pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao que lhe foi atribuído no nascimento. Por isso, pessoas que não se identificam como “cis” são vistas como sujeitos estranhos. “A primeira importância da saúde mental está nesse sentido, para que os procedimentos transexualizadores aconteçam de forma saudável, principalmente, relacionado à mente”, completa. 

O Sertrans foi criado em novembro de 2017 e tem ambulatório multidisciplinar em psiquiatria, psicologia, endocrinologia, enfermagem e serviço social. Desde o início do funcionamento, segundo o Hospital, foram feitos 748 atendimentos. De janeiro a novembro de 2020, foram 167 atendimentos em psicologia, enfermagem e serviço social. 

Sobre a fila de espera, a coordenadora do Sertrans, a psiquiatra Lícia Mesquita, no dia 18 de dezembro, disse que a última vez que teve acesso a informações sobre a situação havia mais de 100 pessoas. Já em nota enviada, em 21 de dezembro, a Sesa informou que 30 pessoas aguardam.

Processos

Miguel (nome fictício para resguardar a fonte), começou a ser atendido no Sertrans em 2017. Na época, só conseguiu vaga após dois meses de espera. Ele iniciou com o psiquiatra e em seguida com o endocrinologista para começar a terapia hormonal. Atualmente tem atendimento mensal com psiquiatra, psicólogo, assistente social e endocrinologista.

“Antes do acompanhamento, eu me sentia sem perspectiva nenhuma de dar início à minha transição, pois os outros meios não tinham preparação para acompanhar meu processo. Minha vida mudou depois que consegui a vaga”, explica.

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Legenda: Sy Gomes Barbosa, artista visual e historiadora

A artista visual e historiadora, Sy Gomes Barbosa, ainda espera há quatro meses ser chamada, sem saber qual sua posição na fila. Assim como outras pessoas trans, Sy começou a se hormonizar sozinha em casa.

“Meus pais, que são meu maior suporte, coisa rara entre as pessoas trans e travestis, ficaram muito preocupados, pois a minha hormonização não era acompanhada por nenhum profissional da saúde, e estava me causando variações de humor e mudanças corporais”. 

“A ineficácia dos equipamentos em acolher a experiência integral dos sujeitos trans, somando-se a fila e a demora quando o endereçamento é feito, incentiva a busca por tratamento em outras vias”, explica o psicanalista, Mauro Reis. De acordo com ele, isso pode resultar em práticas ilegais perigosas à saúde, como a utilização de substâncias sem controle de qualidade ou a realização de procedimentos em condições insalubres, principalmente quando não há recursos para se recorrer a profissionais no circuito privado.

Noah Pierre, que aguarda há mais de um ano ser chamado, relata que conhece várias pessoas que começaram a tomar os hormônios sem acompanhamento. “Na cabeça de uma pessoa trans ela quer mudança, quer respirar. Então ela nunca pensaria no risco”. 

Ele também relata que, muitas vezes, falta qualificação aos funcionários da saúde que "não sabem o que é trans”. O acompanhamento com um psicólogo se faz necessário principalmente para que se aprenda a lidar com disforia e questões com o corpo, afirma Noah.

"Às vezes, não é fácil lidar com minha mente,  passei tanto tempo tentando reprimir algo, e no final esse algo era simplesmente eu lá no fundo gritando por mim mesmo precisando ser liberto”, finaliza.

Diretrizes do SUS 

As diretrizes do SUS são pensadas tanto para prevenir e tratar doenças, como para promover a saúde, afirma o psicanalista Mauro. É preciso, portanto, de acordo com ele, que as instituições pensem na experiência dos sujeitos que acolhem para além do viés patológico, de modo a considerar os aspectos biopsicossociais. 

O Ministério da Saúde, por meio da portaria 2.803 de 2013, permitiu a realização no Sistema Único de Saúde (SUS) de todos os procedimentos médicos para garantir a cirurgia de transgenitalização e a readequação sexual no Processo Transexualizador, conforme os critérios estabelecidos na Resolução nº 1.652 de 2002 do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Esse processo inclui ações de âmbito ambulatorial e hospitalar, bem como o acompanhamento clínico, a realizações de cirurgias e acompanhamento pré e pós-operatório e hormonioterapia. No Ceará, até o momento, existe apenas o serviço ambulatorial.

