Feijão atinge maior preço dos últimos 5 anos

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Redação producaodiario@svm.com.br
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A escassez das chuvas ocasionou a queda da produção de feijão e isso faz com que o produto fique cada vez mais caro
 
Iguatu. O preço do feijão de corda disparou na feira livre e mercearias desta cidade. O quilo do produto de melhor qualidade é vendido por R$ 5,00. O feijão de corda alcançou neste mês o maior preço nos últimos cinco anos. O preço da saca de 60 quilos comercializada, ontem, nas Centrais de Abastecimento do Ceará (Ceasa) chegou a R$ 280,00. Um aumento de 100% em relação ao preço praticado no mês de agosto passado. "A oferta está pequena em face da estiagem que assola o Ceará", explicou o analista de mercado da Ceasa, Odálio Girão. "A produção do Estado da Bahia também só vai atender o mercado regional daquele Estado porque lá houve excesso de chuva e a safra foi reduzida".

O feijão de corda é o mais consumido no Nordeste. Na Ceasa, a saca de 60 quilos do feijão mulatinho ou carioquinha também subiu de R$ 142, preço praticado em agosto passado, para R$ 260,00. Girão calcula que o quilo do feijão de corda em Fortaleza chega ao consumidor final por cerca de R$ 6,00. A tendência é de alta em decorrência da falta do grão no mercado regional e em outros tradicionais centros de abastecimento, como na Bahia.

O feijão e o arroz são os dois ingredientes básicos no almoço e no jantar do sertanejo. O brasileiro, de um modo geral, come o grão nas principais refeições diárias. A irregularidade das chuvas provocou frustração de safra. No campo, a produção de sequeiro é praticamente inexistente. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais estima uma queda de 90%. Nas áreas tradicionais de plantio de feijão, na região Centro-Sul, não há lavoura. Até mesmo os agricultores passaram a comprar o produto na feira livre. É o caso do produtor rural Valdir Carvalho. "Plantei duas vezes, mas não deu nada", disse. "Desisti. E o jeito foi vir comprar na feira".

A produção que chega à feira é decorrente de áreas irrigadas, mas que não atende à demanda regional. Em face da elevação do preço do produto, os consumidores estão levando para casa menor quantidade. "Costumava comprar, por semana, de três a quatro quilos, mas hoje estou comprando apenas um quilo", disse a autônoma Mércia Araújo. A dona de casa Luzia Alves também adquire menos grãos. "O preço está salgado e, por isso, estou levando a metade do que costumava comprar".

O quadro atual é o inverso do que ocorreu nesse mesmo período do ano passado. Em decorrência de uma elevada colheita, o preço do quilo do produto chegou a ser vendido durante a safra de 2009 por até R$ 0,50 na feira livre de municípios do Cariri e por R$ 1,00, nesta cidade. No período do verão, entressafra, de agosto a dezembro, o quilo do grão foi comercializado por R$ 2,50.

Em 2009, os agricultores não tiveram lucro, reclamavam do baixo preço do produto, enquanto os consumidores comemoravam e compravam mais, por um preço muito baixo. "Neste ano, ninguém está satisfeito", observa o feirante Francisco Vítor da Silva. "Os agricultores não têm produção. Nós estamos vendendo menos e ganhando pouco e os consumidores estão pagando um preço alto".

O feijão de corda tipo um é oriundo da Bahia. No Ceará, a produção em áreas tradicionais, como Campos Sales, está reduzida. As variedades "Sempre verde", "Pingo de ouro" e "Patativa" são as mais caras e o preço do quilo chegou a R$ 5,00, e mantém tendência de alta. Outros, de baixa qualidade, custam R$ 4,00, o quilo.

O feirante Antônio dos Santos Alencar disse que as vendas caíram em média 50%. "É o reflexo do preço elevado. Ninguém deixa de comer, mas diminui". Desde março passado, que o preço do feijão está em alta e oscilando, mas agora disparou.

