O que é o Isis-K? Conheça o suposto inimigo do Talibã no Afeganistão

A organização terroristas reivindicou a autoria das duas explosões que aconteceram no aeroporto de Cabul na quinta-feira (26)

Soldado talibã monta guarda no local dos dois atentados suicidas de 26 de agosto, que mataram dezenas de pessoas, incluindo 13 soldados dos EUA, no aeroporto de Cabul em 27 de agosto de 2021
Legenda: Soldado talibã monta guarda no local de um dos dois atentados que mataram dezenas de pessoas, incluindo 13 soldados dos norte-americanos
Foto: WAKIL KOHSAR / AFP

Desde que o Talibã retornou ao controle do Afeganistão, milhares de cidadão desesperados tentam embarcar em voos e fugir do país. No entanto, em meio ao caos, surgiu outra ameaça: o grupo terrorista Isis-K — sigla em inglês para Estado Islâmico da Província de Khorasan (EI-K), vertente regional do Estado Islâmico (EI), que atua no país e no Paquistão.

Nesta quinta-feira (26), a organização reivindicou a autoria das duas explosões que aconteceram no aeroporto de Cabul, deixando pelo menos 13 mortos e 52 feridos, entre eles militares norte-americanos.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já havia mencionado na terça-feira (24) que a ameaça do Isis-K estava crescendo no país. 

"Cada dia que estamos no território [afegão] é mais um dia em que sabemos que o Isis-K está tentando atacar o aeroporto e atacar tanto os Estados Unidos quanto as forças aliadas", alertou. 

O que é o Isis-K?

A organização terrorista Isis-K é um braço regional do Estado Islâmico (também conhecido pela sigla em inglês Isis) que atua no Afeganistão e no Paquistão. 

Conforme informações da agência AFP, meses após o EI declarar um califado — modelo islâmico monárquico de governo, em que o chefe de estado, o califa, age como um sucessor da autoridade política e religiosa do profeta Maomé — no Iraque e na Síria, em 2014, combatentes que deixaram o Talibã paquistanês se uniram aos militares no Afeganistão para formar o braço regional. Eles juraram lealdade ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al Baghdadi. 

O Isis-K é considerado o mais extremo grupo de militares jihadistas — termo usado por acadêmicos ocidentais para se referir aos muçulmanos sunitas violentos.

Segundo a BBC, a organização recruta afegãos e paquistaneses, especialmente desertores do Talibã, que não consideram a organização antiga extrema o bastante

Além do ataque ao aeroporto de Cabul, o grupo é apontado como autor das piores atrocidades dos últimos anos na região, tendo como principais alvos escolas femininas, hospitais e até mesmo uma maternidade. 

Diferente do Talibã, que possui uma atuação mais direcionada ao Afeganistão, o Isis-K integra a rede global do Estado Islâmico, que tem realiza ataques principalmente a ocidentais e humanitários

"Khorasan" é um nome histórico que se refere a região que inclui o território onde fica atualmente Paquistão, Irã, Afeganistão e Ásia Central, segundo a AFP. 

A base da organização está localizada na província afegã de Nangarhar, próximo à fronteira com o Paquistão, conforme a BBC. Monitores da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que o grupo também está presente no território paquistanês e na capital do Afeganistão, Cabul. 

Durante o auge, o Isis-K contava com cerca de 3 mil combatentes, mas sofreu baixas significativas após confrontos com forças de segurança norte-americana, afegãs e com Talibã.

Qual é o objetivo do Isis-K?

O principal objetivo do grupo jihadista, assim como todos os outros do movimento, é expandir o islã e contrapor-se ao perigo que pode atingi-lo. Conforme a BBC, os muçulmanos têm, a rigor, o objetivo de reordenar o governo e a sociedade conforme a lei islâmica, chamada Sharia.

Porém, os jihadistas acreditam ser através da violência que conseguirão erradicar obstáculos para a restauração da lei de Deus na Terra e para defender a comunidade muçulmana, conhecida como umma, contra infiéis e apóstatas — pessoas que deixaram a religião.  

Muçulmanos não costumam utilizar o termo "jihadista", pois muitos acreditam que se trata de uma associação incorreta entre um conceito religioso nobre e a violência ilegítima. Em vez disso, eles empregam o termo "pervertidos", com a ideia de que muçulmanos envolvidos em atos violentos se desviaram dos ensinamentos religiosos.  

Inimigo do Talibã? 

O grupo terrorista acusa o movimento radical que domina o Afeganistão de abandonar o Jihad e o campo de batalha ao fechar um acordo de paz com os Estados Unidos, em fevereiro de 2020. Segundo o Isis-K, os talibãs negociaram em "hotéis chiques" de Doha, no Catar.

Conforme a BBC, os militares do braço do Estado Islâmico representam um grande desafio de segurança do governo Talibã. 

No entanto, as duas organizações já chegaram a atuar juntas, através de um terceiro grupo, a rede Haqqani — que é atualmente ligada ao Talibã. 

Conforme o pesquisador da Fundação Ásia-Pacífico, que monitora as redes militantes no Afeganistão há anos,  Sajjan Gohel, "vários ataques importantes entre 2019 e 2021 envolveram a colaboração entre a Isis-K, a rede Haqqani e o Talibã, além de outros grupos terroristas baseados no Paquistão", relatou à BBC.

Ao assumir Cabul, no último dia 15 de agosto, o grupo libertou um grande número de detentos da prisão de Pul-e-Charki — onde estariam alguns combatentes do Estado Islâmico e da Al-Qaeda. 

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