Advogado acusado de matar Jamile filmava agressões a ex-namorada; veja vídeo

A Polícia Civil pediu pela prisão do advogado Aldemir Pessoa Júnior, há mais de um mês. Um impasse na Justiça interfere na decisão em aceitar ou não o pedido de prisão

Escrito por Emanoela Campelo de Melo e Jéssica Costa, seguranca@svm.com.br

Segurança
aldemir
Legenda: Aldemir nunca foi preso pela morte da empresária Jamile
Foto: Helene Santos

Sob a certeza da impunidade e na tentativa de descredibilizar a moral da vítima, o advogado Aldemir Pessoa Júnior teria filmado as próprias agressões protagonizadas por ele contra a ex-namorada. A reportagem do Sistema Verdes Mares teve acesso a um vídeo, no qual a mulher, atualmente com medida protetiva contra o suspeito, é ameaçada e agredida fisicamente.

Nas imagens, a vítima, também advogada, é vista no chão, encolhida próximo a uma parede tentando se defender do agressor, que filma a ação. Ela chega a pedir que o homem pare de violentá-la.

VEJA AS IMAGENS:

Consta em documentos obtidos pela reportagem que a mulher, de identidade preservada, falou que no dia da filmagem estava sob efeito de medicamentos para dormir. Segundo ela, só soube que foi filmada naquela condição, quando o vídeo chegou ao conhecimento da própria mãe.

A reportagem apurou que Aldemir teria encaminhado as imagens para a ex-sogra, como mais uma tentativa de ameaçar toda a família. A defesa do suspeito foi procurada para se posicionar, mas não se pronunciou até a publicação desta matéria.

RELACIONAMENTO PERTURBADOR

O Sistema Verdes Mares também obteve áudios, nos quais o suspeito diz que a ex virou uma inimiga. Ele revelou por meio de conversas com a ex-namorada que teria assassinado a empresária Jamile Oliveira, em 2019

"Você é um comportamento muito parecido com Ana (inaudível). Aprendeu isso ai ou gosta de fazer ciúme. Não sei qual é a sua. Marrapaz! No dia que eu encontrei a r,,,.. da Jamile eu dei um chute no c.. dela que ela foi parar na p..., ela. Ela ficou zonza, tá certo? Me separei de você em menos de uma semana. Posso ter me fudido, mas podia tá muito bem. E eu não medo de me arriscar. Então, por exemplo, eu fico quietinho aguentando, mas na hora que eu arrochar... Menina! Tu não tem noção"

Em determinado trecho dos áudios, Aldemir Pessoa diz: "não é ameaça não, cara. É um aviso. Eu adoro a concorrência. Eu adoro a guerra. Eu sou o rei da guerra, eu adoro, eu amo. Eu rezo, porque eu amo o inferno. Vai te f... rapaz!.

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Legenda: Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, a advogada disse que também era agredida enquanto dormia
Foto: Reprodução

"Viramos inimigos, ok? Viramos inimigo. Fique tranquila, que nos vamos ser mais inimigos ainda. Tá joia? Não se preocupe. Estou pronto para ser seu inimigo ok?"

PEDIDO DE PRISÃO

A ex-namorada denunciou Aldemir às autoridades no último mês de maio, após uma discussão na casa dela, quando "achou que seria morta ali mesmo".  A Polícia Civil do Ceará pediu pela prisão do advogado suspeito dos crimes de lesão corporal qualificada pela violência doméstica, difamação e violência psicológica.

O Ministério Público do Ceará (MPCE) se manifestou a favor do pedido de prisão, mas a Justiça ainda não decidiu. Um impasse em qual Vara o processo deve tramitar interfere no andamento do pedido.

Primeiro, o caso foi encaminhado para o 1º Juizado da Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. A juíza considerou que não há competência deste Juízo apreciar o feito e sugeriu a remessa dos autos para a comarca de Eusébio, porque seria lá o cenário dos crimes.

No dia 1º de julho, o juiz do Eusébio também suscitou conflito negativo de competência. Segundo ele, os crimes ocorreram de maneira continuada e permanente, embora em jurisdições distintas. Com isso, declarou incompetência para conhecer a causa.

A reportagem questionou o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) sobre a apreciação do pedido de prisão. Em resposta, o TJ afirmou por nota que: "desde que os autos foram remetidos à Vara Criminal da Comarca de Eusébio, houve a realização de atos e procedimentos processuais, como intimar o Ministério Público para apresentar manifestação, além de petição (pedido) protocolada. Ou seja, o processo seguiu em andamento. Os autos serão encaminhados ao Tribunal de Justiça para análise do conflito de competência entre as comarcas. Mais informações não podem ser repassadas, pois o processo tramita em segredo de Justiça".

Enquanto isso, o suspeito segue em liberdade.

Em paralelo, Aldemir Pessoa também possui processos administrativos disciplinares em andamento no Tribunal de Ética e Disciplina da OAB Ceará. "Tramitam em sigilo até seu término, em atenção ao art. 72, §2º do Estatuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados do Brasil, só tendo acesso às suas informações as partes, seus defensores e a autoridade judiciária competente", declarou o órgão.

CASO JAMILE

Conforme denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), Aldemir é responsável pela morte da empresária Jamile de Oliveira Correia. Ele foi denunciado pelo feminicídio, lesão corporal, fraude processual e porte ilegal de arma de fogo.

Quando Jamile deu entrada no Instituto Doutor José Frota (IJF), a suspeita é que ela havia tentado suicídio. O caso foi comunicado à Polícia Civil, que passou a tratar o fato como feminicídio. A tese passou a ser considerada pelos investigadores comandados pela delegada Socorro Portela e o adjunto da distrital Felipe Porto.

Em setembro de 2019, um dos laudos da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) apontou que o DNA da empresária só foi encontrado na extremidade do cano da pistola calibre 380. De acordo com o laudo, no restante da arma foram encontrados material genético de Aldemir e do policial civil responsável por apreender o objeto parte da investigação.

No fim de setembro aconteceu a reprodução simulada dos fatos. O adolescente filho de Jamile participou da reconstituição, mas Aldemir não.

Para o Ministério Público, "levando-se em consideração tudo apresentado na presente peça processual, bem como o comportamento do réu durante toda a investigação, a dúvida que resta é se, quando do novo ataque proferido por Aldemir, dentro do closet, ele agiu com dolo direto ou eventual em gerar a morte da vítima, não restando dúvida, pois, da existência do dolo". 

Legenda: A empresária Jamile Correia morreu por volta de 7h do dia 31 de agosto, no IJF
Foto: Foto: Reprodução

Sobre a acusação de fraude processual, o órgão apontou que Aldemir tentou atrapalhar a investigação inovando "artificiosamente, em elementos probatórios e informativos". Um dos fatos recordados na denúncia foi o momento que o acusado deu ordens ao porteiro do prédio residencial para que o porteiro limpasse as manchas de sangue e que a diarista limpasse todo o apartamento.