No Ceará também ainda não é feita a entrega de medicamentos da hormonização na rede pública e apenas duas pessoas foram submetidas a cirurgias pelo SUS, entre elas está Kaio Lemos, presidente da Associação Transmasculina do Ceará (Atransce). Segundo ele, existe uma luta por parte da comunidade trans para que o acesso aos cuidados da saúde mental seja um direito efetivado. 

Segundo o Hospital de Saúde Mental, o ambulatório fornece psicotrópicos às pessoas que necessitam destas medicações, e atualmente está aberta uma licitação para a aquisição de medicamentos utilizados no processo de transexualização (hormonioterapia), com possibilidade de distribuição no início de 2021. 

Segundo Kaio Lemos, “as medicações são uma demanda. Ficamos felizes, pois há uma necessidade muito importante. Essa medicação é cara, para as pessoas que não tem renda, emprego e família. Dependendo do tempo que essa pessoa faz, isso pode ficar ainda mais caro, pois tem pessoas que fazem com dias diferentes”. 

Opinião 

>> Quem vive na pele

Fernanda Bravo Rodrigues, cientista social e mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadora de identidades trans, membro do grupo de pesquisas interdisciplinares PARALAXE

"No que tange aos sujeitos trans, eu costumo dizer tanto como mulher trans, quanto como cientista, que o não acesso à saúde, nesse caso, ao Sertrans, é bem danoso. Para isso, eu utilizo uma analogia com base em uma necessidade fisiológica: imaginem uma pessoa necessitando de um ambiente que supra sua necessidade e a porta está sempre trancada. A urgência de se resolver aquele desconforto é angustiante, vexatório, causador de sofrimento. Só que, nesse caso, para além de um sofrimento psíquico, um sofrimento de caráter ético e político. 

A sociedade que nós vivemos, a cultura e a estrutura que nós estamos, não está preparada ainda para esse tipo de diferença. Então, um acompanhamento psicológico, não vai tão somente tratar desse sujeito como se ele fosse um doente. Levando em consideração que as pessoas acreditam que a terapia é para doente, mas não. São para pessoas que não estão em conformidade com alguma coisa que está lhe causando sofrimento. Neste caso, a identidade de gênero, na qual a pessoa não se identifica com o que foi designado ao seu nascimento.  

E esse acompanhamento fará com que ela possa compreender que a culpa não está nela, mas tem toda uma estrutura envolta dessa problemática. Então, acho de suma importância, fundamental um acompanhamento nesse sentido. Para que dentro de um contexto social, ela se transforme ou se emancipe. Isso não é um trabalho individual. É um trabalho coletivo das instituições e sujeitos em relação, uma vez que somos sujeitos relacionais. Eu diria que no que diz respeito à saúde pública um acompanhamento de extrema necessidade.   

Estamos falando de saúde pública e a saúde pública tem que tá direcionada, segundo o Estado, como direito a todos. Então, a todos inclui todas as identidades, sejam elas femininas, masculinas, sejam elas trans masculinas, trans femininas. Sejam elas que não se identificam com nenhum pólo. O que tá em jogo, o que tá contando ali é um corpo humano, esse corpo tem necessidades específicas, ele está dentro um contexto social e dentro de um contexto psicossocial. Antes de qualquer coisa, antes de se pensar em passar uma cortina de fumaça, com hormonização, achando que modificando suas características biológicas, irá fazer com que esse sujeito tenha uma dimensão de atendimento de direito à saúde pública. Pensar dessa maneira é perverso.  

Temos que pensar na integridade desse sujeito. Mais importante do que a hormonização, do que a medicalização do mundo como cortina de fumaça é o acesso integral desse sujeito à saúde.  Há 10 anos procurei o Hospital de Saúde Mental de Messejana. Eu estava passando por uma depressão e problemas, que não dizem respeito somente à questão da transexualidade. Envolve também o não acesso a diversos espaços que são direitos de qualquer cidadão, como educação e trabalho, e até mesmo ao afeto da minha família. E esses fatores foram me consumindo.  

Quando eu chego no programa, sou atendida por um psiquiatra, que me fornece o diagnóstico de depressão, mas também me convida para fazer parte de um grupo de apoio que está sendo iniciado no hospital com pessoas trans. Por isso, eu digo que é importante ter acompanhamento, porque dentro desses 10 anos que eu estou lá, eu não só melhorei da depressão, como eu voltei a ter perspectiva, retomei os estudos, passei na Universidade Federal do Ceará, já com 37 anos, tive a oportunidade de ser aprovada em dois mestrados e o privilégio de escolher qual o que eu mais queria. E escolher é uma coisa que mulheres e homens trans não podem fazer no País". 

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