Versos do poeta formam memória caririense
Crato (Sucursal) — Dizem que, fugindo da seca, em cima do caminhão pau-de-arara, o poeta popular Zé de Matos se despediu do Crato com o seguinte verso:
Adeus cidade do Crato
Quereres de minha vida
Levo saudade de ti
Rapadura e rapariga
Se longe eu não me acabar
Te juro por Zé de Mato
Que um dia ei de voltar
Minha cidade do Crato
Quando chove no sertão
Já choveu no Cariri
Na terra, muito feijão
Na serra, muito pequi
Quando a cana pendoar
Quando o arroz fulorá
E o milho der espiga
Voltarei presta fartura
Para mexer com as rapaduras
E gastar com rapariga
Numa conversa de pé de balcão, entre um gole e outro de cachaça, o poeta foi convocado a dar sua opinião sobre a ressurreição de Jesus Cristo e improvisou o seguinte verso:
Eu li num livro sagrado
Que Jesus rei da Judéia
Por José de Arimatéia
Foi num sepulcro enterrado
Ali foi posto e selado
Mas a pedra revirou
O corpo se levantou
Saiu andando feliz
Só um ateu é quem diz
Cristo não ressuscitou.
Noutra oportunidade, quando participava da festa de Jesus do Bonfim, padroeiro do vilarejo de Saco do Martim, Zé de Matos se excedeu na bebida e terminou sendo preso. Era o primeiro preso que inaugurava a recém construída cadeia do vilarejo que ainda estava no escuro. Não tinha, sequer, a luz de um candeeiro. Ao botar o pé no batente da cadeia, o poeta surpreendeu os policiais com este verso:
Senhor Jesus do Bonfim
Nesse escuro sem cadeia
Vim batizar a cadeia
Desse Saco do Martim
O mundo é sempre assim
Para mim, cruel judeu
Foi sina qui Deus me deu
Dela não posso fugir
Todos bebem até cair
Quem paga o pato sou eu.