Diálogo e rotina são essenciais para crianças durante quarentena

Para que os pequenos compreendam a situação de pandemia do novo coronavírus e não sejam afetados pelo medo, especialistas indicam conversa para orientar e sanar as dúvidas , além de estruturar uma rotina na quarentena

Legenda: O isolamento social para a criança pode ser mais difícil de ser compreendido
Foto: Foto: Fernanda Siebra

A vivência em isolamento, causada pela pandemia da Covid-19, provoca ainda mais questionamentos sobre como lidar com as crianças nesse período, protegendo-as, mas sem prejudicar seu desenvolvimento nem as tornar alheias à situação.

As primeiras questões abarcam a própria compreensão acerca da pandemia do coronavírus: como explicar para as crianças? De acordo com o doutor em Psicologia e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Lucas Bloc, a explicação deve ser feita de acordo com a idade. "Às vezes, a gente tem uma falsa ideia de que as crianças não entendem as coisas, mas elas percebem a nossa tensão, o estresse, e às vezes, o noticiário. Então a primeira coisa é utilizar esse contato pra falar sobre o assunto de uma forma lúdica, por exemplo", diz.

Ele pontua que crianças de até três ou quatro anos têm maior dificuldade para compreender o que significa adoecer, uma gripe, e como isso afeta as pessoas. "Quando a gente chega a uma idade entre a infância e a adolescência, eles já estão muito ligados nas redes sociais e na Internet, e aí que a atuação dos pais precisa ser mais assertiva, de conscientizá-los e orientar, e propor atividades em casa".

Um guia, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), sugere abordar os pequenos, convidando-os a falar sobre o assunto, descobrindo quais dúvidas eles têm e o quanto já sabem sobre o tema. Conforme a publicação, é preciso deixá-los seguros para conversar com o adulto, ressaltando que é normal sentir medo. Caso a criança seja muito nova e não tenha ouvido falar sobre o coronavírus, reforce sobre boas práticas de higiene.

O grande desafio, segundo o psicólogo, é minimizar o impacto da grande ruptura que acontece atualmente. Pai de um menino de dois anos, o especialista aponta como ponto positivo, neste momento, a vivência em família.

"Uma das coisas que eu acho importante é a gente se respeitar como pais, inicialmente. Que evitem o excesso de informações, que acaba afetando tanto eles quanto os filhos, psicologicamente, e não se martirizar tanto, não se culpar porque em algum momento vai recorrer a algo que normalmente não faria, como deixar o filho usar o celular. E uma última recomendação seria o diálogo em família, que protege e permite que todo mundo enfrente a situação juntos", avalia.

Construindo a rotina

A manutenção da rotina é essencial para as crianças durante o período de isolamento, conforme análise da psicopedagoga Ticiana Santiago, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC). Manter os horários de dormir e de se alimentar torna-se particularmente necessário porque é dessa forma que os pequenos constroem a noção de tempo, regulando a passagem das horas e dos dias da semana.

Ela recomenda desenhar um quadro e ir construindo a rotina, especificando o que deve ser feito a cada dia, de forma a estimular as crianças a se autorregularem. "Isso acaba contribuindo para a dinâmica da própria família, então é uma atividade simples, mas que pode ser feita com todos os familiares, para que as crianças entendam", explica.

A psicopedagoga enfatiza, ainda, a importância de manter algumas atividades-padrão básicas da rotina antiga para manter um sentimento de segurança nas crianças. Ela acrescenta que deve ser proporcionado um momento para a ludicidade, que pode incluir a contação de histórias, música, e o uso de brinquedos que as crianças tenham. "A brincadeira é um recurso muito importante para o desenvolvimento e pra elaboração dos medos e angústias delas, que podem ser expressados", diz.

Também é essencial manter atividades que tenham movimento para o corpo. "Tem yoga para crianças, tem treinamentos, circuitos que você pode fazer em casa. A criança se expressa muito pelo movimento. Ela tem muita energia, e se não gastar esse acumulado, não vai dormir bem", detalha Ticiana Santiago.

Já em relação às atividades educativas, ela ressalta que, embora muitas escolas elaborem modelos e tarefas e enviem para os pais, é necessário ter atenção para que as crianças não fiquem limitadas ao conteúdo, mas explorem a experiência educativa. "São jogos pedagógicos, literatura, construção, experimentos, a própria culinária. Por exemplo, quando for fazer um bolo, quantas xícaras de farinha é pra usar? Trazer isso para o cotidiano delas".

Proteção

O cuidado em relação à proteção deve acontecer sem pavor. "As atividades de higiene devem ser feitas com tranquilidade, colocando como processo de saúde. Deve-se explicar para as crianças o que é saúde", sugere. Ou seja, ensinar que é preciso lavar as mãos com água e sabão regularmente e usar o álcool em gel como forma de proteção às doenças. O não sair de casa, por exemplo, deve ser explicado como forma de garantir o não adoecimento.

