Dom Aloísio sabia que era monitorado
O arcebispo Emérito de Aparecida (SP), dom Aloísio Lorscheider, foi uma das principais lideranças religiosas do Ceará e teve uma atuação importante no que se refere ao socorro de pessoas perseguidas durante a ditadura militar. Em entrevista ao Diário do Nordeste, ele conta que, na época, foi informado que seu nome estava na lista “negra” das autoridades e tinha consciência de que era monitorado por militares. Ainda assim, continuou seu trabalho. “Continuava a cumprir o meu dever e a defender quem eu julgava que deveria defender”, acrescenta. Veja abaixo os principais pontos da entrevista.
Diário do Nordeste - Qual a opinião do senhor quanto à abertura dos documentos referentes ao período da ditadura militar?
Dom Aloísio - Penso que as competentes autoridades deveriam decidir este assunto. É um assunto difícil e delicado. Há diversos aspectos a serem tomados em consideração.
— Por que alguns setores da Igreja Católica resolveram apoiar os opositores ao governo dos militares?
Dom Aloísio -Infelizmente a Revolução de 1964 que, à primeira vista, inspirara muita confiança e fora vista positivamente com a esperança de se superar no Brasil, especialmente, no campo político, a corrupção, perdeu o rumo e entrou por um caminho não desejado. Além do mais, esperava-se a volta à ordem democrática dentro de pouco tempo. Como nada disso foi acontecendo, intensificando-se a tortura, o desaparecimento de pessoas, a cassação de pessoas eminentes, começou a fazer-se sentir claro a oposição.
—- Como ocorria esse apoio?
Dom Aloísio - Esse apoio ocorria através de contatos freqüentes com as autoridades de então, num diálogo sempre mais franco, para conseguir a superação do que estava angustiando todo o povo brasileiro.
— Quais as ações efetuadas pelo senhor no sentido de ajudar aos combatentes da ditadura?
Dom Aloísio - Esta pergunta de ajuda aos combatentes pode ser mal-entendida. Por isso respondo como consigo entendê-la. Na época eu era secretário geral da CNBB. Procurei contatos com as autoridades de então; fazia chegar os protestos contra as arbitrariedades e as injustiças que estavam sendo cometidas e das quais tínhamos notícia. Além disso, atendia as pessoas que, no Rio de Janeiro, procuravam a CNBB para ajudá-las e apoiá-las na situação aflitiva em que se encontravam.
—- A repressão da ditadura militar atrapalhou as ações evangelizadoras dos religiosos integrantes das Comunidades Eclesiais de Base e de outros setores progressistas da Igreja?
Dom Aloísio - A repressão teve os seus efeitos negativos para as Comunidades Eclesiais de Base. Teve, porém, também um efeito muito positivo que foi a maior união dentro dos vários setores eclesiais.
— Padres chegaram a desistir de trabalhar em prol dos mais necessitados com medo de serem qualificados de “comunistas”?
Dom Aloísio - Não tive notícias de que isto tenha acontecido. Os padres até foram admiráveis. Não se intimidaram e continuaram a auxiliar as pessoas atingidas da melhor maneira possível.
— O regime militar chegou a colocar em risco o modelo de Igreja defendido pelo senhor através da Teologia da Libertação?
Dom Aloísio - O regime então vigente não colocou em risco a ação da Igreja. Teve, antes, um efeito muito positivo: colaborou, sem se dar conta, na unidade da Igreja na época.
— Temos informações de que vários padres e até mesmo bispos foram monitorados pelo militares. O senhor acredita ter sido alvo de algum tipo de vigilância ou existia, pelo menos, a desconfianças de estar sendo vigiado?
Dom Aloísio - Não há dúvida de que tínhamos consciência de estarmos sendo vigiados. Um dia, vindo eu de Brasília, onde fora falar com pessoas do governo, um alto funcionário do Ministério da Justiça me disse que o meu nome se encontrava na lista “negra”. Quando já era arcebispo de Fortaleza e, ao mesmo tempo, presidente da CNBB, eu era monitorado, sim, mas não me impressionava. Continuava a cumprir o meu dever e a defender a quem eu julgava que deveria defender.
— O senhor acredita que a cúpula da Igreja tinha noção de que padres e até bispos eram monitorados pelo regime militar?
Dom Aloísio - A cúpula da Igreja tinha noção sim. Em Fortaleza, eu mesmo ia às paróquias para apoiar os padres sobre os quais havia mais desconfiança. Como era presidente da CNBB, voei um dia para a região do Araguaia para dar apoio ostensivo a um bispo que corria ameaça de ser expulso do País e para dar apoio aos agentes de pastoral daquela Diocese.
— O senhor acredita que agentes foram infiltrados dentro da Igreja?
Dom Aloísio - Pode ser que sim, mas disso não tenho nenhuma prova. Sei que por vezes gravavam sermões de padres e de bispos. Mais não sei.
— Quais foram os segmentos mais prejudicados com a ditadura militar?
Dom Aloísio - Os segmentos mais prejudicados foram as organizações da pastoral social, o que significa precisamente os mais pobres, sobretudo as organizações operárias.
— Caso tenha mais alguma consideração...
Dom Aloísio - A única consideração que teria a fazer é que todos se esforçassem para termos uma democracia bem participativa de sorte que nunca mais se tornasse necessário ou corrêssemos o risco de uma suspensão dos direitos democráticos das pessoas. Infelizmente num regime de exceção como vivemos de 1964 a 1985, evitam-se dificilmente as arbitrariedades e injustiças. Eu não jogaria tantas pedras sobre os militares. Eles muitas vezes executavam ordens. Mas não se pode esquecer que havia também muitos civis comprometidos e apoiavam a situação.
Antônio Simões