Dia do livro infantil: bibliotecas comunitárias se reinventam para continuarem existindo

Contações de histórias e oficinas de escrita e leitura foram atividades que precisaram ser oferecidas virtualmente com a pandemia da Covid-19

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Legenda: Sede da Biblioteca Viva, localizada no bairro Barroso, periferia de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

No Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado neste domingo (18), as prateleiras de muitas bibliotecas comunitárias de Fortaleza continuaram lotadas de livros, mas as crianças que as exploravam não podem mais frequentá-las devido à pandemia da Covid-19.

Contudo, mesmo com as portas fechadas, o amor pelos livros consegue entrar nas bibliotecas Livro Livre Curió, localizada no Curió; na Biblioteca Viva, no Barroso; e a Sorriso da Criança, no bairro Presidente Kennedy. As três se reinventaram e transformaram seus espaços de leitura em locais de amparo.

As rodas de contação de histórias presenciais foram remanejadas para os quadradinhos das transmissões ao vivo, para substituir as atividades desenvolvidas pelo Livro Livre Curió, que passou a promover o Clube de Leitura virtual, com lives no Instagram todas as quartas-feiras.

Além de outras atividades como oficinas, cursos, palestras que foram adaptadas para o remoto. “Tudo isso para não deixar a biblioteca parar, como também mostrar para sociedade civil o nosso trabalho”, explica Talles Azigon, idealizador do projeto. 

Antes da pandemia, mais de 600 livros eram emprestados pela Biblioteca Viva. Mas como seu nome já sugere, a biblioteca continua respirando. O responsável pelo projeto, Raphael Rodrigues, afirma que ainda são feitos os empréstimos, sendo possível fazer a retirada na casa dele.

No entanto, diversas atividades tiveram que ser suspensas, como as oficinas de escrita, desenho e xadrez. “A biblioteca é importante como um ponto de intervenção urbana. Ela é um ponto de cultura. Aqui temos várias atividades que infelizmente não estão ocorrendo por conta da pandemia”. 

Uma pergunta constante que as crianças fazem a Alilian Gradela, organizadora da Sorriso da Criança, é quando a biblioteca irá abrir novamente, “elas querem vir até porque sentem falta desse espaço de acolhimento”.

Em decorrência da pandemia, a biblioteca teve que, forçosamente, resumir-se ao virtual. As ações são realizadas diariamente pela instituição, incluindo indicações de livros e contação de histórias. No entanto, o acesso à internet e a legibilidade do celular são problemáticas para esse novo formato.

“As crianças estão recebendo atividades de formação para realizar em suas casas e elas estão dando um bom retorno. Mas sabemos da dificuldade de internet e fazer ver pelo celular também é difícil para as crianças e famílias de modo geral”, explica. 
Alilian Gradela
Responsável pela biblioteca comunitária Sorriso da Criança

Ponto de amparo 

A Biblioteca Viva também serve como referencial na cidade e ponto de recolhimento de cestas básicas para ajudar as famílias do bairro. Situação semelhante ocorre na Livro Livre Curió. Segundo Talles, essas bibliotecas comunitárias são um ponto de apoio para a própria comunidade. 

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Legenda: Sede da Biblioteca Viva, localizada no bairro Barroso, periferia de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

"As pessoas que se interessam em doar alimentos, produtos de limpeza, elas veem as bibliotecas comunitárias como ponto de confiança e de segurança. Elas sabem que temos um trabalho muito sério, muito digno. Muitas dessas doações são entregues nas bibliotecas, para que os organizadores distribuam no bairro”, detalha.

Quase fechada

Quando questionado sobre o ano mais difícil para o Livro Livre Curió, desde seu surgimento em 2018, Talles Azigon, idealizador do projeto, afirma ter sido o ano de 2020. A biblioteca era mantida a partir do salário dele, que trabalha com produção cultural. “A primeira coisa que aconteceu com a pandemia foi o cancelamento de todos os meus trabalhos e eu fiquei sem orçamento pessoal. Logo, a biblioteca ficou em grande perigo de ser fechada”, explica.

Sem suporte financeiro para sobreviver e para manter a biblioteca, Talles chegou a pensar em fechar as portas para sempre. No entanto, optar pelo fechamento era causar um impacto negativo para um público já muito vulnerável.

“A comunidade seria ainda mais prejudicada, se não existisse a biblioteca, por isso decidimos resistir a tudo que acontecesse, se abandonássemos a biblioteca, abandonaríamos um monte de crianças pelo caminho e muitas delas já são tão abandonadas”, afirma. 

Para não encerrarem suas atividades, a Livro Livre Curió passou a recolher doações por meio do apoia.se/livrolivrecurio, participação em editais culturais como o da Lei Aldir Blanc e também desenvolvendo oficinas pagas. 

 

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