HGF comemora bons resultados em uso de trombectomia para casos agudos de AVC

Método pesquisado e aplicado no Hospital Geral de Fortaleza desde 2017 utiliza cateter para remover coágulos que entopem artérias no cérebro. De custo mais elevado, desafio é expandir a oferta para outras regiões do Ceará

Legenda: Hospital Geral de Fortaleza
Foto: Foto: JL Rosa

Temido pela possibilidade de levar à morte ou provocar sequelas graves, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) ocorre quando os canais que levam sangue ao cérebro entopem ou se rompem, parando a circulação. Nos casos isquêmicos, quando há o entupimento dessas estruturas, um dos tratamentos mais eficazes disponíveis atualmente é a trombectomia mecânica, que remove o coágulo da obstrução por meio de um cateter. Ela é ofertada no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) desde 2017 e já beneficiou cerca de 200 pacientes.

Uma pesquisa realizada entre janeiro daquele ano e março de 2019, tendo o Hospital cearense como centro de atividades dentre 17 unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, confirmou a eficácia da trombectomia para casos agudos de AVC isquêmico. O estudo foi publicado neste mês, na revista americana New England Journal of Medicine (NEJM), uma das mais prestigiadas publicações da área médica.

O neurologista Fabrício Oliveira Lima, chefe da Unidade de AVC do HGF, comemora a ampliação do método, que promove de 60 a 80 procedimentos anuais. No entanto, o especialista também defende a expansão do tratamento, que tem um custo mais elevado, e sua descentralização para outras regiões do Ceará, como a Norte e o Cariri.

O alerta tem respaldo em dados de plataforma IntegraSUS, alimentada pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Dados de mortalidade por AVC de janeiro a maio de 2020 mostram que o Ceará já registrou 1.544 mortes pela doença. Embora a maior parte tenha ocorrido em Fortaleza (535), Juazeiro do Norte (65) e Sobral (37) fazem parte da lista com maior número de óbitos, além de Caucaia e Maracanaú, na Região Metropolitana.

Segundo os dados, 51,2% dos óbitos ocorreram em homens, e 48,8% em mulheres. A doença atingiu, em maior parte (84,4%), cearenses com idade igual ou superior a 60 anos. Também acometeu principalmente a população sem escolaridade (37%) ou com apenas alguma etapa do ensino fundamental (41,8%).

Tratamento

"A trombectomia demanda estrutura. Na unidade, tem que haver um serviço de hemodinâmica 24 horas por dia, sete dias na semana, e também recursos humanos. Além de oferecer o tratamento, o HGF forma pessoas capacitadas para prestar esse atendimento", explica Fabrício, destacando tratativas com a direção do Hospital e da Sesa para disseminar o método pelo Estado.

Aos 72 anos, o aposentado Raimundo Pacheco Sá teve parte do corpo paralisado por um AVC, precisou ser internado às pressas na unidade de saúde no início deste mês. O idoso foi um dos pacientes submetidos ao tratamento.

"Dia 1º de junho eu comecei a sentir um lado meu corpo paralisando, não conseguia me mexer. Me levaram ao HGF e fiquei cinco dias lá", recorda.

Conforme Raimundo, os procedimentos durante a internação foram realizados com agilidade. "Foi tudo muito bem feito, colocaram o cateter e logo já tive alta". Sete dias após voltar para casa, o idoso já percebe os ganhos da recuperação. "Consigo caminhar um pouco, ainda me segurando, mas cada dia melhor. Também estou conseguindo falar devagar. Muito diferente da condição que eu estava quando saí de casa. Foi uma bênção mesmo".

Diferenças

Existem dois tipo de AVC. O hemorrágico acontece quando um vaso se rompe, levando a um sangramento no cérebro. O isquêmico, responsável por 85% dos casos, leva ao entupimento dos vasos que transportam sangue para o cérebro. Para este segundo, há duas opções: a trombectomia mecânica, ou "cateterismo cerebral", que insere um cateter numa artéria da virilha até o cérebro para retirar o coágulo mecanicamente; ou a alteplase intravenosa, a aplicação de um medicamento transportado pelo sangue até o cérebro para dissolver o coágulo.

Segundo Francisco José Mont´Alverne, presidente da Sociedade Brasileira de Neurorradiologia (SBNR), membro do comitê científico do estudo Resilient e coordenador da Neurorradiologia do HGF, uma das principais vantagens da trombectomia é o tempo. Enquanto a alteplase intravenosa é eficaz em até quatro horas e meia após o início dos sintomas, o cateter pode ser utilizado até 24 horas depois.

O estudo sobre a segurança e eficácia da trombectomia no SUS, financiado pelo Ministério da Saúde, apontou que os pacientes submetidos à técnica tiveram mais chances de ficar sem sequelas e de permanecerem independentes em suas atividades - importante principalmente para a população mais socialmente vulnerável, que foi alvo da pesquisa.

"Uma pessoa de baixa renda com sequela gera um problema para toda uma geração da família porque alguém vai ter que cuidar dela. O AVC é fruto da desigualdade social, e ao mesmo tempo aumenta essa desigualdade. Existe uma relação direta entre gravidade do AVC e o índice de desenvolvimento humano. Quanto menor o índice, maior a mortalidade e as sequelas. Nessa população, houve aumento de 75% de pacientes sem sequelas decorrentes do procedimento", destaca Mont'Alverne.

Rapidez

O neurorradiologista expõe que, apesar da oferta garantida pelo Estado, alguns pacientes "chegam muito tarde", com quadro bastante agravado, e têm contraindicação para passar pelo procedimento. Por isso, quanto mais rápido o diagnóstico e a procura pelas unidades de saúde de referência, maiores serão as chances de recuperação.

O chefe da Unidade de AVC, Fabrício Lima, considera o problema como de saúde pública. Só no HGF, anualmente, entre 900 e 1.000 pacientes dão entrada com nessa condição.

"Nos últimos dois anos, o número vem caindo, mas, no Ceará, ele ainda é a primeira causa de morte. Tem havido um trabalho bacana com outros profissionais de saúde para organizar a linha de cuidado, desde a prevenção, que é muito mais fácil e barata", garante o médico.

Uma parceria com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também busca fazer o transporte dos pacientes de forma mais rápida para minimizar o risco de complicações. No entanto, o neurologista aponta como essencial a educação da população para reconhecer os principais sintomas do AVC, que incluem formigamento na face e alterações na fala e na visão.

"Existem cerca de 10 fatores de risco responsáveis por quase 90% de chance de uma pessoa ter AVC. Dentre eles, estão pressão alta, diabetes, tabagismo, arritmia cardíaca, inatividade física, má alimentação e o estresse", descreve Fabrício. A prevenção continuada deve ser reforçada. Estudo já feito em Fortaleza revelou que quase 40% dos casos são AVC recorrentes, o que aumenta as chances de sequela.

Os profissionais recomendam a adoção de um estilo de vida saudável e a procura regular pelo serviço médico, sobretudo o de cardiologia, para identificar possíveis sinais de alerta. "É uma doença bastante prevenível", frisa o neurologista Fabrício Lima.

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