Bactérias do mangue cearense podem decompor resíduos de petróleo cru, diz estudo da UFC

Estudo visa acelerar recuperação do ambiente pela poluição por derramamento de óleo que afetou as praias do Nordeste há um ano e deixou resíduos da contaminação

Foto mostra praia com manchas de óleo
Legenda: Praia da Sabiaguaba teve registros de manchas de óleo; local é berçário de tartarugas.
Foto: José Leomar

Há quase um ano, as praias do Ceará começaram a receber as manchas de óleo que poluíram o Nordeste e deixaram resquícios, inclusive, invisíveis aos olhos. Desde então, amostras de bactérias do mangue cearense são analisadas como potencial forma de degradar resíduos de petróleo cru no ambiente marinho por pesquisa na Universidade Federal do Ceará (UFC).

O estudo pretende acelerar a recuperação natural do ambiente, que pode levar até 50 anos para deteriorar as substânciais prejudiciais para animais e seres humanos. Na pesquisa, coordenada pela professora Vânia Melo, do Departamento de Biologia da UFC, são feitos isolamentos das bactérias, formação de consórcios - com a união dos microrganismos -, testes com intervalos de 30, 60 e 90 dias, além da avaliação do potencial de degradação do material.

Foto mostra pesquisadora
Legenda: Pesquisadores reúnem esforços para entender como as bactérias podem decompor as substâncias poluente
Foto: Kilvia Muniz
 

Além disso, foram utilizadas amostras de outros ambientes contaminados e áreas atingidas pelo petróleo cru, que tiveram os microrganismos isolados e selecionados conforme o potencial de degradação, como explica Talita Tavares, pesquisadora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar). “A gente também avalia se elas conseguem produzir os chamados biossurfactantes, que é como se fosse detergentes naturais, que eles ajudam a emulsificar aquele óleo e facilitam o processo de degradação”, acrescenta.

Desde que as primeiras manchas começaram a aparecer, em agosto do ano passado, pelo menos 40 toneladas de petróleo cru e de resíduos foram removidas de praias cearenses, conforme a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema).

Foto mostra pessoas com manchas de óleo nos pés
Legenda: Manchas de óleo, em contato com a pele, registraram irritação. Substâncias tem potencial cancerígeno.
Foto: Natinho Rodrigues

No entanto, substâncias do poluente ainda estão na água e na areia, sendo motivo de preocupação para os pesquisadores. “Tem compostos mais volúveis, de tamanho menor, e esses compostos conseguem interagir com o ambiente, com a areia e com os microrganismos que estão ali de uma forma muito mais forte até que aquela porção que você enxerga”.

“Os perigos para a saúde humana são realmente grandes porque algumas dessas substâncias são, por exemplo, carcinogênicas, elas podem causar câncer. Realmente exige monitoramento. Se a gente tiver falando da saúde dos ecossistemas, elas podem afetar ovos de peixes, larvas e peixes adultos”

Para a realização dos testes em larga escala ainda é necessário avançar nos estudos e conseguir licença dos órgãos ambientais do Estado. “Nossa ideia é trazer um produto inovador onde a gente possa levar mais bactérias para o ambiente para acelerar essa recuperação e o que é mais importante é que a gente está usando tudo que é biodegradável, ecologicamente correto”, ressalta Talita. Além disso, o resultado é uma substância atóxica e que não se acumula no meio ambiente.

A pesquisa faz parte das 12 propostas aceitas no programa Entre Mares, iniciativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que recebeu 278 projetos de combate aos prejuízos da poluição por óleo. As áreas temáticas que foram priorizadas são: avaliação dos impactos ambientais e socioeconômicos, biorremediadores, dispersão do óleo, processamento de resíduos e tecnologia aplicada à contenção do óleo.

As propostas aprovadas terão financiamento de até R$ 100 mil, liberados em uma única parcela, e uma cota de bolsa de mestrado, de acordo com a Capes. Os projetos devem ser desenvolvidos ao longo de dois anos, podendo ser prorrogado por mais um ano.

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