Mãe por adoção conta história de pioneirismo na conquista de licença-maternidade

Professora explica como conseguiu, há 15 anos, conquistar o direito à licença-maternidade após adotar um bebê. Hoje, trabalha empoderando mulheres com deficiência em Fortaleza

Escrito por Kilvia Muniz, kilvia.muniz@tvdiario.tv.br

Metro
Legenda: "Nunca deixe de acreditar em si mesma. O seu crivo é o mais importante. Se você acredita em si e sabe de onde veio e onde vai chegar, não importa o caminho", Ruth Teixeira
Foto: Foto: José Leomar

Aos 23 anos, Ruth já tinha três filhos. Separou do marido, casou de novo e, com 32 anos, em 1995, quando a mais nova tinha 14, percebeu que queria ser mãe de novo. Como assim? Pergunto eu que, aos 35, tenho duas filhas e zero pretensões de ter mais. "Amo ser mãe, nasci pra isso". Simples assim. Ela me explicou que depois do terceiro filho, tinha "ligado" as trompas. A solução nasceu clara para ela. Iria adotar. O "parto" em questão foi mais demorado que os naturais. Durou 7 anos. Em 2000, Ruth se cadastrou, oficialmente, no Juizado da Infância. Dois anos depois, no Natal, aconteceu com Ruth um desses contos que se vê em filme. Uma recém-nascida foi deixada na porta. À época, o processo era diferente do atual e Ruth, que já estava no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), conseguiu adotar Vitória.

A partir daí decidiu batalhar pelo direito à licença-maternidade como mãe adotiva. A lei já estava em vigor desde abril de 2002. Mas entre a teoria e a prática, o caminho seria longo. "Quando adotei a Vitória, uma juíza me disse: nunca uma mãe adotiva teve direito à licença-maternidade. E nem vai ter", declarou. Desistir não estava na agenda.

Ruth tentou o benefício junto à empresa onde trabalhava como professora. Não conseguiu. Procurou o INSS, nada. Foi pra Justiça e ganhou a causa em 2003. "Fui a primeira mãe adotiva do Ceará a tirar licença-maternidade de 4 meses e embora tenha sido despedida, no regresso à empresa, agradeço à Deus toda a dificuldade que atravessei. Só me tornei mais forte"

Desempregada e com 4 filhos, decidiu aproveitar o tempo para estudar. Fez especialização em Educação e, hoje, faz mestrado. Os filhos mais velhos estão formados e concursados. Já Ana Vitória, 16, está no segundo ano do Ensino Médio. "O sonho dela é se formar em medicina pediátrica", conta Ruth, com orgulho.

Novos horizontes

Hoje, a luta de Ruth ganhou novos horizontes. Depois de 20 anos ensinando pessoas com deficiência, fundou em 2017, a AME, Associação de Mulheres Especiais, que atua empoderando mulheres deficientes e cobrando políticas públicas inclusivas. São atendidas 20 mulheres cadeirantes, cegas ou com baixa visão. "Incentivamos mulheres a ler, fazemos intervenções urbanas verificando acessibilidana cidade. As meninas cegam aprendem a se maquiar, a se vestir direito", explica.

Hoje é enfática no discurso. "O que eu tenho pra dizer é: nunca deixe de acreditar em si mesma. O seu crivo é o mais importante. Se você acredita em si e sabe de onde veio e onde vai chegar, não importa o caminho. Busque inspiração em outras mulheres para vencer". Simples assim.

Adoção no Ceará

Cerca de 600 famílias estão na fila esperando para adotar uma criança no Estado. Por outro lado, existem 153 crianças e adolescentes à espera de uma família.

Processo de adoção

Para adotar é preciso apresentar documentação completa no Juizado da Infância e Juventude de sua comarca e requerer habilitação. O processo é acompanhado por um promotor ou defensor público, além de uma equipe multidisciplinar que realiza visitas e emite um relatório. Se for aprovado, a Justiça autoriza a inclusão do candidato no Cadastro Nacional de Adoção. Em Fortaleza, o tempo médio de espera é de 19 meses.