Covid-19: subnotificação de casos e mortes mascara impacto no CE

Registro de óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave no Estado, por exemplo, cresceu 46 vezes em relação a 2019, subindo de sete para 321, entre março e maio; especialista aponta importância de testagem e análises clínicas

Legenda: Ceará já registra 2.493 mortes desde o início da pandemia. Há 771 óbitos suspeitos
Foto: FOTO: PAULO ALBERTO

Se o Ceará fosse um país, estaria entre os 30 mais infectados do mundo pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), e seria a 19ª nação em número de óbitos por Covid-19. O Estado já ocupa o terceiro lugar em confirmações e mortes pela doença no Brasil, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro. O impacto da infecção, porém, pode ser ainda maior: números altos de internações e mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e outras causas respiratórias podem indicar subnotificação da nova virose.

O Ceará já registra mais de 36 mil casos e 2.493 mortes por Covid-19, conforme a plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), até 17h40 dessa segunda-feira (25). Há ainda quase 47 mil casos em investigação, e uma parcela dos já analisados teve resultado inconclusivo.

Além disso, epidemiologistas apontam que a possível subnotificação de ocorrências de Covid-19 estaria nas entrelinhas de casos de SRAG, bem como de mortes registradas por outras causas respiratórias no Portal da Transparência do Registro Civil Nacional.

Entre 16 de março e as 16h do dia 25 de maio deste ano, já haviam sido registrados em cartórios do Ceará 321 óbitos por SRAG, 1.215 por pneumonia, 584 por insuficiência respiratória e 828 por septicemia (inflamação em todo o corpo), além de 2.707 por Covid-19. Ao total, somam-se ainda 39 mortes cujas causas não foram determinadas e 4.590 categorizadas como "demais óbitos", totalizando 10.284 vidas perdidas em dois meses.

No mesmo período de 2019, a soma foi de 8.153 mortes: sete por SRAG (46 vezes menos que em 2020), 1.813 por pneumonia, 672 por insuficiência respiratória, 989 por septicemia, 23 com causa indeterminada e mais 4.649 locadas em "demais óbitos".

Para o infectologista Érico Arruda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, "é natural que haja subnotificações" no contexto atual. "Independentemente da doença, há casos com manifestação diferente da usual, e nem sempre são percebidos. Mas podem evoluir com gravidade, em geral entre pessoas com outras doenças de base. A resistência coronariana de um cardiopata pode ser prejudicada por outra doença e ele morrer de infarto, mas o fator desencadeante não ser notado", exemplifica.

Mais casos

Sobre o aumento dos registros de mortes por SRAG e outras causas respiratórias no Ceará, o médico acrescenta que "não só é possível que haja muitos casos de Covid entre eles como é quase certo". "Seria estranho que tivéssemos o dobro de casos de SRAG de outras etiologias num mesmo momento da pandemia de Covid. Estudos com vários pacientes não mostram que temos uma sobreposição importante. Essa certamente é uma das ferramentas para perceber a subnotificação".

Érico aponta que ampliar a testagem "seria a maneira com mais acurácia" para obtermos números mais precisos de infecções, mas que outra saída seria valorizar os diagnósticos clínicos.

"Enquanto não tínhamos testes acessíveis para detectar HIV, por exemplo, trabalhávamos com critérios clínicos e epidemiológicos, e eles foram valorizados. No contexto da Aids, esse foi um dos critérios internacionalmente aceitos. E também vale para a Covid - com a dificuldade de obter testes, temos que ter outros mecanismos para identificar os casos, chegar aos números e preparar o sistema", opina.



Redação 03 de Julho de 2020