Infectologista Anastácio Queiroz discute o uso de medicamentos para tratamento da Covid-19

Especialista fala ao Sistema Verdes Mares sobre a utilização de Hidroxicloroquina, Cloroquina e Azitromicina no tratamento de pacientes diagnosticados com a Covid-19

Legenda: Infectologista Anastácio Queiroz cita avanços no tratamento, mas com ressalvas
Foto: Foto: Kid Junior

Hospitais do Ceará, seguindo uma tendência mundial, começaram a utilizar medicamentos com as substâncias Hidroxicloroquina, Cloroquina e Azitromicina no tratamento de pacientes internados com o diagnóstico da Covid-19. O avanço, porém, não significa que qualquer pessoa pode ter acesso. Pelo contrário. Médico infectologista que atua no Hospital São José e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o doutor Anastácio Queiroz vê a alternativa de forma animadora, mas esclarece que só deve ser aplicada sob estrita supervisão médica e que severos efeitos colaterais podem ser desencadeados caso não seja administrado por profissionais.

Ainda é cedo, mas é possível analisar como positiva a utilização dos medicamentos com as substâncias Hidroxicloroquina, Cloroquina e Azitromicina?

Eu acho que são drogas que têm efeito. No Brasil, está se usando em vários locais. Ainda é muito cedo para termos algum relato científico de que realmente está ocorrendo. Mas toda medicação que nós usamos, especialmente em pessoas idosas, temos que ter mais cuidados que em pessoas jovens. Mas é importante enfatizar que não existe um tratamento único para todo mundo. É preciso analisar caso a caso, individualmente. Para qualquer medicamento, existe aquele grupo que não vai responder bem. As pessoas que mais vão precisar dessa medicação são pessoas idosas, para prevenir uma doença grave. E nelas, em caso se decida utilizar, tem que ser muito bem avaliada no ponto de vista geral e cardíaco. Tem que ter uma boa avaliação do coração, fazer eletro. Ver se tem alguma alteração que contra indica.

É possível pensar em outra alternativa eficiente no momento?

Dificilmente, nós vamos, a curto prazo, ter outra medicação. Essa vem sendo estudada há muito tempo, e realmente mostrou efetividade. Claro que não foram tantos pacientes, e quando se usa qualquer medicação em muita gente, vai ver efeitos negativos que antes não foram observados. Então, eu sou favorável ao uso, mas sou favorável que os pacientes em uso sejam bem avaliados do ponto de vista renal e, especialmente, do ponto de vista cardíaco. Há uma série de efeitos que a droga dá. De qualquer modo, podemos utilizá-la, mas temos que garantir a avaliação renal, reumatológica e, principalmente, cardiológica dos pacientes, para que realmente as pessoas tenham os benefícios e não os danos. Principalmente, no momento que a população está apavorada. Vão pressionar os médicos para prescrever e muitos colegas vão prescrever, talvez, na pressa. Então, a minha recomendação é: a medicação pode ser usada, deve ser feito, mas com muito critério. E cada pessoa, em recebendo, deve ser avaliada antes e durante os dias de tratamento.

Como tem sido essa utilização no Ceará?

Em pessoas internadas que têm o diagnóstico. Aqui no Ceará está se usando, em todos os estados eu acho que já se utiliza. Em São Paulo tem se usado muito. Eu não sei os resultados. Não foi nada escrito ainda, porque tem pouco tempo. A doença chegou no Brasil muito recentemente. Mas acredito que, no próximo mês, já teremos publicação brasileira dando conta dos resultados, se foi muito positivo ou não. Acredito que dentro de algumas semanas. As decisões têm que ser tomadas individualmente. Mas, com certeza, essas medicações serão utilizadas com uma certa frequência, devido ao número de casos que tem aparecido. E vão aparecer ainda mais, infelizmente.

Muitas pessoas foram às farmácias em busca das medicações...

No momento em que está todo mundo apavorado, as pessoas compraram todo o estoque que existia nas farmácias naquele momento que não se vendia com receita. Sem ter a mínima noção de como usar, quando usar... Então não há dúvidas que há pessoas que estão apavoradas com a doença, que estão muito preocupadas, e no momento de muita angústia, às vezes tomam decisões que não são muito racionais. É importante deixar claro que tem efeitos positivos, mas pode ter efeitos negativos. As pessoas podem tomar, mas só se for discutindo com o médico. Temos que usar com muito critério, após uma prévia avaliação.

O que achou da determinação do Ministério da Saúde, que validou o medicamento e autorizou o seu uso, mas apenas para pacientes em estado grave?

Sei que o medicamento agora será prescrito com receita especial. Só será feito por médicos, e evidentemente que fica na responsabilidade do médico levar as informações para o paciente e para a família. Nos Estados Unidos, muitos hospitais já têm protocolos de tratamento com essa medicação. Acho que não utilizar de modo algum não é a abordagem correta. Acho que a droga pode ser utilizada, desde que se faça criteriosamente. Se no Brasil vai ter o efeito que os estudos na França apresentaram, o tempo dirá.

Deve-se destacar que não são medicações novas...

É importante enfatizar que são medicações que usamos no dia a dia pra outras condições. É diferente de uma medicação nova, que não conheço nada. Essa é uma medicação que todos os dias os médicos prescrevem. A hidroxicloroquina serve pra malária, para muitas pessoas que têm lúpus, artrite reumatoide, essas pessoas tomam continuamente. E Azitromicina é um antibiótico que os médicos prescrevem nos ambulatórios rotineiramente. Então não são medicações desconhecidas. O problema é que vai usar pra uma população que, via de regra, já tem comprometimentos outros. Mas que a medicação é uma que nós conhecemos, é diferente de uma substância que não conhecemos.

Como avalia o cenário atual do Ceará em relação ao restante do Brasil?

Nós temos os casos e a tendência é que esses casos aumentem. Por isso é que os cuidados deverão ser mantidos por semanas e talvez até meses. A tendência é piorar a Covid-19. Porque muitas pessoas ainda irão se infectar. Muitas.

Qual o caminho para diminuir o número de casos?

A doença é real, ela se transmite de pessoa para pessoa. As pessoas não podem ficar perto. A grande questão é o contato próximo das pessoas. Não dá para fazer uma restrição pra todo mundo e pra uma pessoa não fazer. Por isso é que se recomenda que as pessoas só saiam de casa para realizar tarefas que são imprescindíveis, e com todo cuidado, sozinhas, longe de outras. Não sair é fundamental. Se eu estou longe de você, eu nunca vou transmitir a doença pra você e nem você pra mim. O que se quer é quebrar a barreira da transmissão. A corrente de transmissão tem que quebrar. Se não transmite, as pessoas não adoecem.

A utilização dessas substâncias representa uma esperança de melhora?

Sem dúvidas. É muito positivo, mas é preciso ter muito cuidado. Mas acredito que a gente tem que divulgar a verdade. A medicação tem efeito, tem efeito positivo, mas é preciso que haja uma avaliação antes do seu uso para que a pessoa tenha os benefícios e diminua ao máximo os riscos. É realmente uma esperança, muitas pessoas vão se beneficiar, mas não se pode usar para gerar efeitos negativos.