Raimundo Pereira, que há oito anos trabalha na feira livre de Iguatu, acredita que a tendência é do preço permanecer em torno de R$ 5,00. Mas outros feirantes veem possibilidade de aumentar ainda mais o valor do quilo. A atendente de clínica médica, Euristânia Lima, está surpresa com o elevado valor do produto. "Está muito caro".

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iguatu, Natália Feitosa, observa que o preço do feijão na quadra invernosa sempre apresentou elevação. "É um produto que oscila muito. Quando há bom inverno, boa safra, o preço despenca e o agricultor praticamente não ganha nada, mas quando está em falta, o preço dispara e quem ganha é o atravessador".

O preço alto do produto deverá influenciar na quantidade consumida pelo cearense, mesmo o alimento sendo a base para as principais refeições.

Enquete

É possível comprar feijão?

"Em razão do preço atual, eu tive que comprar menos. Agora, reduzi de três para um quilo por semana diante da alta"

Mércia Araújo
Autônoma

"Eu fiquei surpresa com o alto preço que não esperava, por isso vou comprar menos feijão a partir de agora"

Euristânia Lima
Atendente

"Plantei duas vezes e perdi. O jeito, agora em diante, é comprar feijão na feira, com sacrifício, devido ao preço"

Valdir Carvalho
Produtor rural

"Nós estamos vendendo menos e ganhando pouco e ninguém está satisfeito, pois o valor está muito alto"

Francisco Vítor da Silva
Feirante

MAIS INFORMAÇÕES

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iguatu: (88) 3581. 1839
Escritório da Ematerce
(88) 3581. 9478

HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER

CARIRI

Consumidores reclamam do preço

Juazeiro do Norte.
"O preço do feijão no Cariri nunca chegou a ser tão exorbitante". Esta não é só a constatação da proprietária de uma pequena marmitaria, Fabiana Olegário, localizada no Centro da cidade do Crato. Os comerciantes também concordam, mas afirmam não haver condição de comercializar o produto com preços mais acessíveis. Este ano, praticamente, não houve produtividade na região. O popular feijão de corda, desde a semana passada, está sendo comercializado a R$ 5,00 o quilo e o mulatinho pode ser comprado a R$ 3,50.

Esse valor significa que, somente este ano, o feijão de corda teve um aumento de mais de 100%. No início do ano, o quilo estava sendo comercializado a R$ 2,00. A maior parte do produto está sendo adquirida de Estados como a Bahia, para ser comercializado no Cariri. Na região ainda há pouco feijão irrigado, conforme o agricultor Geraldo Francisco Melo.

O agricultor afirma que este ano tirou praticamente o que plantou. Foram 30 quilos plantados com a perspectiva de colher, pelo menos, quatro sacos de 60. "Colhi pouco mais de 30 quilos. A seca foi grande e não sei nem como consegui ainda tirar isso", diz ele, ao verificar o prejuízo que teve em 2010.

Alimentação

A comerciante Fabiana não aumentou o preço das refeições, mas diminuiu o conteúdo no prato do consumidor. "Está caríssimo, e tenho que comprar todos os dias cinco quilos", diz ela, ao ressaltar que, mesmo assim, vem tendo prejuízo.

Já o dono de uma mercearia no Centro da cidade, Raimundo Walmir Rodrigues, não duvida que até o fim do ano o feijão chegue a R$ 10,00. "A seca está grande. Há muitos anos que não se via isso por aqui. Até chegar no bolso do consumidor, o feijão tem um custo e a escassez no mercado se reverte para o consumidor final", diz. Essa realidade pode se inverter, acrescenta o comerciante, caso chova até o fim do ano.

Acostumadas

As pessoas reclamam, mas já estão acostumadas com o novo aumento. Pelo menos é que diz o vendedor Gilberto Batista da Silva. Desde a semana passada o seu patrão comprou uma nova remessa de feijão. "Não dá para comer sem feijão, então o pessoal compra, mesmo que diminua na quantidade da compra". No começo, as pessoas estranhavam mais o preço, mas agora já estão acostumando. "Espero que seja por poucos dias", diz.

ELIZÂNGELA SANTOS
REPÓRTER