Já para quem tem muitos filhos em casa, é importante reservar um momento para cada um deles, para que, além das atividades em conjunto, possam se sentir singularizados e se expressar diante de uma dificuldade ou de um novo aprendizado. No que diz respeito à coletividade, a família pode propor à criança de algo em conjunto, como uma 'obra de arte', um jogo ou uma comida.

A psicopedagoga Ticiana Santiago sugere, ainda, a aproximação com os membros idosos da família, uma vez que o contato com avôs e avós é benéfico também para a saúde mental de pessoas com idade avançada. "Ver fotografias, imagens antigas, escrever uma cartinha e mandar para eles. É muito importante cuidar da saúde mental deles, mesmo sem o encontro presencial".

Recursos

Cada atividade na família da dona de casa Renata Teixeira, 37, é pensada em triplo. Ela relata que escolheu abordagens diferentes para explicar aos filhos Daniel, 7, Bernardo, 4, e Lara, 2, sobre o novo dia a dia em isolamento. "Com o mais velho, a gente já procura conversar com ele sobre a situação, até porque a gente sabe que é uma coisa que ele vai levar para o resto da vida, vai poder contar para os filhos dele que viveu a época do coronavírus e que não podia sair de casa", diz. Por um lado, ela percebe a dificuldade em fazer as crianças entenderem a restrição de não sair para brincar com os amigos no parquinho do residencial.

No caso de Daniel, a escola tem enviado tarefas online para serem feitas em casa, o que, segundo Renata, ajuda a manter a rotina. "É um pouco mais flexível. Ele tem podido jogar videogame, o que não fazia durante a semana. Mas de tarde, no horário em que ele normalmente estaria na escola, ele senta pra fazer as tarefas. Tem o lado positivo, que é poder estar bem mais perto deles".

Ela explica que tem aproveitado recursos online para diversificar a programação em casa, como o curso gratuito de desenho. Para os mais novos, são oferecidos vídeos ao vivo de contação de histórias pela rede social Instagram que, segundo a dona de casa, são uma oportunidade de entreter as crianças.

Com viagem para a Ásia marcada, Renata conta que, antes de iniciar o período de isolamento, os colegas de classe de Daniel comentavam o assunto. "Eu conversei bastante com ele, essa questão de não deixar as pessoas colocarem tanto medo nele. Ele perguntava 'mãe, a gente vai pegar coronavírus?'", lembra.

A viagem foi cancelada, e os avós das crianças, que moram em outro Estado, viriam para passar uma temporada com os netos. Essa vinda, porém, também foi cancelada. "Minha mãe é um caso suspeito, vai até fazer o teste. Então, eles sentiram mais essa falta dos avós", revela.

Orientação deve priorizar linguagem da criança

Um desafio ainda maior é fazer com que crianças com autismo compreendam a vida na quarentena. Deixar de ir à escola, restringir contatos físicos e ficar momentaneamente sem terapia psicológica. Ações necessárias no momento devido à pandemia de coronavírus, mas que quebram padrões de rotinas e, no caso das crianças com autismo, essa interrupção demanda maior atenção dos pais. A pedagoga Fernanda Cavalieri, integrante da Associação Fortaleza Azul explica que para proteger as crianças é necessário nas tentativas de orientação, sobretudo, adotar linguagens que façam sentido e facilitem o entendimento.

"Algumas crianças com autismo têm deficiência intelectual também, então temos que facilitar essa linguagem. E ao mesmo tempo, eles têm facilidade com os sistemas visuais. Então, através de história, de vídeos se torna de fácil compreensão para eles para explicar sobre o coronavírus". De acordo com ela, uma das estratégias é explicar de forma concreta, através de desenhos, por exemplo, atitudes práticas como a necessidade de ficar em casa e de lavar as mãos.

Esse público, enfatiza Fernanda, acaba sendo vulnerável por não terem tanto noção de perigo, de riscos e distanciamento. "Meus filhos são muito próximos, muito carinhosos e também têm uma busca oral muito forte devido à questão sensorial. Então, querem colocar coisas na boca. Passa a mão em objetos e depois põe na boca. É um risco por conta da higiene, não sabe se esquivar se alguém tossir próximo", explica.

Para crianças com autismo, manter a rotina é ainda mais importante. "Temos que tentar manter a rotina deles o mais próximo possível do cotidiano. Rotina de sono, de alimentação, horário de fazer tarefa mais didática na hora que geralmente vai para a escola. Manter muito próximo".

Mas, ainda assim, explica Fernanda Cavalieri, apesar das tentativas dos pais de tentarem garantir rotinas semelhantes aos dias de normalidade, muitas crianças com autismo têm entrado em crise nas últimas semanas, pois não conseguem compreender as limitações de circulação, as restrições de encontros e a suspensão das atividades escolares.