Escolas de dança do Ceará se mobilizam para pedir o retorno presencial separadas das academias

Movimento parte da Associação das Academias de Dança do Estado, com 43 escolas filiadas

Escrito por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br

Metro
Legenda: Presidente da Associação das Academias de Dança do Ceará sublinha que as academias do segmento possuem horários diferenciados e não compartilham equipamentos
Foto: Fabiane de Paula

Frente às orientações do mais recente decreto estadual de isolamento social no Ceará – anunciadas durante live conduzida pelo governador Camilo Santana há uma semana, no último sábado (17) – as escolas de dança do Estado encontram-se mobilizadas para pedir o retorno presencial das atividades separadas das academias de ginástica.

O movimento é encabeçado pela Associação das Academias de Dança do Ceará, com 43 estabelecimentos filiados no segmento, tanto na Capital quanto no Interior. A entidade elaborou um documento, mediante a colaboração de médicos e trabalhadores do setor de saúde e segurança, para dar continuidade aos encontros presenciais, mantendo as medidas de prevenção contra a pandemia. 

“Iremos seguir todas as recomendações da Secretaria do Estado e da Organização Mundial de Saúde com o intuito maior de promover a segurança e a contenção da pandemia em todo o processo”, detalha o texto do registro.

Ao Diário do Nordeste, o presidente da Associação e diretor do Ballet Hugo Bianchi, Félix Ramazzotti, explicou que a movimentação acontece desde o retorno do lockdown no Ceará, em fevereiro deste ano. A partir desse período, as tentativas de diálogo com os órgãos competentes são constantes, a fim de elucidar as demandas específicas das academias de dança – detentoras de outra dinâmica de funcionamento, se comparado às academias de ginástica, por exemplo.

“Nós estamos no mesmo barco, mas nossos horários são diferentes. Enquanto, por exemplo, uma academia de musculação pode abrir às 5h da manhã, a grande maioria de nós só funciona no período da tarde”, situa ele. “Continuarmos fechados prejudica as escolas como um todo, porque o nosso público é aquele que sai do trabalho, da faculdade, dos colégios no período da manhã, para poderem estar na academia com seus respectivos horários”.

Legenda: Organização no Ballet Hugo Bianchi para retorno das atividades presenciais
Foto: Divulgação

O gestor também sublinha que, diferentemente de outros tipos de negócio no segmento, as academias de dança não compartilham aparelhos entre os alunos. Cada estudante leva o seu próprio material, de uso pessoal, algo que poderia otimizar a reabertura presencial das casas dedicadas a esse trabalho.

“Não é que nós não estejamos aliados às academias, só queríamos uma diferença na questão dos horários. A grande maioria das escolas de dança funciona a partir das 16h e vai até às 22h. E são turmas diferenciadas, com horários distintos, então não tem uma aglomeração dentro da escola. Todas as academias de dança dentro do protocolo estão bem cientes dos cuidados que devem tomar”, considera.

Reuniões e estratégias

Félix Ramazzotti destaca também que, conforme pesquisas realizadas pelas escolas de dança associadas, nenhum caso de Covid-19 foi constatado quando as mesmas funcionavam em esquema presencial, após a reabertura gradual das atividades econômicas ainda no ano passado. 

“Entre as aulas, a gente estabelece uma diferenciação de tempo, para que seja feita a assepsia das salas, limpeza das barras, entre outros procedimentos”, diz.

Todos esses pontos foram levados para uma reunião virtual ocorrida na última sexta-feira (23), na qual estiveram presentes o Procurador Geral do Município de Fortaleza, Dr. Fernando Oliveira, e representantes do segmento do esporte da Capital.

“As pessoas da prefeitura se mostraram bem atenciosas e demonstraram um maior cuidado diante do próximo decreto, para que esses pontos fossem colocados. O nosso lema é justamente este: tentar nos colocar no cenário de discussão, porque sempre obedecemos ou ao decreto das escolas públicas ou privadas ou o das academias de ginástica”, defende Félix Ramazzotti.

Legenda: Félix Ramazzotti destaca que nenhum caso de Covid-19 foi constatado nas escolas quando funcionavam em esquema presencial, no ano passado
Foto: Thiago Gadelha

“A gente nunca teve o nosso espaço e a nossa associação está conseguindo isso, mostrar para a população e para os gestores que existimos enquanto instituições e trabalhamos seriamente na educação e na postura dos alunos – não somente cuidando da saúde física, mas, principalmente, da saúde mental, uma vez que muitas crianças e jovens estão entrando em depressão por não poderem sair de casa”, completa.

Melhor acompanhamento

Essa dimensão ecoa na fala de Mônica Luiza, diretora e idealizadora do Centro de Ballet Clássico que leva seu nome. Ela defende que o acompanhamento presencial é muito importante para todas as artes, principalmente no caso da dança considerando a existência de “todo um espírito, uma alma voltada para essa atividade”.

“O ballet não é só técnica. E o computador, a internet, são coisas muito frias, distantes. Os adultos e adolescentes ainda conseguem manter um pouco mais de tempo dedicados à atividade até pela consciência que a pessoa mais velha tem, de conservar o físico. Mas as crianças, elas não aguentam”, relaciona.

Nesse sentido, a gestora conta que há uma preocupação pela perda do interesse dos pequenos, até para voltar ao presencial. Em termos quantitativos, o próprio Centro de Ballet Clássico Mônica Luiza, por exemplo, com três sedes em Fortaleza, já sente um grande impacto nas quase 100 crianças e adolescentes matriculadas na instituição.

“A gente perde muito. Às vezes, o adulto diz, ‘por que eu tenho que pagar o valor de um presencial se eu estou on-line?’. Há uma desvalorização automática quando você passa para o on-line, que não é uma coisa difícil de saber. Você perde mesmo”, lamenta a diretora.

Legenda: Diretora do Centro de Ballet Clássico Mônica Luiza defende que o retorno presencial das aulas otimizará um melhor acompanhamento físico e mental dos estudantes
Foto: Thiago Gadelha

“Os impactos, então, são vários: físicos, mentais, financeiros. Nós temos que optar pelo que pagar, e optamos pelos nossos professores, pelas pessoas. O resto vai ficando, até a Lei Aldir Blanc chegar de novo e dar uma ajuda pra gente. Mas é voltar e tentar recuperar o que foi deixado para trás. O mais importante são as pessoas, porque têm que comer, viver, são indivíduos junto da gente”, complementa.

Não à toa, ainda que o novo decreto venha a liberar as academias de dança para aulas presenciais, é importante, segundo ela, a atenção para com o horário de funcionamento dessas casas.

“Nós somos cursos extras, somos depois das escolas, do trabalho, depois de tudo. Se a gente tiver que fechar às 18h, para nós vai ser um horror, porque vamos recuperar algumas pessoas, mas não todas. Claro que tudo nesse momento é positivo, mas não é satisfatório”.

Estimular a participação

Localizado no bairro Maraponga, em Fortaleza, o Studio de Dança Mainara Albuquerque é outro estabelecimento no ramo que vive em uma situação semelhante. Conforme a diretora e idealizadora da instituição, Mainara Albuquerque, a relevância do retorno presencial se dá sobretudo porque a dança vai além da movimentação física.

“Lidamos também com questões envolvendo problemas em casa. Os pais sempre procuram a gente quando a criança está com falta de atenção, depressão, ansiedade. Temos muitos casos assim por aqui”, menciona.

Desta feita, o esforço para que os estudantes continuem – ainda que somente diante da tela do computador e distante dos outros colegas e dos professores – é grande. Mainara situa que dos 200 alunos que o Studio possuía antes da pandemia, agora somente por volta de 50 continuam matriculados.

“Tem turmas que já estão fechadas, como aquelas para bebês, as preliminares, que é mais difícil ainda de conciliar. Assim, o pagamento dos funcionários da escola fica extremamente inviável. A gente não está deixando de pagar, mas as minhas contas estão atrasadas, cancelei cartões de crédito, estou fazendo de tudo para honrar meu compromisso com os professores, mas está chegando num ponto que eu não sei se vou continuar conseguindo”, confessa.

E completa: “Eu não sei o que eu vou fazer a partir de segunda-feira se a escola não abrir porque, toda semana, tem pais que a gente segura dizendo que vai abrir na semana seguinte. Realmente, vai ficar mais difícil ainda. A gente perde a credibilidade, já que tem shoppings abertos e restaurantes aglomerando, e nós trabalhando com tudo certinho. Eu fico extremamente triste e revoltada com isso”.

Félix Ramazzotti reitera a questão ao afirmar que a Associação das Academia de Dança do Ceará está mantendo o foco no alinhamento do protocolo que montou e tentando mostrar a importância da entidade e dos estabelecimentos a ela filiados.

Legenda: Mainara Albuquerque situa que dos 200 alunos que a escola possuía antes da pandemia, agora somente por volta de 50 continuam matriculados
Foto: José Leomar

“O nosso entendimento hoje não é a ‘loucura’ de abrir – uma vez que queremos e precisamos abrir – mas a responsabilidade de reabrir e manter esse protocolo pelo período necessário que essa pandemia exigir. Temos que aprender a conviver com o vírus, a nos proteger e proteger os nossos alunos. Então, vamos continuar firmes, tentando mostrar o nosso espaço e o nosso protocolo, que vem funcionando durante toda a pandemia desde o ano passado, quando foi permitida a reabertura do comércio”, conclui.